11 ~ Black Friday
Dizem as crónicas de costumes que a campanha de compras Black Friday veio para ficar. (…)
(73) A propósito de uma das origens desta designação usada para os saldos ter a ver com a escravatura:
Mas a verdade é que só essa suspeita seria suficiente para não se aplicar semelhante designação a um dia em que se anuncia que se vende o refugo ao desbarato. (73)
Concordo por duas razões: primeiro, porque suscita em nós uma certa náusea (como a que nunca me abandonou e me fez não ver nunca o programa Big Brother). Segundo, porque esvazia palavras sérias e profundas do seu sentido, passando elas a ter um significado superficial e banal; e isto trata-se de uma perda, não de um ganho.
Explico-me – Eu não partilho da ideia de que todos os dias os europeus tenham de se ajoelhar pedindo perdão por alguma coisa que durante a sua vida não fizeram, que condenam com veemência, e que há mais de dois séculos ficou reconhecido na europa como crime, ainda que os criminosos tenham longa vida e longa descendência. (…) (73)
Eu também não.
Mas, primeiro, a verdade é que eu, hoje, continuo a beneficiar do que os meus antepassados fizeram.
Em segundo lugar, a escravidão (aliás, como a guerra) varre tudo o que de bom um povo pode construir porque o seu trabalho forçado foi utilizado apenas para beneficiar outros povos.
Em terceiro, a escravidão terá feito desaparecer pessoas e contributos que seriam capazes de alterar a história desses povos oprimidos para melhor; e que poderiam não os ter mantido na miséria em que estão hoje.
Em suma, eu não fiz, mas pelos efeitos que ainda existem e não desapareceram, é como se eu tivesse feito. Nesse sentido, a culpa dos meus antepassados ainda pesa muito sobre os meus ombros.
Posso também acrescentar que não concordo com o pedir perdão quando ele não vem acompanhado de medidas reais e sinceras de reparação do mal feito. Tenhamos em conta que quem pede perdão parece alguém decente, porém nós bem sabemos que os estados e as corporações raro o são efetivamente.
De mais a mais, pedir perdão não será ainda oprimir, já que pode limitar no oprimido a sua liberdade para continuar a reprovar o que foi feito? Como dizia Albert Camus, num texto de julho de 1954, reproduzindo:
(...) o discurso que um dirigente nacionalista árabe lhe fizera, logo a seguir à guerra: «Os nossos piores inimigos não são os franceses colonialistas. Pelo contrário, são os franceses como o senhor. Porque, enquanto os colonialistas nos dão uma imagem revoltante mas verdadeira da França, você dá‑nos uma ideia enganadora, porque conciliatória. Enfraquece‑nos na nossa vontade de lutar. É‑nos mais nocivo que os outros.» (António Mega Ferreira, O Essencial Sobre Albert Camus, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2013, p. 59).
Por tudo isto, também, sou contra os pedidos hipócritas de perdão que, suspeito, o são mesmo na maioria das vezes.
Mas nos dias que correm, só seremos cúmplices desses crimes contra a humanidade se nos calarmos diante da escravatura que prossegue em certos locais da Terra, como no interior do Congo onde milhares de crianças aprisionadas, neste momento, estão a escavar rocha com as mão nuas nas minas de cobalto para que tenhamos o Samsung barato. E quem diz Congo diz Índia, diz Bangladesh e outros lugares do Globo. Para não falarmos dos casos encobertos que acontecem dentro das nossas portas. (74)
Exemplos? Odemira, 2021. Baixo Alentejo, 2021. Etc., etc.
Não precisamos por isso de nos ajoelhar para pedir perdão por aquilo que nós não fizemos, só temos de responder pelo que hoje não fazemos. (…) Mas podemos fazer alguma coisa de útil contra essa ignomínia, e não participar do que dela sobrevive, isso sim. Podemos ouvir os que vivem por perto, e que ainda são vítimas (…) Podemos perceber o que têm para dizer, e como se sentem os que se sentem mal. (…) Perante julgamentos injustos, só atitudes repetidamente correctas, e a demonstração dessa correcção, podem surtir efeito. (74)
Pergunto-me: bastará isto? Evidentemente que não, mas já é um grande passo este, o de ouvir realmente o outro magoado.
Mas eu acrescento: recusar-me a votar no ou nos partidos que fomentam estas injustiças, ou que as defendem ou que nada fazem para lhes pôr cobro (a não ser quando os jornalistas denunciam vigorosa e continuadamente a situação – veja-se o caso paradigmático do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk assassinado a 12 de março de 2020 pelo SEF, em que se passaram meses antes de o governo PS fazer o que quer que fosse… e nem sequer era um governo de maioria absoluta!).
(…) Conrad denunciava o procedimento europeu generalizado de então, mas, ao mesmo tempo, mostrava dificuldade em ler, sobre o rosto de um negro, os traços da humanidade. (76)
Este é um problema que é muito mais insidioso do que parece à primeira vista. Por exemplo, não se passará o mesmo com os homens em relação às mulheres? Reflitamos no caso da constituição das chefias nos órgãos partidários, maioritariamente constituídas por homens. Trata-se de um verdadeiro problema porque há suspeitas de estar profundamente arraigado na natureza humana: falamos aqui do Favoritismo Intragrupal, um viés em que os elementos de um grupo reconhecem-se próximos e favorecem-se mutuamente, ao contrário do que fazem com elementos de outros grupos.
As palavras têm muita importância. Como já referi no início, o seu uso repetido e adulterado esvazia-as de sentido e isso é uma perda para a língua e para a cultura. Por exemplo, quando falamos hoje de "Big Brother" é difícil não associarmos a palavra ao infame concurso televisivo com esse título. Em vez de à sua origem no célebre romance 1984, de George Orwell.
É por isso que não chega reconhecer a importância que as palavras têm, assim como o seu historial sombrio. São precisas ações que justifiquem essa importância que damos às palavras.
Também por isso, Lídia Jorge propõe que se retire a designação Black Friday e que se a substitua por qualquer outra. Aliás, igual na parvoíce, como Lídia Jorge sugere com a sua habitual e finíssima ironia, ao citar algumas alternativas surgidas nos jornais: Good Day, Happy Day, etc. Mas, pelo menos, nenhuma delas sem conotações sinistras.
(...) Mas, na dúvida, não lhe chamem Black Friday.