sexta-feira, 29 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 11

 

(foto de Diário de Notícias de 18-01-2017)


11 ~ Black Friday

Dizem as crónicas de costumes que a campanha de compras Black Friday veio para ficar. (…)


(73) A propósito de uma das origens desta designação usada para os saldos ter a ver com a escravatura:

Mas a verdade é que só essa suspeita seria suficiente para não se aplicar semelhante designação a um dia em que se anuncia que se vende o refugo ao desbarato. (73)

Concordo por duas razões: primeiro, porque suscita em nós uma certa náusea (como a que nunca me abandonou e me fez não ver nunca o programa Big Brother). Segundo, porque esvazia palavras sérias e profundas do seu sentido, passando elas a ter um significado superficial e banal; e isto trata-se de uma perda, não de um ganho.


Explico-me – Eu não partilho da ideia de que todos os dias os europeus tenham de se ajoelhar pedindo perdão por alguma coisa que durante a sua vida não fizeram, que condenam com veemência, e que há mais de dois séculos ficou reconhecido na europa como crime, ainda que os criminosos tenham longa vida e longa descendência. (…) (73)

Eu também não. 

Mas, primeiro, a verdade é que eu, hoje, continuo a beneficiar do que os meus antepassados fizeram.

Em segundo lugar, a escravidão (aliás, como a guerra) varre tudo o que de bom um povo pode construir porque o seu trabalho forçado foi utilizado apenas para beneficiar outros povos. 

Em terceiro, a escravidão terá feito desaparecer pessoas e contributos que seriam capazes de alterar a história desses povos oprimidos para melhor; e que poderiam não os ter mantido na miséria em que estão hoje.

Em suma, eu não fiz, mas pelos efeitos que ainda existem e não desapareceram, é como se eu tivesse feito. Nesse sentido, a culpa dos meus antepassados ainda pesa muito sobre os meus ombros.


Posso também acrescentar que não concordo com o pedir perdão quando ele não vem acompanhado de medidas reais e sinceras de reparação do mal feito. Tenhamos em conta que quem pede perdão parece alguém decente, porém nós bem sabemos que os estados e as corporações raro o são efetivamente. 

De mais a mais, pedir perdão não será ainda oprimir, já que pode limitar no oprimido a sua liberdade para continuar a reprovar o que foi feito? Como dizia Albert Camus, num texto de julho de 1954, reproduzindo:

(...) o discurso que um dirigente nacionalista árabe lhe fizera, logo a seguir à guerra: «Os nossos piores inimigos não são os franceses colonialistas. Pelo contrário, são os franceses como o senhor. Porque, enquanto os colonialistas nos dão uma imagem revoltante mas verdadeira da França, você dá‑nos uma ideia enganadora, porque conciliatória. Enfraquece‑nos na nossa vontade de lutar. É‑nos mais nocivo que os outros.» (António Mega Ferreira, O Essencial Sobre Albert Camus, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2013, p. 59). 

Por tudo isto, também, sou contra os pedidos hipócritas de perdão que, suspeito, o são mesmo na maioria das vezes.


Mas nos dias que correm, só seremos cúmplices desses crimes contra a humanidade se nos calarmos diante da escravatura que prossegue em certos locais da Terra, como no interior do Congo onde milhares de crianças aprisionadas, neste momento, estão a escavar rocha com as mão nuas nas minas de cobalto para que tenhamos o Samsung barato. E quem diz Congo diz Índia, diz Bangladesh e outros lugares do Globo. Para não falarmos dos casos encobertos que acontecem dentro das nossas portas. (74)

Exemplos? Odemira, 2021. Baixo Alentejo, 2021. Etc., etc.

Não precisamos por isso de nos ajoelhar para pedir perdão por aquilo que nós não fizemos, só temos de responder pelo que hoje não fazemos. (…) Mas podemos fazer alguma coisa de útil contra essa ignomínia, e não participar do que dela sobrevive, isso sim. Podemos ouvir os que vivem por perto, e que ainda são vítimas (…) Podemos perceber o que têm para dizer, e como se sentem os que se sentem mal. (…) Perante julgamentos injustos, só atitudes repetidamente correctas, e a demonstração dessa correcção, podem surtir efeito. (74)

Pergunto-me: bastará isto? Evidentemente que não, mas já é um grande passo este, o de ouvir realmente o outro magoado. 

Mas eu acrescento: recusar-me a votar no ou nos partidos que fomentam estas injustiças, ou que as defendem ou que nada fazem para lhes pôr cobro (a não ser quando os jornalistas denunciam vigorosa e continuadamente a situação – veja-se o caso paradigmático do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk assassinado a 12 de março de 2020 pelo SEF, em que se passaram meses antes de o governo PS fazer o que quer que fosse… e nem sequer era um governo de maioria absoluta!).


(…) Conrad denunciava o procedimento europeu generalizado de então, mas, ao mesmo tempo, mostrava dificuldade em ler, sobre o rosto de um negro, os traços da humanidade. (76)

Este é um problema que é muito mais insidioso do que parece à primeira vista. Por exemplo, não se passará o mesmo com os homens em relação às mulheres? Reflitamos no caso da constituição das chefias nos órgãos partidários, maioritariamente constituídas por homens. Trata-se de um verdadeiro problema porque há suspeitas de estar profundamente arraigado na natureza humana: falamos aqui do Favoritismo Intragrupal, um viés em que os elementos de um grupo reconhecem-se próximos e favorecem-se mutuamente, ao contrário do que fazem com elementos de outros grupos.


As palavras têm muita importância. Como já referi no início, o seu uso repetido e adulterado esvazia-as de sentido e isso é uma perda para a língua e para a cultura. Por exemplo, quando falamos hoje de "Big Brother" é difícil não associarmos a palavra ao infame concurso televisivo com esse título. Em vez de à sua origem no célebre romance 1984, de George Orwell.

É por isso que não chega reconhecer a importância que as palavras têm, assim como o seu historial sombrio. São precisas ações que justifiquem essa importância que damos às palavras. 

Também por isso, Lídia Jorge propõe que se retire a designação Black Friday e que se a substitua por qualquer outra. Aliás, igual na parvoíce, como Lídia Jorge sugere com a sua habitual e finíssima ironia, ao citar algumas alternativas surgidas nos jornais: Good Day, Happy Day, etc. Mas, pelo menos, nenhuma delas sem conotações sinistras.


(...) Mas, na dúvida, não lhe chamem Black Friday.


domingo, 24 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 10


10 ~ Diante da Chuva

Quatro, cinco vezes em cada ano, chove na casa do bosque. (...)


(67) «(…) Não pensamos mais de onde ela vem nem para onde vai, não a vemos, não a sentimos. Ter água deixou de ser dádiva, passou a ser instrumento. (…)»

Quantas coisas verdadeiramente preciosas (como a água) deixei/deixámos de “ver”? quantas fontes de bem-estar e de alegria desprezamos no nosso dia a dia neste mundo de abundância que presumimos que vá existir para sempre?


(68) «Todas as águas, uma só água, milhares de formas de vida, só uma fonte de vida. (…)» 

Lídia Jorge leva-nos a sentir como há forças no nosso planeta que nos ligam uns aos outros de forma indissolúvel. Forças todas ligadas à vida. Forças que, enfraquecidas, serão causa da nossa morte ou, pelo menos, do nosso sofrimento.


(68) «(…) Não será o volume da água que estará em causa, será a sua distribuição. Lugares da Terra férteis poderão ficar estéreis, e os estéreis poderão ser inundados de forma inesperada, as zonas ribeirinhas das cidades poderão perder a sua configuração, e essa mudança custará vidas, deslocações, pânicos, tumultos pré-históricos nos tempos históricos futuros. O que posso eu fazer, enquanto ouço chover, quatro, cinco vezes, por ano?

Não posso mudar os rios, não posso mudar os mares, não posso enviar recados às nuvens. Não posso nada, mas acredito no poder de certos actos de cerimónia. Julgo que se não deitar fora a água da cozinha, e com ela regar as plantas que estão no jardim, que ajudarei a manter um equilíbrio remoto, um papel tão mínimo quanto o de um grão de areia na consistência das nuvens. Ainda assim, hei-de fazê-lo, hei-de respeitar a água, (…)»

Será esta a resposta à minha interrogação geral e inicial sobre o que posso fazer para mudar o mundo atual, violento e egoísta, a que me oponho? Uma resposta é, sem dúvida. Mas a minha questão nunca deixa de estar de pé por causa da eficácia insuficiente do que seja o que for que eu faça individualmente.

Mudar o mundo é mudar as pessoas que o habitam, é tentar mudar principalmente as pessoas com poder para o mudar. 

Sei que a mudança é muito difícil; e convencer os outros a mudarem, mais difícil é ainda. Por isso, entendo que a compreensão do outro e a empatia são essenciais como primeiros passos para convencer. Porque hostilizar o outro, atacando-o não só a sua pessoa, mas também as suas ideias e a sua sensibilidade, só servirá para criar ainda mais resistências à mudança. Devemos ter sempre presente que o nosso objetivo não é vencer o outro, porque aí obtemos um adversário; mas, sim, convencê-lo para, dessa maneira, ganhamos um aliado.

Portanto, primeiro ouvir. Depois, compreender (nesta fase, ainda não fazemos afirmações, apenas perguntamos para ter a certeza de que entendemos plenamente a outra pessoa – “Por que razão fazes tu isto assim?”… É que há quase sempre uma razão que nós não imaginamos). A seguir, mostrar empatia (ou seja, mostrando que também nós partilhamos, se não for de mais nada, pelo menos da mesma humanidade). Só depois disto, poderemos começar a esboçar a nossa posição, tendo o cuidado de monitorizarmos se estamos a ser compreendidos e se estamos a convencer, sem querermos ganhar a discussão ou arrasar a pessoa com argumentos – e a melhor maneira de fazer isto é expressarmos a nossa posição por meio de perguntas: “O que achas da seguinte maneira de fazer...?” E ouvir a resposta.

E, depois, não esquecer a vertente política da minha ação. Porque é a política que pode levar a mudanças de fundo. Aliás, são os políticos que os poderosos procuram influenciar primordialmente. Sim, também procuram influenciar as pessoas comuns, mas com a finalidade de estas pressionarem os políticos no sentido do seu interesse particular e, muitas vezes, sinistro. Portanto, a política: não há maneira de lhe fugir. Pior: se optarmos por a ignorar, ela far-se-á sentir na nossa vida de forma incomensuravelmente mais violenta. Além de, claro, tornar todos os nossos outros esforços quase totalmente irrisórios.


(...) ... Esta é a minha contribuição para que se mantenha o ciclo natural da água - Acreditarei no destino dos homens enquanto acreditar na proeza da chuva.


sábado, 16 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 9

 


9 ~ Agustina Como Ninguém

Foi na Alemanha e passou-se há uns anos. (...)


Verdade? Ficção? Não o sabemos. Mas que se trata de uma homenagem muito inteligente a Agustina Bessa-Luís, disso não tenho dúvidas.

Este relato pode também simbolizar, por um lado, a escritora como desvendadora de mistérios. Por outro, a leitora como uma presença fugaz que só se anuncia a si própria pela admiração e pela paixão; e em que, fora destas, desaparece e se torna vaga e indistinta.

Deverá a leitora tentar aproximar-se mais? Será que esta crónica revela os limites que os escritores gostariam de ver os seus leitores respeitar? Suspeito que sim. E, aliás, parece-me bem. Porque a pessoa e o escritor raramente coincidem. Na maior parte das vezes, o estado de espírito da escrita está muito longe do estado de espírito do dia a dia. Assim, quem conheceu o escritor ou o artista (nos momentos superiores da existência) poderá desiludir-se ao conhecer a pessoa (no resvés do dia a dia). Seria isso o que se passaria com Agustina Bessa-Luís e com Lídia Jorge? Com esta última, a minha experiência pessoal leva-me a dizer "Não". Quanto à primeira, temos o testemunho da própria Lídia Jorge e a resposta é também obviamente "Não".


Obrigada até ao fim da minha vida, por todas as suas viagens, Maria Agustina.


sexta-feira, 15 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 8

 

(O corpo do menino refugiado sírio Aylan Kurdi, de três anos, na costa da Turquia, em 2 de setembro de 2015)


8 ~ O Lobo de Tróia

Na tarde do dia 29 do mês de Janeiro, começava a nevar sobre Paris. (...)


(51/2) «(…) Em política, a estupidez não é um handicap.»

Eu começaria por dizer que é ao contrário: É impossível a estupidez ser um defeito ou uma desvantagem, qualquer que seja a área de negócios humanos que se considere. Porque a estupidez é uma inevitabilidade. Há livros sobre isso: Why Smart People Can Be So Stupid, de Robert J. Sternberg; The Intelligence Trap: Why Smart People Make Dumb Mistakes, de David Robson; Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman; e o saudoso e nunca esquecido Princípio de Peter, de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Mas nem precisaríamos destes livros para esbarrarmos continuamente com a estupidez nas nossas vidas. Note-se que estas “estupidezes” se referem tanto às dos outros como às nossas: na verdade, somos também (enquanto humanos, não podemos deixar de ser) contribuintes líquidos para este rico manancial.

Claro que o facto de a estupidez não ser um handicap, depende de para quem. Para o que quer ser político, talvez não seja; desde que não tenha ambições de se tornar num grande líder ou no líder máximo, já que para isso é preciso ter alguma inteligência prática (moralmente bem ou mal dirigida, isso já interessa menos). Mas para quem é alvo das políticas da estupidez, esta torna-se uma limitação grave para muitas coisas na vida, tornando-se até infelizmente uma tragédia a maior parte das vezes.


(53) «(…) pensei que essa região paradoxal que faz da Literatura um campo de reclamação do entendimento e da paz, (…)» Habitualmente, sim, os escritores não estão presos a uma geografia. Felizmente.


(53) «(…) Sou um europeu patriota. Porque o patriotismo está para o nacionalismo como a dignidade está para a barbárie. (…)» (Roger Cohen). 

note-se que uma sociedade que valoriza a competição, e a ensina às crianças desde pequenas, favorece o florescimento do nacionalismo.

Saliente-se também que a barbárie corresponde a um estado de quem é rude, grosseiro ou violento. Está certo. Embora eu ache que o oposto de dignidade seja degradação. É mais assim, degradados, que eu vejo muitos políticos e outros poderosos que se descomprometem com a dignidade (muitas vezes, porque acreditam genuinamente que ela pode ser mercadejada).

Todos estes conceitos, patriotismo, nacionalismo, dignidade, são conceitos que apenas se conseguem definir com alguma dificuldade. Mas, pior é tentar traduzi-los em práticas concretas (não só em termos de conteúdo, mas também em termos da forma que esse conteúdo vai tomar). Nestes territórios, a nossa visão não é clara. E, muitas vezes, navegamos à vista, somente orientados pelos nossos valores (se os tivermos).


(55) «(…) esta é a melhor imagem da identidade da Europa. Um rosto luminoso (…), e um outro rosto, obscuro, (…)» 

A Europa é um Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Qual deles ganhará? É certo que, no final, mesmo final de todos os tempos, perderemos todos. Enquanto isso não acontece, gostaria que a Europa estivesse em modo de Dr. Jekyll. Receio, porém, que estejamos a transformar-nos em Mr. Hyde. 

E, por isso, para já, estamos a perder (quase) todos.

O ser humano é o único habitante deste planeta que destrói a Natureza e mata os da sua espécie de forma planeada, organizada e em grandes números. Representará isto a sua essência? Acredito que não; ou então Darwin estava errado e os criacionistas é que estão certos ao defenderem que nós, humanos, somos construídos à imagem de Deus.

Por isso, quando se afirma que o homem é um animal entre outros animais, em vez de interpretarmos isto como uma degradação, podemos entendê-lo como uma afirmação de esperança e, no limite, até de elogio ao homem. Embora, como Lídia Jorge refere em 29 ~ O Novo Bestiário, tal afirmação possa ser utilizada de forma destrutiva e violenta para o ser humano.

Finalmente, voltando aos políticos e outros poderosos. Note-se como, no nosso imaginário, um lobo é muito mais perigoso do que um cavalo - por isso, Lídia Jorge usa a expressão "Lobo de Tróia" para referir determinados políticos.

Já agora, sobre estes, pergunto-me se a maior parte deles não constitui um tipo de humanidade à parte, sem princípios, sem lealdade (a não ser com os que estão acima deles e, mesmo assim, nem sempre), e sem afetos genuínos (daí não procurarem o encerramento das fábricas de armamento; ou, nos Estados Unidos, a proibição da venda livre de armas que tanto tem contribuído para sucessivos massacres de crianças; ou, no ocidente, procurarem travar o genocídio do povo palestiniano por Israel). Não tenho resposta para esta minha interrogação.


(56) Talvez seja isto que dá à Europa este rosto dual, qual deus Jano: de um lado, o bom até ao sublime; de outro, o mau até ao horrendo. O que faz Lídia Jorge terminar com um certo sarcasmo, mesmo quando a estupidez tem resultados desastrosos:


(...) Em política, desde que haja ambição e poder que a suporte, não existe stupidity.

sábado, 9 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 7

 


7 ~ A Seita Unida

Era madrugada alta, no meio do escuro, o telemóvel deu um sinal de mensagem. (...)


O tema desta crónica que me chamou a atenção foi como o peso da vida "externa" contemporânea é capaz de nos envolver em pânico (daí Clarice Lispector desejar, 47, ter alguém que assumisse esse peso por ela). 

E como são os vários mundos da escrita e da leitura (que incluem o mundo digital) que podem aproximar as pessoas, aliviando essa carga de pânico.

Note-se como nesta crónica Lídia Jorge mostra os benefícios do mundo digital para ajudar a aproximar as pessoas. Curiosamente, aqui, todos permanecem nesse mundo, ninguém pega no telefone e fala com a outra pessoa, numa conversa boa face a face. O que causa alguma estranheza, sabendo nós como Lídia Jorge nos alerta para os perigos (reais, diga-se de passagem) desse mundo.


(45) Como o capitalismo selvagem e consumista invade a nossa vida privada. E quando esses anúncios nos chegam, tentando vender produtos que pensámos recentemente em comprar, então ficamos com medo: o que sabem "eles" de nós? E como conseguiram sabê-lo?


(46) «(...) Porque teria dito Juan José Millás que ser escritor é viver rodeado de pânico? (...)»

Experimentemos interpretar literalmente este autor.

Estas linhas foram escritas antes da pandemia de Covid-19. Hoje, o seu sentido seria mais claro ainda. Mas já antes disso havia muitos sinais desse pânico por toda a parte. Por outras palavras, não são só os escritores a viverem rodeados de pânico. Atrevermo-nos a ser humanos, hoje, é vivermos rodeados de pânico.

Nem é preciso pensar só nos políticos que defendem e instituem realidades cada vez mais hostis para os mais fracos (e, hoje, a esmagadora maioria das pessoas pertence ao número dos mais fracos). Aliás, pergunto-me se as pessoas que votaram nestes líderes não se sentem também elas rodeadas de pânico; e recorrem à raiva e ao ódio contra os outros para sacudirem esse medo (que, no entanto, nunca as largará e até aumentará). 

Nem é preciso pensar nas pessoas que, nas redes sociais, dão vazão àquele medo, sendo cada vez mais e mais agressivas para os outros, contribuindo (saberão que o estão a fazer?) para o espessar desse clima de pânico que nos rodeia.

Por exemplo, eu, que já nada espero dos políticos, que não me envolvo nas redes sociais, quanto mais vivo em lugares onde a área construída e betumizada excede em milhares de vezes as áreas arborizadas e relvadas, mais sinto o pânico a encerrar-me num espaço vazio onde a minha respiração se torna cada vez mais opressiva e difícil.

Não, não são só os escritores a sentirem-se rodeados por esse pânico.

Vamos um pouco além do círculo da nossa vida estritamente pessoal. Pensemos, por um momento, sobre o que representa ser mulher ou negro ou cigano ou judeu ou homossexual hoje. Principalmente, se tiver filhos. Não estarão estas pessoas hoje em dia cercadas de pânico? É que não foi há muito tempo que pertencer a um destes grupos representava uma sentença de morte para si e para os seus filhos. Nós, os brancos caucasianos e cristãos até à n-ésima geração, podemos esquecer isto. Eles não podem permitir-se a esse luxo.

Acrescentaria que alguém que se atreva a ser humano, hoje, terá infelizmente de viver rodeado de pânico.


(46) É uma pergunta interessante, a de que a realidade trazida até nós pela Ciência, Política, Justiça, Arte, Pobreza, Riqueza, Indiferença e até a Caridade é que contribui para nos rodear de pânico. Porquê?

Porquê a Ciência? Pelos instrumentos cada vez mais poderosos que vai pondo à disposição daqueles que já são os mais poderosos do mundo, a fim de poderem mais eficazmente perseguir os seus próprios interesses egoístas sacrificando a maioria da humanidade?

Porquê a Política? É preciso perguntar? Depois de os políticos, hoje em dia, se mostrarem cada vez mais indiferentes à sorte das pessoas reais, em prol de interesses mundanos ou abstratos que são de uma utilidade nula para essas pessoas?

Porquê a Justiça? Por causa da falência em conseguir que os mais poderosos obedeçam à lei e, não o fazendo, que sejam obrigados a reparar o mal feito?

Porquê a Arte? Porque ela (talvez como espelho incómodo da nossa sociedade) cada vez mais nos inquieta, nos faz sentir ignorantes e incapazes, e nos transmite uma imagem de violência e de destruição?

Porquê a Pobreza? Não só ela em si, afetando profundamente milhares e milhares de pessoas (mais fortemente as crianças, as menos responsáveis de todas), mas pela falta de vontade política e económica de resolver esse problema? Optando apenas por uma assistência social magra que alivia, é certo, mas que é uma opção que também contribui para perpetuar essa mesma pobreza? Porque estamos a criar e a alimentar a fúria de milhões de pobres?

Porquê a Riqueza? Porque ela é conseguida à custa do sofrimento de milhões de pessoas? Porque ela é egoísta e não retribui os benefícios que recolhe? Porque contribui para destruir não só pessoas, como o próprio planeta?

Porquê a Indiferença? Nem é preciso responder, quase. Não sabemos todos como a indiferença é a pior resposta que podemos receber dos outros? Porque através dela é a nossa própria existência que é ignorada e, portanto, negada? Abrindo caminho para toda a destruição de que o ser humano é capaz de infligir ao seu semelhante?

Porquê a Caridade? Porque há pessoas para quem o conceito de caridade é de rejeitar totalmente? O que serão essas pessoas capazes de fazer(-nos)? Porque há caridade construtiva, mas há também aquela que é destrutiva, aquela que é dada ao preço da indignidade e da desumanização?


(46) «(…) este vício de inventar fábulas que oferecemos aos que gostam de ler histórias inventadas, e de que agora cada vez menos gente gosta? (…)»

Na minha opinião, o ser humano, em qualquer idade, sempre gostou, gosta e gostará de histórias inventadas. Pois são elas que dão e acrescentam sentido à sua vida e ao mundo que o rodeia. Um mundo onde o excesso de informação a que estamos submetidos rouba ou corrói aquele sentido.

Na realidade, a Internet exacerbou essa paixão por essas e outras histórias – como se pode ver pelo fascínio crescente pelas teorias da conspiração. A verdade é que há muita gente agora que se sente atraída por histórias inventadas (absurdas) como nunca antes. E ISSO faz-me sentir não só rodeado mas invadido de pânico! 

Por outro lado, se admitirmos que as pessoas gostam cada vez menos das histórias inventadas pelos artistas, poderemos interrogar-nos se não haverá também cada vez menos escritores que, com amor pela língua, com devoção, seriedade e honestidade, sejam capazes de escrever boas histórias - que não contribuam para o pânico nem para a destruição de sentido?

É que eu acredito que gostamos de histórias inventadas porque as reais são demasiado brutais e violentas e assustadoras. O que me faz pensar sobre que realidade horrorosa que eu não imagino (até porque fugi de parte dela há uns anos) está a ocorrer hoje em dia que facilita o facto de as pessoas até gostarem das histórias violentas e de terror - vejam-se as séries e filmes desse tipo que são dominantes nas preferências das pessoas.


(46) Já mostrei que sou Juan José Millás. Aqui, sou também Rui Zink, eu também leio os livros de Lídia Jorge. (47) Serei também Clarice Lispector? Na verdade, numa sociedade tão invencivelmente complexa como a de hoje, quem se pode dar ao luxo de não ser? Realmente, só quem já tem uma governanta-secretária...


(47) Lídia Jorge, ao escolher citar Ignacio de Loyola  Brandão, põe os "bandoleiros que assaltaram os cofres do Estado e as empresas públicas ao longo de anos" como fonte do nosso pânico. Quem são eles? São facilmente identificados: à cabeça dessa mafia, sem dúvida, os políticos e os banqueiros. Que partilham essa característica comum de nunca serem responsabilizados pelas decisões que tomaram e que foram destrutivas para milhares e milhares de pessoas. 


(48/49) Interpretar as palavras de Clarice, o que ela terá querido dizer. Momentos são bons, embora imperfeitos. E são tão poucos! É por isso que a nossa vida não pode apoiar-se apenas nesses momentos, precisa de algo mais. De quê? Eu diria que, da minha parte, uma certa humildade para aceitar o que a vida me oferece, sem deixar de lutar pelo que a vida me pode oferecer realisticamente. Sim, porque já Clarice o diz logo no início: "Meu Deus, como o mundo sempre foi vasto (...)" - vasto nomeadamente no que tem para oferecer...


(49) O último parágrafo desta crónica (abaixo transcrita) constitui um dos trechos deste livro que mais me comoveu. 

Lídia Jorge fala-nos da seita dos que, rodeados de pânico, estão a ler este e outros livros. Porque estimular a imaginação é importante, para sermos capazes de pensar num mundo alternativo a este. 

Além disso, todos juntos sentiremos a perda mais como experiência, e o pânico como campainha que nos acorda para os outros (tal como a LJ naquela manhã)

É uma seita que procura a beleza simplesmente porque ela conforta. Porquê? Porque tem em si uma vasta e imperecível promessa de perfeição e de paz.


Muitas vezes me refiro a seita como a comunidade de escritores, editores, livreiros e leitores que teima em manter os livros no lugar dos livros, como artefactos da imaginação imprescindíveis à nossa sobrevivência. Uma seita que se estreita e se alarga, conforme a nossa crença na causa, e o esforço que fazemos por ela. Mas hoje, eu sei que a seita tem ainda uma outra dimensão, a de nos ampararmos uns aos outros, para sentirmos a perda não como perda mas como experiência, e o pânico, não como pânico mas como campainha. E a beleza como supremo conforto. Foi o que disseram naquela manhã, Pilar del Rio, Juan José Millás, Rui Zink, Elisabete Abrantes, Ignácio de Loyola Brandão, Clarice Lispector e seu cão Ulisses.


sexta-feira, 8 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 6

 


6 ~ O Céu Estrelado

Há pessoas da minha família que são aficionadas da Astronomia e das Ciências do Cosmos. (...)


E, possivelmente, haverá muito mais pessoas aficionadas da Astrologia do que da Astronomia. De certa forma, esta crónica procura explicar este fenómeno - isto é, inclui-o, apesar de nunca o referir explicitamente.


O tema central desta crónica parece-me ser a pequenez do ser humano face à incomensurável dimensão do que o rodeia; e como podemos lidar com isso. 

Essa pequenez sempre existiu, só que antes não o sabíamos. 

Qual a reação de Lídia Jorge perante esta desproporção? Com uma ironia fina, diz:

(40/41) - "A certa altura atiro a toalha ao chão e encosto-me às boxes, recolho ao mundo primitivo de onde provenho." 

E, depois, vai dando exemplos em (41).


Depois, investiga o porquê desta atitude (42).


Lídia Jorge fala um pouco do orgulho do saber, do conhecimento astronómico em particular. E, por oposição, da modéstia do viver no dia a dia com os pés assentes na terra; e com a cabeça encostada «ao poial quente do Verão, e imagino que existe no céu uma estrela que olha pela minha vida como me ensinaram há muitos anos.» (41)

Mais à frente, acrescenta (41-42):

«Sou, pois, uma primitiva a braços com uma memória arcaica e não encontro modo de ultrapassar a minha linguagem feita de irrealidade.

Porque será?»

Lídia Jorge aventa a hipótese de o nosso medo ancestral e primitivo estar na base deste afastamento em relação à racionalidade. Sim, há um medo primitivo que nos leva a procurar conforto e segurança nas pequenas coisas materiais do dia a dia, e não em teorias por mais verdadeiras e maravilhosas que sejam.

Embora esta razão apresentada por Lídia Jorge possa ser de facto a mais profunda (isso já não discutirei), penso que ela não será a principal para explicar uma adesão a um certo primitivismo (primitivismo esse onde entra a Astrologia de que eu falava há pouco, mas que nunca é referida pela autora). 

Na minha opinião, a razão principal é a seguinte e tem duas componentes:

Uma, tem a ver com o conteúdo científico. É-nos atualmente impossível, já nem digo dominar, mas no mínimo perceber a ciência que existe já feita e a fazer-se diariamente. Note-se que, se lhe dedicarmos toda a nossa vida, até poderemos vir a dominar uma ínfima parcela desse saber. Mas isso não está de todo ao alcance da esmagadora maioria das pessoas que, por esse motivo e justificadamente, já desistiram de aceder à ciência atual.

A segunda componente tem a ver com as linguagens científicas que são usadas para fazer e partilhar o conhecimento científico. Essas linguagens estão também elas completamente fora do alcance da esmagadora maioria das pessoas. Não se trata só das próprias palavras que são usadas, cuja complexidade não é possível de abarcar com o recurso a um dicionário (e sem conhecer a respetiva teoria que lhes deu origem). Mas também com a  própria linguagem que é cada vez mais usada em todos os domínios da ciência: a linguagem matemática. Também esta já não é possível de compreender pelo comum das pessoas. Nem, aliás, por muitos dos próprios cientistas, pois vemo-los muitas vezes digladiarem-se a propósito de eventuais erros matemáticos cometidos nas suas respetivas investigações. 

É isto que eu penso que nos afasta irremediavelmente da ciência e nos aproxima de quadros mais simples e acolhedores que pretendem explicar a realidade que nos rodeia.


O que podemos fazer, então, para diminuir aquela desproporção? Inteligência, conhecimento, imaginação e linguagem.


Há que não desistir de enfrentar o mistério (por isso gosto de Vergílio Ferreira quando nos estimula constantemente a olhar de frente o mistério), há que lutar por compreendê-lo e por abarcá-lo, pelo menos. 

Se calhar, recorrendo também ao humor leve que é um apanágio de Lídia Jorge: "aficionadas" (como se fosse tourada), "entre a cesta da roupa e a gaiola", "atiro a toalha ao chão" (40/1), etc. 


(41) O conforto podemos buscá-lo às memórias boas da infância. Mas quem não as tem não acede a esta fonte de apoio emocional. 


(41/2) Porquê esta necessidade de conforto que só é satisfeita com ideias primitivas? Isso é uma boa ideia? Quando devemos lutar contra isso? E como? Conseguimo-lo fazer sozinhos, ou precisamos da ajuda de outros e de estar abertos a críticas à nossa maneira de pensar? 


(42) O peso que o medo exerce sobre nós para nos empurrar para acolhermos de bom grado ideias fantasistas. 


(42 e 43) - Como interpreta LJ as atitudes de Dawkins e de Hawking? Foi isso o que eles disseram mesmo? Penso que LJ interpreta mal as declarações de Dawkins e de Hawking. Eles não rejeitam a fantasia por si, mas sim aquela que nos é oferecida como verdade revelada pelas religiões (e há até cientistas crentes, mas que evitam misturar os campos, defendendo ao mesmo tempo que as leis que procuram descobrir foram criadas por Deus). 


(43) Será que os cientistas só querem explicar o Universo e conhecer as suas leis, rejeitando pensar sobre ele? Penso que os cientistas não excluem as interrogações Porquê e Para Quê, no âmbito da ciência, embora talvez não da filosofia. 


(43)

«(...) Compreendo o deslumbramento que sentem todos aqueles que percebem que estão a aproximar-se da equação que explicará definitivamente a origem de Tudo. Mas a pergunta que se fará depois, com essa fórmula na mão [que, recordemo-lo, a quase totalidade da humanidade será incapaz de compreender], levantada acima da nossa cabeça, será e porquê, e para quê essa criação?»

Concordo.

Vejamos: temos, na nossa neuropsicologia, redes de neurónios que se focam na obtenção da segurança e na busca de recursos. Esta arquitetura do cérebro leva a que o ser humano raramente ou, pelo menos, durante muito pouco tempo, se sinta satisfeito e tranquilo com o que tem. Ou seja, ela faz de nós seres sempre em busca de algo, seres sempre em projeto. 

Ora, por isso mesmo, Lídia Jorge aventa (e, na minha opinião, com razão) que mesmo quando tudo estiver descoberto, tudo estiver explicado, todas as necessidades satisfeitas, mesmo aí surgirá a interrogação que nós encontramos no fim de todos os caminhos: Porquê? Para quê?

Apesar da nossa pequenez, dominaremos num sentido figurativo (como dominamos uma língua) a desproporção esmagadora entre cada um de nós e o Universo pela linguagem humana metafórica, seja a científica ou outra qualquer. Talvez, mais uma vez, valorizando implicitamente a imaginação humana em geral e a literatura em particular. 

E aí entrará mais uma vez a nossa linguagem humana para acedermos a um sentido de tudo o que nos rodeia. É nela que está a nossa esperança de podermos continuar a expandir a nossa humanidade. Acrescento que é por isso que devemos cuidar dessa linguagem, recusando-nos a abastardá-la em usos que conduzam ao seu esvaziamento ou à sua morte lenta.


(...) O que quer dizer que o Universo parece desconhecer-nos encobrindo a sua fórmula, mas nós dominá-lo-emos, enquanto usarmos para defini-lo a nossa linguagem humana.


quinta-feira, 7 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 5

 


5 ~ Estação do Oriente

Há poucos dias tive acesso a dois episódios de uma série sobre cidades do futuro, e de novo me maravilhei com o poder da imaginação. (...)


Qual é a questão-chave desta crónica? 

Talvez mais um exemplo de como somos bastante impotentes perante os poderosos. 

Penso que, na verdade, ou estes são bons, ou ficamos muitas vezes em situação difícil. 

Desejaria que, pelo menos, conseguíssemos garantir essa bondade naqueles em que podemos votar (há muitos poderosos que, pelo contrário, estão fora do nosso alcance).

E qual poderia ser uma medida para ajuizarmos da bondade desses poderosos? Para mim, maldoso é o que propõe e coloca em prática soluções à custa da dignidade e do sofrimento de outros. Que podemos ser ou vir a ser nós. Por todas as razões, não é nestes que devemos votar.


33 - Refere Lídia Jorge que agora é mais fácil idealizar com perfeição, graças às tecnologias digitais (dou o exemplo: o AutoCAD). 

Mas há sempre uma grande diferença entre o que idealizamos e a dura realidade. Por vezes, deliberadamente ou por incúria (como parecem ser os casos aqui relatados pela autora).

Mas, outras vezes, porque é da natureza da realidade nunca deixar que se cumpram na perfeição todos os planos que se façam anteriormente. Daí o provérbio: "O homem planeia e Deus ri." 


(33) Lídia Jorge dá vários exemplos de desrespeito dos urbanistas pelas pessoas comuns que usam as construções que eles projetam. No fundo, a ideia subjacente destes arquitectos é a mesma que aquele político do PSD defendia em 2014 quando dizia: "A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor". Ou seja, Portugal fica mais bem visto com estas construções arquitetónicas; que as pessoas fiquem pior, isso é algo que não lhes diz respeito.

No caso em apreço, a responsabilidade é do arquitecto Santiago Calatrava. Mas não o é menos, recordemo-lo, daqueles que escolheram o projeto deste arquitecto como vencedor do concurso .

Esta é uma crónica triste que só não é completamente amarga porque Lídia Jorge tempera a sua zanga com uma certa ironia a revelar uma compaixão viva pelo mais fracos, pelos que não têm voz.

E critica aqueles que sonham com um futuro ideal e que desprezam todas as pessoas que se encontram longe, muito longe de se encaixar nesse ideal.

(36) Lídia jorge gostaria que ninguém ficasse excluído dos benefícios destas cidades do futuro. Mas apelida esse desejo de "heresia". Porquê "heresia"? Penso que é porque pode ser acusada de irrealista. É claro que esta acusação seria feita por aqueles mesmos que se mostram irrealistas (mas que nunca o admitem e acusam os outros de o serem) ao desenhar aquelas cidades do futuro que nunca chegarão (nunca chegaram até agora) a existir. 


Depois, subtilmente, Lídia Jorge interroga-nos se estes espaços amplos e luminosos, mas vazios de conforto e de calor humano, não contribuirão para uma certa cegueira nossa. É com um episódio (36 e 37) pungente passado com uma pedinte que Lídia Jorge nos confronta.

Trata-se de um exemplo pessoal de como, apesar do ato compassivo, também ela menosprezou a fala de uma pessoa que não se encaixa. Penso que devido a preconceitos, provavelmente. Tal como o arquiteto e os decisores políticos fazem/fizeram na Gare do Oriente, menosprezando as pessoas comuns. 

Porque é que Lídia Jorge partilha connosco este episódio? Imagino a autora alertar-nos com muita arte para estarmos atentos às vezes em que cada um de nós podemos ter momentos em que não conseguimos atuar à altura dos nossos princípios morais.

(37) A essa pedinte, diz Lídia Jorge que «Não é preciso mentir. (...)» 

Não será? Na verdade, não sei se não é preciso mesmo; e nós, tal como Lídia Jorge, esperemos que nunca cheguemos a precisar. Mas eu avanço a hipótese de que, provavelmente, sim, é preciso mentir. 

Primeiro, porque toda a gente mente, mendigo ou não (ainda por cima, com tantos e tantos a acreditarem piamente nas suas próprias mentiras).

Segundo, porque a verdade não é conhecida por enternecer o coração das pessoas. E isto é ainda mais real, sem dúvida alguma, numa sociedade endurecida por relatos, não só reais como ficcionais, das piores violências que o ser humano é capaz de imaginar.

De qualquer modo, não se tratou aqui desse caso. E foi um choque para Lídia Jorge (e para nós, seus leitores) descobrir que a pedinte falava mesmo verdade.


Como conclui a autora esta crónica? Receando a exclusão dos que não se encaixam. 
(37) E em vez de terminar com uma nota pessimista, finaliza com uma ironia cáustica. Ou poderemos interpretar que termina com uma esperança otimista?

(...) Espero que o filho da rapariga do Leste, e o filho do seu filho, não sejam excluídos da cidade perfeita. Quando se precisar de um pão, olhar-se para o céu e ele cair no regaço já com manteiga e tudo.


Em Todos os Sentidos - 4

 



4 ~ O Soldado Gertrudes

Decorreram mais de cem anos sobre a Batalha de La Lys, e no entanto a história desse desastre não pára de nos ensombrar como nação. (...)


Aqui, Lídia Jorge expõe a sombra da guerra que pende permanentemente sobre todos nós.


O início desta crónica suscitou-me algumas perguntas:

27 - Para quem, hoje, a Batalha de La Lys significa algo? E o que é que significa? Porque, para mim, La Lys evoca-me a figura de um compatriota miseravelmente equipado e com uma tristeza escura a pesar-lhe na face.

27 - Que mitos existem à volta deste evento? Que narrativas? Não conheço ou será que o que penso que sei é em si mesmo um desses mitos.

27 - Porquê "a derrota de um temperamento nosso"? De que temperamento estará Lídia Jorge a falar e que foi derrotado? E o que lhe aconteceu depois?

27/8 - Em que medida é que celebrar o desastre é vermo-nos ao espelho - incompetência, miserabilismo, desprezo e ódio pelos compatriotas?

Perguntas para as quais não tenho resposta.


(30) "(...) [Manuel Gertrudes] Costumava dizer - «Muito gostam aqueles que mandam de fazer a guerra. Eles não vão lá. Se fossem, não a faziam.»

E assim terminou para sempre a narrativa do soldado Gertrudes."

Precisamente. O que não os desculpa nem justifica. Porque, tal como eu sei, sem nunca ter participado em nenhuma guerra, eles sabem bem o que é a guerra. Nem são desprovidos de um pouco de bom senso. O que lhes pode faltar é um pouco mais de imaginação, arte, e compaixão pela vida em geral e pelos seres humanos em particular. 

Provavelmente, são resultado do fracasso de uma educação, ou são o produto de uma educação que foi direccionada para isto mesmo, quem sabe? O que não tenho dúvidas é que resulta de uma falta de prática - como dizem os americanos, "Use it or lose it".

É trágico que selecionemos como nossos líderes pessoas com esta deficiência fundamental. Aliás, veja-se como praticamente mais ninguém quer fazer a guerra senão aqueles que mandam (falamos, claro, dos políticos e de outras figuras pardas por detrás deles).

Também isto não desculpa nem justifica (embora não com a mesma força que usamos em relação a quem manda) todos aqueles que apoiam, entusiasticamente ou não, uma guerra. Não confundir com apoiar a vítima de uma guerra. Também esses contribuem. Aliás, nas democracias, já contribuíram ao elegerem líderes com uma inclinação mortal para se suicidarem arrastando com eles todo um povo. É que todos estes eleitores, seguindo o exemplo de Bartleby, poderiam sempre dizer «Preferia não o fazer.»


Com tudo isto, há uma pergunta que se impõe:

Porque somos a única espécie do planeta que faz guerra entre si, de forma organizada e em escala gigantesca?

A minha proposta de explicação reside na arquitetura do nosso cérebro. Ou seja, naquela parte do nosso cérebro que é especificamente humana e que não partilhamos com os animais. Refiro-me, naturalmente, ao nosso cérebro racional, aquele que é plenamente capaz de trazer muita coisa boa às nossas vidas. Mas que, infelizmente, tem também a capacidade de criar uma multiplicidade pavorosa de infernos. Porque é o cérebro racional que consegue suster por tempo indeterminado as emoções negativas; e que consegue amplificá-las, traduzindo-as em impulsos e comportamentos dos mais irrealistas e destrutivos que possamos imaginar. Atualmente, ajudados por meios tecnológicos que facilitam uma selvajaria sem limites (porque não chegamos sequer a ver as vítimas).

É esta a tragédia do ser humano: a parte da nossa fisiologia que contribuiu para a ascensão da nossa espécie é a que contribui para um sofrimento desmedido e sem fim de todos os seres vivos deste planeta. Conseguiremos alguma vez sair desta espiral negativa? Conseguiremos alguma vez dominar este nosso cérebro?

Talvez começando simplesmente pelas nossas palavras. Dominando-as. Respeitando o seu significado e o seu poder. Estando alerta para aqueles que usam a língua para a destruição, para o ódio. Conscientes de que se não apaga uma fogueira deitando-lhe mais lenha, ou derramando gasolina sobre ela. Portanto, usando a palavra para acalmar, não para combater o outro; pois, neste caso, estaremos a comprar o primeiro estágio de uma guerra.

Depois, procurar saber os factos. 

Por exemplo, que países envolvidos em guerra nunca ganham, mesmo quando saem como vencedores dela. Primeiro, pelos mortos, feridos, mutilados, perturbados mentalmente. Segundo, pelo sofrimento gerado para quase toda a sua população. E, finalmente, de um ponto de vista material e patriótico, pelo enfraquecimento do país - veja-se o Reino Unido: o império "no qual o sol nunca se punha", de tão vasto que era; e como ficou depois da 2ª Guerra Mundial.

Num conflito, a única hipótese de se sair a ganhar alguma coisa (ou, pelo menos, a perder pouco) é negociando, negociando e negociando. A opção pelo recurso às armas é um jogo demasiado perigoso e com um fim demasiado certo.

Um segundo facto que é preciso reconhecer é que a guerra não é natural no ser humano, não faz parte da sua natureza. Entre várias provas possíveis do que afirmo, apresento quatro: 

a) as perturbações mentais das pessoas que passaram por uma guerra (se fosse natural, não constituiria um choque nem originaria qualquer trauma).

b) e a facilidade com que a guerra pára quando os combatentes entram em contacto mais próximo uns com os outros. Como aconteceu na 1ª Guerra Mundial.

c) o reconhecimento pela ciência que um dos principais fatores de pertencermos ao menos de 1% das espécies que sobreviveram no nosso planeta se deveu ao espírito de cooperação entre os seres humanos. Sozinhos, somos presa fácil para qualquer outra espécie predadora. Juntos, tornámo-nos na espécie dominante do planeta.

d) Raramente são os povos que tomam a iniciativa, por si próprios, de uma guerra. Essa iniciativa vem sempre dos políticos. O povo quer paz, uma vida digna e segura para si e para os seus filhos. Já nas narrativas mais antigas se refere isso mesmo. Veja-se Ulisses, o herói da Antiguidade de quem nos sentimos mais próximos, que faz tudo o que pode para não ter de ir fazer uma guerra a Tróia decidida pelos políticos poderosos da altura.

E, finalmente, não só para sair, mas também para nem entrar sequer numa espiral de destrutividade, pensarmos por nós próprios. Não aceitando acriticamente que outros ditem o que havemos de pensar. 

Principalmente, perceber que não são os "inimigos exteriores" os causadores das nossas dificuldades em satisfazer as nossas necessidades. Os verdadeiros inimigos, aqueles que põem em causa as nossas necessidades mais básicas, estão no meio de nós e muitos deles foram colocados por nós em posições de poder, de onde espalham a sua destrutividade pelos povos.

Acima de tudo, reconhecer que os políticos (declarados ou disfarçados de jornalistas, pensadores, etc.) tornam uma guerra iminente quando contribuem para que desumanizemos aqueles que eles escolheram (é uma escolha, já que hoje são uns, amanhã são outros) para serem nossos inimigos.


Fica assim garantida a não existência de guerras? Infelizmente, não. Porque nem todos os países vivem em democracia e, portanto, o povo não tem poder de decisão. Porque, nas democracias, os políticos mentem sempre e há alguns que mentem mais do que os outros e é difícil distingui-los. E, por último, porque, como diz Vergílio Ferreira (Conta-Corrente 1, 31 de agosto de 1975): "A questão é sempre a mesma: um indivíduo com uma metralhadora tem sempre" razão" sobre uma multidão de homens desarmados." E se esse indivíduo decide que se faz uma guerra, todos os outros pouco podem fazer...


Como conclui Lídia Jorge esta crónica? Com uma interrogação, como é habitual nela. Mas sinto que uma interrogação acompanhada de uma imagem de pavor perante o (ab)uso do poder pelos políticos.


(...) Naquele dia, 11 de Novembro, eu voltei a pensar no relato do soldado Gertrudes, e a cada dia que passa, mais e mais, não paro de pensar.




Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...