32 ~ A Rapariga dos Fósforos
Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga dos
Fósforos. (…) (201)
Também eu. Histórias de Hans Christian Andersen que me
encantavam, me faziam sonhar e muitas das quais deixaram um rasto longo e
emotivo que chegou até hoje. Tal como se pode deduzir que aconteceu a Lídia
Jorge (ver a sua última afirmação desta sua crónica).
Antes de passar à crónica de Lídia Jorge, partilho a notícia cuja foto escolhi para encimar este meu comentário:
Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".
Saliento que não se trata de pobreza simples, estamos a falar
de «pobreza extrema»! Eu nem faço ideia do que esta expressão quer dizer
na prática real e concreta do dia-a-dia. Nem consigo imaginar, só no nosso país
dos lucros fabulosos das grandes empresas e bancos, o que são 170 mil crianças!
Sim, em 2023, num país civilizado e numa das regiões mais
civilizadas e desenvolvidas do mundo, temos pelo menos 170 mil “raparigas dos
fósforos”!
E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil?
Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos,
como indica o Relatório da OCDE de 2018:
Talvez não por acaso, Hans Christian Andersen percebe que a única solução para
a sua heroína (sim, escolho intencionalmente esta palavra “heroína”, pois é o
que são verdadeiramente todas estas crianças!) é a morte.
Muitas crianças no nosso país seguem o seu exemplo: “Suicídio é a principal causa de morte em crianças e jovens adultos em Portugal”. E, hoje
em dia, cada vez mais crianças, e cada vez mais novas, tentam suicidar-se.
Lídia Jorge chorava e continua possivelmente a chorar, como
muitos de nós.
(continua em 32, b)


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