quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 21

 

(Nitra Art, Lies, Smell Like Cheese, 2019)


21 ~ Aurora e a Mentira

Grande tema é a mentira, e dele não nos podemos arredar sob pena de não entendermos nada deste mundo. Se fosse votado o termo que melhor caracteriza este início de século, por certo que a palavra ganhadora seria mentira. (...)


Também creio que, pelo menos no espaço público, esta seria a palavra ganhadora. Mas, sê-lo-ia na esfera privada?

Mal volto o meu pensamento para o início deste século, a memória traz-me de imediato a eleição de George W. Bush nos E.U.A., seguida do ataque às Torres Gémeas. Também a ida de Durão Barroso para a chefia do governo. Mas, principalmente, José Sócrates que chega ao poder com toda a sua carga autoritária, de ataque às classes que ele considerava privilegiadas (que incluíam até, por exemplo, os professores do 1º ciclo) e de manipulação dos meios de comunicação social (para, entre outras coisas, as suas campanhas contra essas classes).

Ao mesmo tempo, em 2007, surge a notícia da crise financeira mundial, cujos efeitos terríveis se estenderam pelos anos seguintes. Depois, as notícias cada vez mais alarmantes, relacionadas com o nosso futuro no planeta, por causa do Aquecimento Global; a ensombrar as perspetivas de futuro, senão mesmo a roubá-las, a nós e às gerações mais novas. E, recentemente, o aparecimento da pandemia da Covid-19 (note-se que estas crónicas são anteriores a este evento).

Tudo isto tem, como pano de fundo, a generalização a todos os estratos profissionais de uma avaliação competitiva que nos leva a desconfiar do próximo, a estar num permanente estado de luta, e a perder a esperança de qualquer conforto vindo da parte dos pares. tudo isto concebido e aplicado por políticos e patrões que desejam dividir para melhor reinar.

Sim, para mim, a um nível pessoal e privado, eu votaria sem dúvida nenhuma na palavra medo. Que, agora, mais ainda com a atual guerra na Ucrânia (iniciada pela Rússia a Fevereiro de 2022), não dá mostras de poder perder a sua força devastadora.


Mal comecei a ler esta crónica (que classifico à vontade de interessante, original, multifacetada e estimulante), veio-me de imediato o pensamento: mas não mente toda a gente? Aos outros e a si próprios? Não deverá ser este um dado de partida a ter em conta?

É que, então, dizer a verdade tem de ser uma luta constante para a nossa tendência para a mentira. Porquê tendência? Porque, genericamente, a mentira simplifica, e nós tendemos a seguir a lei do menor esforço. A verdade é quase sempre complexa, apresenta muitos matizes, e muitas vezes não é única; dado que a realidade tem infinitos elementos que podem ser observados de muitos pontos de vista, tanto no sentido real como figurado.


Além de que temos de considerar a 

mentira enquanto invenção que acrescenta alguma coisa à realidade apenas para servir de diversão. Deixem, pelo menos de vez em quando, que a palavra mentira permaneça no seu grau simbólico de alteração gratuita da realidade. É dessa mentira que eu gosto, é dessa que é feita a Literatura e a Arte. (…) (132)

Será que podemos associar sem perigo o trabalho da imaginação ao conceito de mentira? Lídia Jorge nesta crónica fá-lo para um certo tipo de mentira, dando aliás dois exemplos reais… divertidos ou sérios? Talvez divertidos e sérios.

Portanto, a mentira limitada a certos contextos será decerto uma coisa boa. Por exemplo, quando ela é uma simples invenção. Mas creio que nunca quando é uma adulteração da verdade real, com intuitos manipulatórios para obter ganhos pessoais (provocando consequentes perdas nos outros).


(…) tudo isto para dizer que comecei a criar cedo a minha teoria sobre a mentira, mas ainda estou a apurá-la, ainda vou a meio caminho, não posso discorrer sobre a matéria em meios circunspectos, onde as pessoas gostam de ouvir falar da mentira segundo Platão, Aristóteles, Trump, Erdogan, Putin e Santo Agostinho.

(Pessoas possivelmente como eu próprio revelei ser, neste comentário que aqui termino um pouco embaraçado.)


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