20 ~ Definição de Europa
Há poucos dias encontrei-me no Centro Cultural de Belém com Augustin Trapenard, o autor do programa Boomerang da France Inter. Augustin tinha-me pedido que escrevesse dois parágrafos sobre a Europa. (…)
(…) Não há resposta mas há pergunta – Como é possível que aqueles mesmos que criam a Beleza não sejam capazes de criar a Paz? (125)
Boa pergunta. Pensemos, então, ao nível a que Lídia Jorge se refere, ao do continente europeu.
Talvez porque não são os mesmos, os que desejam criar Beleza e os que querem criar a Paz?
Ou porque, para criar a Paz, é preciso exercer Poder, algo que não é necessário para criar a Beleza? E, naturalmente, porque, para os que têm Poder, a Paz não está no topo das suas prioridades? Não esqueçamos que a história da Europa é preenchida por guerras quase permanentes: (…), a Europa da batalha interminável, (126).
Ou porque muitos que dizem querer criar a Paz acham que o devem fazer desenvolvendo todo um conjunto de estratégias de carácter marcadamente bélico?
Ou ainda porque para alguns criadores não existe incompatibilidade entre Beleza e violência ou guerra?
Pessoalmente, não vejo diferença entre a noção de Europa e a de país; ou melhor, entre a noção de União Europeia e a de Portugal. Ambas são puras abstrações sem uma ter mais realidade palpável e concreta do que a outra. Mas a verdade é que a primeira se me revela muito mais estimulante.
Talvez porque tenha vivido muitos anos (demasiados!) num país fechado, autoritário e atrasado em tudo o que é importante e interessante. A ideia de poder voltar a isso é-me totalmente insuportável. Por outro lado, a possibilidade de partilha direta e aberta da riqueza espiritual das nações europeias (através de uma maior proximidade entre as pessoas e da liberdade de circulação) e a perspetiva de não viver sempre com medo das suas agressões devo confessar que me entusiasma para além do que me é possível dizer.
Volto à questão da pertença. Quando há distinção nas sensações de pertença, isso refere-se primeiramente a pessoas ou a grupos de pessoas concretos, não a abstrações. O que é isso de pertencer a um país ou a uma pátria, para além de uma fantasia? Por mim, não me revejo nesse sentimento de pertença.
Além disso, tenho a suspeita de que aqueles que desejam mais pertencer a coisas pequeninas (países) do que pertencer a coisas grandes (Europa) não podem deixar eles próprios de ser pequeninos. O que não tem mal, já que nem todos partimos do mesmo patamar na vida. O que aflige é quererem continuar a ser pequeninos, não desejarem a grandeza, o largo, o horizonte – porque eu digo com José Régio (Cântico Negro):
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Eu pertenço a uma cultura que é muito mais do que a portuguesa. Como me é possível pensar que não me pertence ou que eu não pertenço ao monumento Acrópole, ao quadro Guernica, ao livro Os Irmãos Karamazov (sim, para mim, a Rússia é europeia, por mais que os políticos queiram que não), à Sinfonia nº 9 de Beethoven, à peça de teatro Hamlet - para citar apenas alguns “lugares” que mais do que eu viver neles, são eles que vivem em mim?
Em conclusão, é-me completamente absurdo defender que não pertenço ou que não quero pertencer à Europa. E muito mais absurdo não querer pertencer a uma União Europeia. Com todos os seus defeitos, porque não há nada que seja perfeito – e que não seja suscetível de ser melhorado –, mas que me oferece tudo aquilo que Lídia Jorge refere magnificamente no final desta crónica (129):
Talvez nos unam dez nomes que tenham feito de nós pessoas melhores, talvez vinte físicos, vinte matemáticos, vinte pintores, astrofísicos, a imprensa livre, a abolição da pena de morte, e alguns costumes, como as mulheres poderem mostrar o rosto, dançarmos nas ruas até de madrugada e andarmos quase despidos nas praias, dizermos o que pensamos em voz alta, rezar-se ao deus que se quer, e ser-se livre de não se rezar a deus nenhum. Não me digam que tudo isto acontece igualmente em todos os continentes do Mundo. Não me digam. Não me digam que não há nada que caracterize a Europa.
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