terça-feira, 13 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 19

 


19 ~ O Feminismo é um Humanismo

Talvez na crónica anterior, que designei por teoria e prática das mulheres, eu não tenha sido explícita. Eu não confundo trabalho de emancipação e dignificação do estatuto das mulhers apenas com as questões de violência doméstica. (…)


Imagino que pessoas terão contactado Lídia Jorge após a crónica anterior. Imagino essas pessoas a tentarem envolver a autora nalguma forma de “whataboutism”, desviando o fulcro da questão para outras áreas. Digo isto porque me parece que Lídia Jorge foi inequivocamente explícita naquela crónica.

Repare-se: o feminismo até pode ser uma questão de opinião (para mim e para Lídia Jorge não é). Porém, a oposição à violência sobre as mulheres é uma questão de civilização; e, nem deveria ser preciso dizê-lo, de humanidade. Procurar trazer a questão do feminismo para uma discussão centrada na violência exercida pelos homens sobre as mulheres pode ser revelador de mal-estar e incomodidade sobre o tema, mas também pode revelar uma simples má fé.


Reduzir os outros é sempre reduzir-me, mesmo quando isso me dá uma sensação de poder. Há quem goste de o fazer, o que sou capaz de compreender, pois não estamos todos no mesmo nível de evolução pessoal e de civilização. E há quem goste de ver outros fazê-lo, o que já me é mais difícil de perceber. Porquê? 

Porque aquele ou aquela que reduz outros seja de que forma for (palavras ou atos) pode perfeitamente vir a fazer o mesmo a mim próprio e aos meus. Talvez as pessoas não se deem conta disto. Talvez estas pessoas sintam uma raiva tão grande, até contra si mesmas, que ver fazer isto a outros ou outras lhes traz uma satisfação e um alívio mais profundos do que qualquer sentimento de medo ou terror que é natural que surjam em quem assiste a esses atos.


Lídia Jorge refere (e com toda a razão) como os hábitos de diminuir outros tornam invisível a ferida mortal que infligem à dignidade das pessoas, quer às vítimas, quer ao perpetrador, quer a quem simplesmente assiste. Assim, ara que estes atos ganhem visibilidade há que

(…) encontrar as palavras necessárias para colocar em relevo situações de desigualdade de género (…) (119)

isto é, tornando visível o que para muitos é invisível.


(…) a luta feminista é uma causa a favor do equilíbrio da humanidade. (…) (120)

Porque, alertando para o facto de não haver razão nenhuma para um tratamento diferenciado “vertical” para as mulheres (menores salários, menos empregabilidade, mais precariedade, lugares subalternos, etc.), acaba-se por mostrar a injustiça de outros grupos de seres humanos (principalmente os minoritários) estarem também a ser tratados desigualmente.

Gostaria de clarificar o que quero dizer com a palavra “vertical”. 

As pessoas são todas diferentes. A ciência já demonstrou largamente que as diferenças entre homens e mulheres existem (a nível de grau, não de categoria), mas não são significativas, a menos que nos estejamos a referir a características meramente físicas ou fisiológicas. 

E é por via destas últimas características que podemos debater uma diferenciação “horizontal” entre mulheres e homens, de que é exemplo a recente discussão política em Espanha e em Portugal sobre a concessão de licença menstrual às mulheres. Quanto a outras características, por exemplo as psicológicas, mesmo que possam existir diferenças, sejamos diretos, elas nunca são “deficiências”.


Mais uma vez, esta crónica levanta-me a habitual interrogação angustiada: que «comportamentos e julgamentos comuns» (122) de hoje irão ser julgados daqui a uns anos como bárbaros? Em particular, relativamente a este tema, de que forma estou a contribuir para alimentar e perpetuar uma cultura tradicional que hierarquiza as pessoas por características sobre as quais elas não têm qualquer controlo (seja o género, a origem, a etnia, etc.)?


E sim, sem dúvida alguma, as crianças sabem hoje mais do que a maior parte dos adultos no passado (e mais do que muitos adultos do presente):


(…) Qualquer rapaz do Ensino Secundário, hoje em dia, está muito à frente do divino Kant.


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