18 ~ Teoria e Prática das Mulheres
Esta crónica tem quatro capítulos.
(…)
O que há a acrescentar a uma crónica supremamente bem trabalhada que trata da violência sofrida pelas mulheres à mão dos homens? Muito pouco, creio.
Os homens matam. Matam, pelo menos, muito mais do que as mulheres.
De cada vez que uma mulher é vítima de qualquer tipo de violência, a sociedade regride para algo que não desejamos nem queremos. Também não serve ignorar a realidade desta violência: não existe progresso onde impera a insensibilidade. Olhando-me com absoluta honestidade, pergunto-me em que medida eu não prefiro olhar para outro lado e ignorar os sinais de uma violência sobre a mulher? Quantas vezes fiquei calado e até embaraçado (em vez de furioso) quando, ao meu lado, um homem usou de violência psicológica com uma mulher? Triste é dizê-lo: lembro-me de várias - com amigos e com conhecidos.
Um dos problemas é que não chegam as leis. São precisos o desejo e a vontade de as aplicar na vida do dia-a-dia. Mas esse desejo e essa vontade existem com pouca força na nossa sociedade, principalmente no que se refere à violência doméstica.
Relativamente a esta, aliás, não consigo perceber como é que os homens conseguem ligar o bater numa mulher com os ideais da masculinidade referentes à proteção dos mais fracos e das mulheres, em particular (“numa mulher não se bate nem com uma flor”, ouvi eu isto a muito homem machista).
Se calhar estou enganado, não faz parte de um ideal de masculinidade (esta ficaria a um nível mais do bruto), mas sim de um ideal de nobreza de espírito, coisa bem mais rara de encontrar (e mais difícil de definir, também). No entanto, só esta é capaz de cuidar e alimentar uma dignidade autenticamente humana. Por meio de uma busca sincera e persistente do bem, da verdade, da justiça, da beleza, do amor e da liberdade. Sendo tudo isto obviamente incompatível com qualquer tipo de violência.
Mais um problema: a impotência do Estado (que já tem leis, assistentes sociais, polícias, tribunais e punições). É ela inevitável? Não tenho resposta. Mas, admitindo que sim, já que as leis só serão cumpridas se as pessoas o quiserem fazer, então só resta denunciar quem pratica a violência sobre os outros.
Não é um verbo bonito, “denunciar”. Mas a violência doméstica (sobre mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência ou incapacidade) é muito mais revoltante do que quaisquer pruridos egoistamente morais que possamos ter.
Eu sei do que estou a falar, eu, que denunciei vários pais pela violência que exerciam sobre crianças que foram minhas alunas. Se a palavra “denunciar” custa a engolir, então substituamo-la pela palavra “sinalizar”. Pois é isso que nós fazemos: sinalizar pessoas, que são vítimas, às autoridades competentes.
Acredito que a violência se reduzirá ao estritamente necessário à sobrevivência quando homens e mulheres pararem de dominar e de vencer, no fundo de quererem ter poder sobre os outros. Dominar e vencer talvez sejam desejos que fazem parte da nossa natureza humana. Por isso, não digo “pararem de desejar dominar e vencer”, mas apenas desafio a controlar os comportamentos que atuam aqueles desejos. Porque os comportamentos são bem mais fáceis de controlar do que os pensamentos, as emoções e os impulsos.
É interessante a reação da porteira do conto (referido nesta crónica) Marido, de Lídia Jorge. É que ela acaba a odiar as pessoas que se ofereceram para a ajudar a sair daquela situação de violência. Lídia Jorge evidencia aqui problemas de proteção e de educação, tanto da familiar (que a condiciona a aceitar como natural a violência do marido), como da escolar (que lhe faz ignorar os seus direitos e os mecanismos legais que existem para os proteger).
Mas também evidencia uma certa displicência dessas pessoas, talvez fruto também da sua ignorância. Por um lado, não denunciando às autoridades o que se estava a passar. Por outro, não querendo saber primeiro o que a porteira desejava ou precisava para a sua vida; para, depois, em função disso, oferecerem a ajuda necessária e adaptada aos desejos e necessidades dela. Porque quando damos conselhos sem nos pedirem, a maior parte das vezes acertamos completamente ao lado. E os efeitos poderão ser contrários ao que pretendíamos (como aconteceu com a porteira do conto).
Não posso deixar de referir que, por detrás de cada mulher violentada, batida, morta, vejo uma criança destruída. Eu sei que não devo desviar o foco da violência sobre as mulheres, mas não consigo parar de ser assombrado pela imagem das crianças, também elas vítimas, e na maior parte das vezes silenciosas. Não queiramos iludir-nos: um lar violento é-o para ambos, mulheres e crianças.
E se existe reprovação social clara relativamente à violência sobre as mulheres, já o mesmo não se pode dizer no que respeita às crianças, o que as torna muito mais vulneráveis. Por exemplo, a partir do momento em que defendemos a “palmada pedagógica” (como eu ouço muita gente a fazer), estamos a abrir a porta à violência. Cujos limites ficam depois sujeitos à arbitrariedade do “bom senso” de cada um, e não sujeitos à lei.
Uma palmada aplicada a uma criança ou a um adulto é sempre um ato de violência; e é sentido como tal. Aliás, muito mais terrivelmente sentido pela criança que não tem nem a liberdade, nem a autonomia, nem as defesas que um adulto apesar de tudo já tem. Bater numa criança é abrir as portas da sociedade à violência, tanto no presente como no futuro (crianças batidas têm a tendência de se tornarem adultos violentos).
O que me leva a mais uma reflexão. Talvez se comece a extinguir a violência sobre as mulheres (e sobre todos os mais fracos) apostando numa educação de pais que os leve a não terem de recorrer à agressão sobre as crianças para as educar.
Finalmente, não aprofundarei, mas também não esquecerei, a violência do Estado (isto é, dos Governos) sobre os cidadãos. Essa violência constitui sempre um exemplo e um modelo que as populações tendem a seguir nas suas vidas privadas. E fico-me por aqui, pois o assunto é extenso e complexo.
(…) Sugiro estantes compridas de livros onde estão descritas as vidas verdadeiras, e que não vêm descritas nas leis dos juízes.
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