sábado, 10 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 17

 

(Gravura tirada da Wikipédia)


17 ~ Montaigne e o Amigo

O que devo a Pierre Léglise-Costa não se descreve. (…)


A Literatura e a História para pensarmos o presente, eis a proposta de Lídia Jorge nesta crónica.


A primeira interrogação que Lídia Jorge nos coloca é a de saber por que razão duas pessoas (ela própria e Pierre Léglise-Costa) que aparentemente têm pouco em comum podem ser tão amigas uma da outra. Ou seja, o que pode estar por detrás de uma amizade improvável?

Ora, como todas as interrogações mais profundas sobre a vida, esta também não terá resposta. Pelo menos, nunca terá uma resposta definitiva.

Pessoalmente, não tenho nenhuma. Talvez isso indique que não sei ser amigo de alguém? Seja como for, acredito que uma grande parte da humanidade não foi tocada por esta dádiva de uma amizade que se aproxima do absoluto. É uma intuição pobre. Assim, leio com interesse o que Lídia Jorge tem a dizer sobre a amizade autêntica.

Como a que ligou Montaigne a Etienne de La Boétie, de que a autora nos dá notícia nesta crónica. Registada por Montaigne nos seus Ensaios, em particular naquele que tem o título «De L’Amitié».

E aí ele (citado pela autora) diz que é «feliz aquele que alguma vez encontrou a sombra de um amigo. (…)», confirmando a minha ideia de que a amizade autêntica é uma experiência rara.


(…) Pierre ofereceu-me esses dois livros [Ensaios, de Montaigne; e Discurso sobre a Servidão Voluntária, de La Boétie], e nesse dia falámos do tempo de Montaigne e La Boétie, e dos nossos tempos. Haverá pontos de contacto?

Lídia Jorge interroga-se. Eu respondo: múltiplos, na minha opinião. Escolho um de entre muitos aspetos. E parto de um trecho da referida obra de La Boétie (p. 46, Edições Antígona, 1986):

Mas voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascido e sido criados na servidão.

A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem covardes e efeminados.

La Boétie não estaria provavelmente a pensar na educação de crianças, mas eu sim. É exatamente por esta razão apresentada pelo autor (mas não unicamente, claro) que eu discordo do modelo da educação autoritária (seja qual for a sua variante), aquela que promove logo na família «o terem nascido e sido criados na servidão».

E cuja consequência (mais uma vez, na minha opinião) é propiciar o aparecimento e a multiplicação de «covardes e efeminados». Esta última característica tomada no sentido «3. figurado, depreciativo a que falta força ou energia» para enfrentar qualquer tirania, política, organizacional ou familiar.


Termino com algo que me ocorreu ao finalizar a leitura desta crónica. Não será a amizade autêntica inseparável da lealdade? Sim, porque Montaigne certamente não concordou com tudo o que La Boétie fez ou disse ou escreveu. Mas nunca deixou de lhe ser fiel na amizade e na defesa do amigo. Mesmo depois de este ter morrido.


(…) De momento, só sabemos que, tal como nós, pelas cidades da Terra inteira, haverá amigos conversando ao longo das ruas, ombro a ombro, e isto é um consolo sem palavras.


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