domingo, 18 de dezembro de 2022

Misericórdia

 


D. Quixote, 2022


(A apreciação desta obra foi dividida em três partes, das quais esta é a primeira; a segunda será "O Título" e a terceira "O Diálogo". Coloquei-as aqui de forma seguida, alterando as datas, exceto a desta publicação, para tornar sequencial e mais fácil a sua leitura.)


Vou falar aqui de uma obra extraordinária e fortíssima, talvez a maior até agora escrita por Lídia Jorge.


Disse Samuel Johnson que 

A writer only begins a book. A reader finishes it.

Eu talvez não dissesse que acaba, mas sim que continua, que todos os leitores continuam, tecendo uma rede de significados cada vez mais vastos e profundos que, depois, vão passando a fazer parte da própria identidade da obra. Foi isto o que senti nas duas leituras que já fiz deste romance. Aliás, a personagem da filha da narradora, que é escritora, pode estar também a sugerir o mesmo, quando diz (p. 88):

(…) - «Não é bem assim, os finais não são o fim dos livros…»

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Lídia Jorge é a única autora, juntamente com Vergílio Ferreira, com quem me sucede ler um livro e, passados alguns dias, sentir uma vontade irresistível de fazer uma segunda leitura e até uma terceira ou quarta. Parece que sinto a suspeita de que ficaram coisas por apreender nas leituras anteriores, coisas que estão a exigir de modo premente a minha atenção e a minha reflexão.

Então, quando releio, nunca se me frustra a expetativa de descobrir ou de encontrar outros níveis de significação, normalmente mais profundos, que subjazem à obra e que me tinham escapado anteriormente.

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Mas o que se passou com Misericórdia foi algo de muito mais profundo que nunca me tinha acontecido antes: enquanto eu ia lendo, um desconforto profundo e antigo foi aflorando ao meu espírito. No princípio, atribuí-o ao facto de eu ter quase 65 anos e, portanto, os acontecimentos ali relatados surgirem já alarmantemente próximos aos meus olhos.

Depois, fui-me apercebendo da verdadeira causa desse desconforto (talvez também por breves sugestões feitas por Lídia Jorge ao longo do livro).

Aqui, um dos vários temas abordados consiste no facto de os velhos serem tratados muitas vezes como crianças (o que, diga-se de passagem, acontece na vida real, este pormenor não é uma ficção). Ver, por exemplo, na p. 226 - «como se fossemos seres humanos da primeira infância». Ou a reflexão feita por D. Alberti nas páginas 119 e 120. 

Então, ocorreu-me que as crianças são, por sua vez, tratadas como os velhos o são. Claro que teríamos de incluir aqui os maus-tratos. Apesar de este aspeto não fazer parte do livro, sabemos das notícias que há idosos a sofrerem de maus tratos que incluem a violência física.

Deste modo, tornou-se um motivo de interesse acrescentado saber por Misericórdia como as crianças se sentem ao serem tratadas infantilmente - isto é, do modo que os adultos acham que é apropriadamente infantil e que, muitas vezes, não está adaptada à realidade da criança que têm na frente.

Conseguimos ter esta perceção, porque um idoso sabe exprimir-se e exprimir as suas emoções, tem um vocabulário muito mais vasto do que uma criança, já teve a experiência de ser tratado com dignidade e pode, por isso, fazer comparações.

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Pela minha parte, durante a releitura deste livro, eu tive a experiência da minha infância maltratada a vir à tona. Por exemplo, quando as pessoas não ligam ao que D. Alberti diz (p. 23 e 24).  Ou quando tentam «derrubar a minha alegria.» (p. 32) Etc., etc. Aí estava, pois, a raiz do meu desconforto. Vivido, é certo, com a arte de Lídia Jorge. Porque, como nos diz Vergílio Ferreira, grande leitor e admirador da obra de Lídia Jorge:

(...) Os sinais da vida, na obra de arte, não se anulam: transpõem-se a uma certa universalidade, aí onde o nosso caso pessoal perde peso, importância. A minha dor concreta, transposta à arte, já não é bem minha mas do homem, e quanto menos ela é minha mais ela é válida. (...) (Espaço do Invisível- I, Arcádia, 1978, p. 28)

Penso ter tornado um pouco evidente com este meu breve exemplo que uma das maravilhas deste livro é a liberdade de criarmos literatura a partir da literatura que nos é ofertada. Por outras palavras, são várias as leituras que podemos fazer. Tanto horizontalmente, ao nível da diversidade de interpretações; como ao nível vertical, no que se refere às profundidades a que podemos aceder (por exemplo, tanto podemos ler nesta obra uma simples narrativa, como podemos ler nela um relato carregado de simbolismos).

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Uma das razões para tal nos ser permitido é que, enquanto lemos, Lídia Jorge não nos deixa “saber” o que vem a seguir. Por outras palavras, Lídia Jorge conduz-nos através de uma história que tem tudo para ser previsível, mas não é isso de todo que vai surgindo aos nossos olhos.

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Por outro lado, ela vai-nos contando episódios da vida da narradora, mas também inclui muitas reflexões, enriquecendo-as de emoções por virem a propósito desses episódios. E isso leva-nos a ser mais diretamente estimulados a refletir sobre essas ideias.

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Finalmente, Lídia Jorge não explica quase nada, nem a propósito do que acontece, nem do que faz as pessoas agirem como agem. Ou seja, chegamos ao fim do livro, e aquilo que é misterioso no ser humano fica retratado, mas não desvendado. Permanecendo este mistério sobre o humano no nosso espírito, mesmo muito depois de termos acabado de ler esta obra.

Invoco as seguintes palavras de Vergílio Ferreira (Espaço do Invisível- I, Arcádia, 1978, p. 14), que parecem propositadamente escritas sobre Misericórdia:

Não persiste alguma coisa de não limitado, para lá do que em obra se limitou?

E a resposta, no que se refere a esta obra, é naturalmente uma clara concordância! Continua ainda Vergílio Ferreira:

Impulso para um mais que ainda não é – e que enfim nunca será – isso que da obra sobeja «é» o homem também e decerto o que o define pela sua parte  mais alta, a mais viva (…) Mas é porque a verdade dela a supera até ao invisível, é porque alguma coisa de mais vasto a envolve, é porque uma voz única e obscura subjaz a toda a palavra audível, é por isso que, esgotado o círculo mais visível, (…) 

nos lançamos uma e outra vez à procura desse imediatamente invisível e desse quase inaudível, para responder com toda a nossa humanidade ao apelo que deles provém.

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Portanto, a primeira leitura que fiz foi relativamente rápida. A segunda foi bem mais lenta (como esta obra nos solicita, embora sem o impor), o que me permitiu assim descobrir muita coisa que me tinha passado despercebida na primeira leitura.

Para dizer que este livro existe também como um cometa lento. Ele passa, mas nós ficamos permanentemente presos na sua cauda, no rasto que ele deixa no nosso espírito. E essa luz jamais nos abandona. 

Por isso serei claro: não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que Misericórdia é uma obra extraordinária! Uma obra que teve um tal impacto em mim que acabei por ficar a amá-la profundamente, sentindo que tenho nela uma amiga íntima para sempre.

Até por causa da forma como vivi a leitura deste livro e das interpretações pessoais que fiz. Na verdade, fui sentindo sobre mim, especialmente sobre o meu passado, ou a minha criança antiga, o olhar misericordioso da autora. Passou a suceder-me, então, quando me enleio em estados de espírito mais desolados, quando preciso de um outro conforto, imaginar-me a encostar-me a este livro e a fechar os olhos como uma criança que adormece ao colo de sua mãe.


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