(…) Imaginava soluções para a sua vida miserável (…) (201)
Sim, as crianças têm em elevado grau sentido moral, empatia
e compaixão. A menos que os cuidados que receberam e continuam a receber primem
pela ausência ou ela seja mesmo maltratada (que é o caso de uma infinidade de
crianças, hoje em dia.
Esta confissão de Lídia Jorge demonstra indiretamente que recebeu
os cuidados devidos na altura certa. Foram todos bons? Provavelmente não, já
que não há pais (ou educadores) perfeitos. Mas até é bom que essa perfeição não
exista, pois a criança cresce e ganha maturidade também quando se esforça por procurar
satisfazer as suas necessidades que não estão a ser cuidadas como ela
desejaria (desde que as suas necessidades básicas se encontrem satisfeitas, claro está!).
Lídia Jorge, muito acertadamente, considera que ajudamos
quem precisa porque isso dá um sentido à nossa vida e não simplesmente pelo
prazer de o fazer. No entanto, este prazer não é uma criação nossa. Todos nós
nascemos com esta característica: numa espécie tão social como a nossa (em que
a sociabilidade é, e sempre foi, o fator mais necessário e importante para conseguirmos sobreviver,
desde bebés até velhos), o nosso organismo recompensa-nos com sensações
agradáveis e com bem-estar qualquer iniciativa nossa mais pró-social. Não é
algo que possamos suprimir.
Acrescenta também Lídia Jorge que não devemos sacrificar pessoas no
presente em nome de uma qualquer utopia do futuro, algo com o qual também
concordo inteiramente. Ah, claro, tudo isto é dito da forma superior com que
Lídia Jorge escreve e não desta maneira seca e pobre com que eu o faço.
Lídia Jorge põe, em seguida, o problema de sermos enganados
por pessoas que falsamente nos solicitam ajuda mesmo quando não precisam dela;
ou quando, pelo menos, podiam fazer qualquer outra coisa para se ajudarem a si próprias
sem estarem a espoliar indevidamente os outros.
É verdade, como em tudo no mundo, há sempre quem se
aproveite. Eu resolvi o problema da seguinte maneira.
Dar ou não dar é um problema que é só meu, é da minha exclusiva responsabilidade. Que eu resolvo normalmente dando porque é isso que me traz mais sentido à minha vida do que não dar.
Quando dou, aquilo que dou deixa de ser meu, naturalmente.
Logo, o que a pessoa faz com o que eu lhe dei já não é da minha conta, não é um problema meu, mas um
problema dela. Eu fiz a minha parte da obrigação; ela, da sua parte, fará o que entender, isso já não pertence à minha equação (a menos que ela use o que lhe dei para fazer mal e prejudicar outros).
É uma solução perfeita? Não. Logo à partida porque posso
estar a desperdiçar recursos que poderiam ser muito mais úteis para quem
realmente precisa. E, depois, porque estou a alimentar a fraude, eventualmente
até a fazê-la crescer. Mas não há maneira de ultrapassar esta dificuldade.
A recusa em dar ajuda não me parece uma solução para este
dilema, é apenas uma forma de o evitar, de fugir a ele. Eu opto por assumir a
dúvida e as sensações desagradáveis consequentes (principalmente, quando
descubro que fui enganado, como Lídia Jorge suspeita razoavelmente que o foi).
No fim de tudo, perguntar-me porque é que dou é quase o mesmo que perguntar-me porque é que ando: porque posso fazê-lo e isso me serve bem.
Devo acrescentar que, aqui, fui muito influenciado pela
extraordinária peça Huis-Clos / À Porta Fechada, de Jean-Paul Sartre (Artistas
Unidos / Livros Cotovia, 2013). Nesta peça discute-se muito esta questão do que
somos, de como os outros nos veem e de como nós nos avaliamos. Sartre, na voz
de uma das suas personagens, Inês, propõe que:
Só os actos decidem aquilo que quisemos (sic). (p. 51 da edição referida acima)
(…) Chego à conclusão de que ninguém consegue apagar os
livros que lê na infância.

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