(foto tirada daqui)
(…) Nessa altura as crianças choravam mas ninguém se importava com o motivo do seu choro. (…) (201)
A educação antiga visava (mesmo quando as pessoas não tinham
consciência disso) objetivos impostos pela cultura dominante. Alguns desses
objetivos tinham a ver com o facto de o poder pretender cidadãos preparados
para ir para a guerra.
A guerra exige uma dureza e uma ausência de sentimentos
(matar alguém da nossa espécie que nunca vimos e que nunca nos fez mal, nem nos
ameaçou, é algo de absolutamente contra natura). Logo, a educação dada
procurava que, desde pequenas, as pessoas se habituassem a reprimir as suas
emoções mais humanas, transformando-as em pequenos monstros. Podemos dizer que,
durante séculos, o ser humano foi bem sucedidos nessa finalidade.
Por isso, não se procurava dar nenhum conforto especial
quando a criança ficava triste, por exemplo. Aliás, nos rapazes, tal coisa era
francamente desaprovada até muito recentemente: por exemplo, “um rapaz não
chora!”
Hoje vemos resquícios ainda significativos desta situação.
Nomeadamente, por parte de pessoas que acabaram por interiorizar a educação que
tanta solidão e tanto sofrimento lhes trouxe.
Só assim se pode compreender, face ainda à infinidade de
maus tratos que atingem as crianças, tanto no nosso país como no mundo, a
afirmação pública (eu estava lá e assisti) feita por um jornalista e escritor famoso
de que “atualmente, há uma preocupação doentia com as crianças”.
(…) Criança era então uma pequena criatura que quase todos os dias chorava. (…) (201)
Aos olhos dos adultos, podia ter razão para isso ou não. Mas
ela, ela sabia o que sentia; e, às vezes, até sabia a razão, como no caso de
Lídia Jorge.
Quando é que uma pessoa adulta chora? Podemos chorar de
felicidade, mas o mais comum é chorarmos de tristeza, de frustração, de medo ou
de raiva. E quando é que isto acontece?
Quando vivemos eventos (externos ou internos) dolorosos,
como uma perda, uma morte, uma violência ou qualquer outra situação dramática
(como sabemos, podemos nem estar a viver essa situação, mas apenas a assistir a
ela, como é o caso aqui contado por Lídia Jorge).
Genericamente, sentimo-nos assim quando os outros nos tratam
mal ou tratam mal alguém que amamos. Ou seja, quando há uma violência (ativa ou
passiva) no contexto de um relacionamento.
Ora, a questão que se impõe é: Porque havemos de pensar que as crianças são diferentes dos adultos? Porque é que não lidamos com o seu chorar
como o fazemos com um adulto?
Estas são interrogações que cada vez mais me deixam
conturbado. Até porque sabemos que as crianças têm menos experiência, menos
saber e menos defesas em relação àquelas situações do que um adulto. Isto é, a
haver uma diferença entre adulto e criança, é no sentido de aquelas emoções
serem muito mais perturbadoras para a criança do que para o adulto. E, portanto, ela precisar muito mais de conforto do que o adulto. Então,
porque desprezamos estas emoções na criança?
Quando penso nisto, lembro-me de que até há relativamente pouco
tempo também se desprezavam estas emoções nas mulheres. Dizia-se delas que eram
“o sexo fraco” (não serão ainda vistas assim, hoje, por muitos?) Porque
elas eram consideradas seres inferiores aos homens. Porventura, consideraremos ainda
hoje as crianças essencialmente inferiores aos adultos?
Mas com as crianças há ainda uma outra agravante. Há um ponto em que, pelo menos, todas as
correntes psicológicas estão de acordo: seja o que for
que fizermos (ou não) às crianças, isso terá impactos profundos e duradouros para
toda a sua vida. E, claro, para aqueles que os rodeiam mais de perto.
Portanto, não percebo.
(continua em 32, c)

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