quinta-feira, 26 de maio de 2022

Estuário

 


D. Quixote, 2018

(17)
(…), porque ele tinha estado na cidade da poeira e podia imaginar como iria ser a Terra reduzida a pó, com os últimos homens a moverem-se lentamente, ao lado dos últimos burros e dos últimos camelos, os últimos automóveis e as últimas televisões, sobre um solo exangue.

O futuro (próximo?, longínquo?) da Terra vai ser o presente de Dadaab, i.e., zero.


(23/4)
(…), ainda terei de ler mais livros, e também copiá-los, para escrever o meu próprio livro? Ou a minha experiência nos campos da miséria, e o facto de ter perdido três dedos da mão direita me bastam?

A grande dúvida (porque o tema profundo deste romance é a escrita de um livro): terei de aprender mais («ler mais»), terei de me treinar mais a escrever bem («também copiá-los»), para poder finalmente passar à ação («para escrever…»)? Ou será que a minha vivência até agora já chega («Ou a minha experiência…»)?


(47 e 48)
Pela visão de Charlote, comovente perspetiva do que é ter um filho – «um acontecimento absoluto na vida de uma pessoa, (…) um deslumbramento.»


(49)
Tomassem cuidado com ela. Iria defendida, iria quase nua.

Interessante usar a seminudez para mostrar que se é forte. Logo, para amedrontar os homens – mas não serão apenas os homens mais inofensivos que se amedrontarão? Ou para amedrontar as mulheres – porém, e se nestas não suscitar uma comparação ascendente, mas sim descendente, de desprezo, não fracassará esta estratégia?
Porque terá Lídia Jorge posto esta personagem a fazer isto? Terá sido, no fundo, para mostrar o quão ingénua Charlote, apesar de tudo, continua a ser? Não sei, mesmo.


(50 e 56)
Todos acham a vida de Charlote vulgar e banal. Já em (26 e 27), Matilde enganava-se completamente acerca de Edmundo. Quão pouco sabemos dos outros e quão mal e erradamente conjeturamos sobre as suas vidas!... É que Charlote e Edmundo são os que têm (e tiveram) as vidas mais interessantes.


(59)
Nos cálculos financeiros valorizara os ativos, minimizara os passivos, acreditara que a ousadia seria recompensada e afinal, se nada de positivo em breve acontecesse, a ousadia acabaria antes por ser punida, e com gravidade.

Retrato do crash de 2008, fruto da influência da apropriação que a sociedade fez da psicologia positiva. E, claro, fruto de uma competição selvagem que distraiu irremediavelmente as pessoas dos perigos que estavam a correr.


(88)
Nesta reunião, cada um pensa em si e nos seus problemas. O medo do presente e do futuro, juntamente com a realidade da escassez de recursos, leva as pessoas a centrarem-se cada vez mais na sua própria sobrevivência.


(118 a 121)
Qual o livro que se deve ler para iniciar a escrita do nosso livro? O primeiro de todos, o livro primordial: a Ilíada.


(125)
Como os bancos decidem das vidas de milhões de pessoas…

(…) daqui a uns tempos só haverá dois tipos de indivíduos, os idiotas que labutam no trabalho e ganham pouco ou nada, e os inteligentes que vivem no meio do dinheiro que os outros ganham e detêm tudo.


(150 e 151)
Se o mito do amor não tinha sido completamente enterrado entre as duas guerras do século XX, com o fim da segunda, já se encontrava decomposto e evaporado. (…) a palavra gasta e única que conheciam que se lhe parecesse, e era de novo a palavra amor. (…) Amor com maiúscula. Só porque não havia palavras suficientes para as realidades, pensava Charlote.

Poderá ser que o amor é mito porque confundem o processo que estão a viver (esse é vivo, agudamente vital) com o resultado visível que veem nos outros ou no seu passado e que, por isso, lhes parece morto?
Ausência de uma palavra para designar “aquilo”. Talvez essa palavra só exista para designar a procura, não a “coisa” em si mesma, não a mais profunda e por detrás de todas as outras. Como, aliás, Vergílio Ferreira mostrou em Para Sempre – haverá aqui uma vénia a este escritor?


(163 e 164)
Reflexões sobre o projeto da escrita. Até que ponto a realidade próxima deve fazer parte da construção literária. Edmundo parece optar aqui pela sua total exclusão (veremos que, mais tarde, ele vai mudar de opinião).
Parece-me que a esfera azul, que lhe vai aparecendo ao longo do romance, representa o impulso e a iluminação da escrita, do livro por nascer, que se acarinha e que se procura pôr a salvo dos golpes da realidade diária, do seu desgaste. A Ode Marítima é o combustível que mantém aceso esse fogo. O final da Ilíada inspira aquilo que Edmundo deseja para 2030: ser o livro dos livros, aquele que irá servir para evitar o fim do mundo (p. 201).


(204)
Pensando em livros, vejamos. Hoje em dia o mundo dispensa-os. (…)

Novo piscar de olho a Vergílio Ferreira e Para Sempre, na parte em que a filha do narrador fala da morte do livro. Lídia Jorge desenvolve.


(185)
Perplexidade perante o facto de as palavras que imaginamos, o livro que imaginamos, quando passados ao papel, ficam reduzidos a algo de irreconhecivelmente esquálido e deformado, a provocar uma desanimadora deceção.


(207)
(…) o que era um livro? Um livro, um universo que pretendia reproduzir em silêncio, à medida humana, o universo inteiro?

Uma definição muito bela de livro .


(221)
O caso de um marido a pedir provas de paternidade à mulher (aqui, Charlote) mostra a estupidez do gesto porque, seja qual for a conclusão, o resultado é sempre a destruição do casamento, não salva coisa absolutamente nenhuma.
Mas suponhamos que seja verdade que houve infidelidade. E que ela até se mantém. Mas ainda se ama o/a cônjuge. Que escolha devemos fazer: continuarmos a aproveitar 10% de algo de ótimo, ou escolhermos ficar com 100% de coisa nenhuma? É claro que, no espírito do/a cônjuge traído/a, entra também o problema de se sentir gozado pelas costas, seja com fundamento ou sem ele. Não é fácil a resposta; simples não é, de todo.


(223)
Uma demonstração de dignidade, pela pessoa de Charlote. Não se queixa do amante, Amadeu Lima, não se lamenta, não faz cedências ao que é indesculpável (a tentativa de homicídio). Adota e assume o silêncio porque este é o reverso do amor que assumiu também inteiramente, ou seja, é o que lhe permite uma identidade preservada depois da explosão.


(226 e 227)
A vida que se interpõe entre Edmundo e a escrita. A dificuldade em entender os sinais que a vida nos oferece. Mas que, simultaneamente, tem como consequência o começar a fazer despontar a possibilidade de desbloquear a sua escrita.
Vemos os atos dos outros (nem todos, e não seguramente os que antecedem a ação por nós observada), interpretamo-los, mas não os compreendemos por dentro da outra pessoa que efetivamente os viveu. Mesmo quando estamos seguros de que sabemos, nunca sabemos realmente o que se passa no e com o outro.

Nota 1: podemos ver nos outros as emoções espontâneas, se estivermos atentos, como Damásio explicava; mas não os sentimentos. E nem aquelas, se a pessoa fizer um esforço deliberado para as esconder (por exemplo, na “poker face”).

Nota 2: Efeito Dunning-Kruger – como corolário deste fenómeno, podemos mesmo supor que quanto maior a certeza que temos de saber, mais longe estamos de efetivamente saber.


(227 e 230)
Edmundo vai de desengano em desengano, a pensar que sabe tudo e a descobrir que pouco ou nada sabe dos outros.


(231)
Algumas tinham os rostos fechados e eram sensíveis, outras pareciam delicadas e o seu discurso era duro.

Mais uma vez, quem vê caras não vê corações.


(232 e seguintes)
Porquê escrever um livro – discussão com as raparigas.


(267 e 268)
(…) entrar no mundo de sedução que o poder engendra. Falo das circunstâncias e do seu efeito corrosivo sobre a essência das coisas. A pouco e pouco fui ficando enredado no charme produzido pelo efeito de quem pode decidir sobre a vida dos outros, esse sentimento miserável de que poder significa submeter, esse gesto original que está na base do erotismo primitivo, quando o respeito pelo submetido ainda não existe. Uma espécie de renascença desse momento inaugural que antecede o gesto já humano. E de súbito senti que a perfeição que eu vivia junto de uma mulher bela e completa, que a vida me tinha posto à beira das ondas num mês de Setembro, preenchia a minha vida domesticada, civilizada, mas não a minha vida selvagem.

Esta é uma das vertentes da maldição do poder. Por outro lado, o estilo de vinculação de Amadeu não estava à altura do que Charlote lhe oferecia. Embora pensasse que escolhia, na verdade ele foi incapaz de fazer a escolha que, apesar de tudo, intuía ser a melhor para ele e para ela.


(274/5)
Pode-se escrever um livro a partir da ignorância? Ou melhor, a partir da consciência (parcial sempre) da ignorância que se tem?


(278 e seguintes)
Três partes do livro: 1) A beleza da Terra. 2) A destruição da Terra. 3) …


(281 e seguintes)
... A terceira parte é o que vai ser o livro de Edmundo (283) e é constituída pelas vidas dos que se salvam do desastre da humanidade. Esses serão, não figuras coletivas e simbólicas, mas os seus mais próximos: familiares, amigos e conhecidos.
Ou seja, acabámos de ler esse livro.

Estuário é o romance sobre este romance. Por outras palavras, todo o livro é uma reflexão sobre ele próprio, sobre a sua gestação, a sua escrita e a sua receção pelo mundo.

Também é, mais geralmente, sobre se devemos seguir os nossos sonhos e como consegui-lo – uma possível resposta é estando atentos aos outros.

É igualmente um retrato da crise, de várias crises subsidiárias da grande crise que resultou do colapso financeiro de 2008.

Poderão dizer alguns leitores que não se sabe o que acontece aos barcos ou à Titia, etc. Não se sabe porque isso não interessa. Todo o livro é uma reflexão sobre a escrita, o ofício e a arte da escrita. O livro termina com o autenticamente importante, depois de muitas dúvidas de Edmundo e de diversificadas opiniões sobre escrever ou não escrever um livro: ele vai mesmo escrever o livro e diz-nos sobre o que vai tratar. Quando terminamos a leitura, percebemos que acabámos de ler o livro que Edmundo acabou de nos anunciar que vai escrever. Com este último trabalho do leitor, encerra-se a obra. Está completa. Por isso, o leitor que não realiza este último trabalho fica com a sensação de que falta qualquer coisa - só que não é o que ele pensa.

O desfecho do livro é a decisão de escrever – e esse é o estuário do rio a que Edmundo finalmente chega.



Adenda feita a 18-11-2019:

Num debate realizado ontem no Museu Municipal de Faro com o Professor Doutor António Branco (antigo Reitor da UAlg), Lídia Jorge referiu que nunca como hoje o acesso às palavras foi tão fácil. Em muitas línguas, temos dicionários de significados, de tradução, de sinónimos, de antónimos; temos textos clássicos e contemporâneos; temos gramáticas; etc.
Ora, enquanto Lídia Jorge estava a dizer isto, recordei-me de três passagens de Estuário, das páginas seguintes:

(151)
(…) Entre eles acontecia esse relâmpago. Mas ambos procuravam no amplo aparato verbal da sua língua a palavra que correspondia a esse sentimento, e não encontravam. Como não encontravam, usavam a palavra gasta, a única que conheciam que se lhe parecesse, e era de novo a palavra amor. (…) Amor com maiúscula. Só porque não havia palavras suficientes para as realidades, pensava Charlote.

(166)
Havia, pois, muito mais mundo do que palavras, e palavras havia que abriam uma bolsa marsupial infinita para nelas abrigarem mundos, e havia mundos que não encontravam as suas palavras. (…)

(185)
Por que razão a vida sonhada era tão leve e a vida vivida, tão pesada? A imaginação tão diáfana, a realização tão grosseira? (…) [imagens] compostas e perfeitas, articuladas entre si como um todo ainda antes da articulação por palavras, e uma vez pronunciadas em concreto, logo perdiam parte do seu fulgor. Perdiam-no ainda mais no momento em que a mão direita iniciava a tradução em escrita dessas palavras, como se o acto de as desenhar implicasse uma degradação previamente determinada. (…) Mas seria que a voz de quem pela primeira vez pronunciou as palavras Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida, ofereceu essa mesma deceção ao seu autor? O verso pronunciado menor do que as palavras pensadas? (…)


Então, inspirado por este romance, a pergunta que me ocorreu foi (mas não houve tempo para a fazer aos convidados): apesar de o acesso às palavras ter passado atualmente a ser mais fácil, paradoxalmente isso não terá levado a que as relações que estabelecemos com elas se tornaram muito mais complicadas e, talvez, até menos claras?

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