Publicações Dom Quixote, 2020
Vergílio Ferreira dizia que, entre os escritores de que gostamos, há aqueles que simplesmente admiramos; depois, há os que profundamente amamos. E, finalmente, há uns poucos que admiramos e amamos ao mesmo tempo.
Lídia Jorge, no meu universo literário pessoal, é a única de todos os escritores vivos que está nesta última categoria. Entre outras obras suas, livros como Os Memoráveis ou Estuário ocupam este lugar privilegiado. É igualmente o caso de Em Todos os Sentidos, e de forma muito particular. Porquê?
Porque o livro, pedindo emprestada uma expressão recentemente usada pela autora, cria clareiras no meio da penumbra. Cada uma destas crónicas é uma clareira. Como o consegue Lídia Jorge?
Primeiro, com uma imensa arte literária, plena de sensibilidade, de sabedoria e de lucidez, uma extraordinária e consistente lucidez. Acompanhada daquilo que me é sempre uma pedra de toque essencial em qualquer obra literária: a autora assumir que os seus leitores são inteligentes (às vezes, exaspero-me um pouco, mas no fim sinto-me sempre gratificado).
Depois, porque embora Lídia Jorge não tenha certezas, tem, no entanto, valores de que não prescinde. Assim, a partir desses seus valores, em cada crónica e em todas elas, interroga e convida-nos a cultivar a interrogação, umas vezes explícita, outras implicitamente. Mas sempre no sentido de um bem maior, tanto individual como coletivo ou comum. E, num tempo em que abundam certezas, a dúvida e a interrogação constituem o meu território atual, aquele onde respiro melhor.
Mas há ainda mais: nela desenvolve-se sem esmorecimento «a arte de atirar ao vento do futuro uma promessa de semente», de «34. As Sementes de Adriana». E eu também quero ser participante ativo desse processo.
Repare-se, todos temos uma família real à qual pertencemos e outra que nos pertence a nós e que nos acompanha até à morte constituída pelos escritores e personagens dos livros da nossa vida. Esta última é aquela que reconheço como a minha verdadeira linhagem de espírito.
Assim, por exemplo, Edmundo e Charlotte desse extraordinário romance que é Estuário, e que já li não sei quantas vezes (4?5?), são presenças que não mais me abandonarão até eu morrer. O mesmo acontece com muitas destas crónicas.
(Que, aliás, se eu fosse ministro da educação, tornaria leitura obrigatória não só nas aulas de Português, mas também nas de Educação Cívica.)
O que aprecio em Lídia Jorge? A acrescentar ao que disse atrás, uma apurada inteligência intimamente ligada a uma sensibilidade aguda, acompanhada por vezes de uma ironia finíssima e algumas vezes muito, muito escondida.
Por exemplo, quando termina uma crónica, 30 - A Construção da História, dizendo que “Por minha parte, não dirigirei uma palavra sobre a questão aos donos de O Postigo”, quando acabou de o fazer nessa mesma crónica; e não só para eles, mas também para o mundo inteiro.
Associadas a uma escrita límpida, poética e emotiva sem ser sentimental.
Por isso, tenho muita coisa a refletir e a conversar a propósito de todas as crónicas desta obra. O que irei fazer aqui é aprofundar um diálogo com esta obra, crónica a crónica.
A estrutura de cada postagem tem três partes: primeiro, começo com as primeiras palavras da crónica; depois, registo as interrogações que a crónica me suscitou e, por vezes, algumas hipóteses de resposta bem como comentários; e termino com as últimas palavras da crónica.
Por fim, continuemos sempre a ler Lídia Jorge, a admirar e a amar as suas obras, e a nunca deixar de passar incansavelmente a sua mensagem de humanidade.

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