Feita a apreciação geral de Misericórdia, passemos a um olhar mais virado para alguns dos muitos pormenores que estimularam a minha reflexão e o meu encantamento.
Comecemos, então, pelo título. Não vou repetir o que a autora disse sobre ele (e de que, aliás, só tomei conhecimento após ter feito as reflexões que se seguem).
Ao longo da minha primeira leitura, confesso que não percebi a razão de ser do título. Apesar de Lídia Jorge se referir muitas vezes ao carinho e à bondade de algumas e de alguns cuidadores para com D. Alberti e outros pensionistas.
Porque o que se me foi revelando ao longo dessa primeira leitura como mais saliente foi a resistência de D. Alberti contra os assaltos à sua dignidade:
- por parte do seu corpo (ter de ser lavado, deslocado de um lado para o outro, etc. por outros);
- por parte da mente (ao sentir vergonha, humilhação, raiva, tristeza, etc.);
- e, principalmente, por parte dos outros (em que avulta, entre muitos, o episódio do fotógrafo).
Mas, depois, na segunda leitura, duas associações me surgiram enquanto meditava na razão de ser do título. Registo-as aqui, apesar de saber que muito provavelmente outros as terão também feito.
A primeira foi a parábola do Bom Samaritano que aparece apenas no Evangelho de São Lucas (10, 25-37). O episódio onde surge esta parábola vale a pena ser descrito (segui a tradução feita por Frederico Lourenço; mas uma tradução alternativa pode ser encontrada aqui).
A uma dada altura, um doutor da lei pergunta a Jesus Cristo como pode herdar a vida eterna. Jesus responde-lhe com uma pergunta (esta é uma técnica educativa muito eficaz usada a fim de ser o próprio inquiridor a descobrir a resposta e a dá-la, o que proporciona uma melhor aprendizagem).
Assim, o doutor da lei responde que é amando Deus de forma total e é também, amando «ao próximo como a ti mesmo.» Jesus aprova e diz-lhe para ele fazer isso mesmo. No entanto, o doutor da lei tem ainda uma dúvida que me parece bem interessante (e que, aliás, vai assim dar origem àquela que é uma das mais belas histórias da Bíblia): «E quem é o meu próximo?»
Jesus responde com uma narrativa pois sabe também que essa é uma maneira excelente de mostrar uma ideia que não é simples; e de levar a que ela fique retida mais facilmente na mente de quem está a ouvir.
Jesus, então, conta como um judeu, que foi assaltado e deixado a agonizar na estrada, não teve qualquer ajuda nem de um sacerdote nem de um levita que por ali passaram. E é um samaritano, pertencente a um povo que tinha relações muito tensas com os judeus, que vai evitar que ele fique ali a morrer.
Este episódio chega ao fim com Jesus a perguntar qual daqueles três homens terá sido o próximo do judeu ferido. E o doutor da lei responde com honestidade: “O que praticou misericórdia com ele”.
Exatamente: a palavra usada é misericórdia.
É irresistível pensar no ambiente do romance em que há aqueles que têm a miséria do corpo ou do espírito do seu lado. E os que têm a função de cuidar dessas pessoas para que a sua miséria não seja uma condição pelo menos tão penosa. O que se vê nesta narrativa é que alguns cumprem a sua função, mas sem humanidade; enquanto outros fazem-no precisamente com misericórdia. No sentido em que é definida pelo Papa Francisco da seguinte maneira:
A palavra «misericórdia» é composta por dois vocábulos: miséria e coração. O coração indica a capacidade de amar; a misericórdia é o amor que abarca a miséria da pessoa. É um amor que «sente» a nossa indigência como se fosse sua, com a finalidade de nos libertar dela. (…)
Uma definição que serve, juntamente com a parábola do Bom Samaritano, como um pano de fundo perfeito para esta magnífica obra de Lídia Jorge.
Sem comentários:
Enviar um comentário