sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 22

 


22 ~ A Fragrância das Coisas

Num célebre filme de Alfred Hitchcock, A Corda, produção de 1948, uma personagem, referindo-se à oportunidade de certos livros, proferia uma curiosa sentença sobre as obras de Filosofia – livros de letras miudinhas, muitas páginas, poucas vendas. (...)


Poucas vendas? Não será também porque, às vezes, os editores não sabem publicitar algumas dessas obras? Vejamos o exemplo de Platão.

Ele escreveu livros relativamente curtos, que nos fazem refletir e nos ajudam a dar um sentido à vida; livros divertidos, alguns até de um excelente humor (veja-se Eutidemo); com enorme suspense, quase como se fossem policiais; e genericamente muito bem escritos. 

Sim, Platão era um escritor de elevadíssima qualidade literária; nem precisarmos de referir a sua qualidade filosófica. No entanto, isto foi algo que eu tive de descobrir por mim próprio (com a ajuda d'A Senhora Sócrates), pois nunca ninguém me anunciou os seus livros nestes termos… mas foi exatamente isto que referi atrás que eu encontrei na sua leitura!


Já aludi, no comentário à crónica anterior, como o medo tem vindo a ser estimulado na nossa sociedade. Lídia Jorge, citando o filósofo Byung-Chul Han, menciona como isso leva a que os seres humanos se sintam sempre em perigo, fazendo com que se aproximem de estados primitivos, ou mesmo animais (com a maior parte dos humanos, essa situação é uma constante). Com a agravante de os animais não imaginarem nem anteciparem cenários futuros perigosos, ao contrário dos seres humanos. Que consequências isto traz?

Como hipótese, adianto várias, que já ganharam uma enorme visibilidade, mas cuja origem ainda não foi reconhecida: um surto nunca antes visto de doenças mentais, uma diminuição acentuada dos sentimentos de bem-estar, um aumento exponencial da solidão (e das respetivas consequências para a saúde física e mental), uma raiva que já começa a transbordar para o espaço público de uma forma inquietante, enquanto vai inundando insidiosa e tristemente o espaço privado, etc. Como diz Lídia Jorge (e eu concordo totalmente):

(…) Cada um de nós transformou-se num para-raios onde desferem a cada instante solicitações que nos surgem como ameaças de usurpação do nosso tempo restrito e do nosso pequeno espólio. (…) Estamos a funcionar num tempo que não é o nosso tempo, hiperactivos, num tempo que desliza para o estado de desconfiança do selvagem, sem tempo para a atenção profunda que a contemplação das coisas e dos outros exige. (141 e 142)

Sim, a atenção, o cuidado, o conforto em relação aos outros exige tempo. Para os mais economicistas e defensores da eficácia, lembro que também a competência exige tempo. Por isso, nunca consigo deixar de me surpreender quando oiço que os sindicatos vão iniciar uma nova luta por aumentos salariais. Não que estes não sejam importantes, mas não será o roubo que está a ser feito ao tempo de cada um de nós tão dramaticamente pernicioso como o roubo feito aos nossos bolsos?


(…) ainda queremos cumprir a cerimónia de olhar para quem está à nossa frente, desarmados, para anunciarmos aos outros que não constituímos um perigo. Eu já sabia que era assim, mas não o saberia dizer. Ler A Sociedade do Cansaço, mesmo que seja numa noite escura, ajuda-nos a ver mais claro.


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