sábado, 24 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 23

 


23 ~ Fala Diante do Mar

Escrevo estas palavras para serem lidas em voz alta, diante do mar, quando a manhã ainda não rompeu, pois só agora as águas começam a emergir do arroxeado da noite. (…)


Esta crónica é tão bonita que sinto relutância em lhe acrescentar o que quer que seja. Creio que é porque não vemos aqui apenas a memória tornada poesia; ao invés, podemos sentir a evocação transformada em arte.

No entanto, para cada uma das crónicas deste livro, comprometi-me a escrever “Sim, e…”. É esse pacto que vou honrar, sob a forma de apontamentos muito curtos, a fim de a beleza deste texto poder continuar a respirar livremente.


Lídia Jorge concretiza aqui um exemplo da ideia dominante sobre como as crianças deviam ser educadas. Na verdade, achava-se que não havia educação que prestasse, se não houvesse imposição e sofrimento. Será injusto afirmar que, ainda hoje, esta visão domina largos setores da nossa sociedade? Talvez apenas no que se refere às crianças e jovens, porque, na educação de adultos, a opinião já não será bem a mesma. 

Mas, desde sempre, houve vozes mais lúcidas e, sem querer ofender ninguém, mais humanas. Em total consonância, partilho aqui o excerto de uma publicação da escritora Isabel Rio Novo, de hoje, 24/09/2022, no Facebook (a foto que encima esta crónica é retirada dessa mesma publicação):

(…)

Por vezes, pelo meio, um momento em que parece caber tudo. Como quando, ao permitir-me estender a leitura de um livro antigo para além do que é estritamente necessário para aqueloutro que estou a escrever, encontro reflexões que parecem simultaneamente dirigidas à mãe, à professora, à investigadora que também sou. Reflexões que me fazem descobrir que sempre houve vozes sensatas. Que na nossa época não inventamos nada. Que este Alexandre de Gusmão, tivesse ele vivido uns séculos mais tarde, poderia estar, daqui a nada, a comentar esta publicação.

Aqui vão, então, duas reflexões tiradas deste livro a desfazer-se:


“…tende cuidado em primeiro lugar, que os meninos não aborreçam o estudo, para que não passe aos anos maiores a pouca vontade de estudar.”


“Fazei com que os meninos amem o que lhe ensinam, e que lhes não seja o estudo trabalho, senão recreação; não força, senão delícia; e é assim, porque se desde meninos se não afeiçoarem ao estudo daquela arte, a que os aplicam, nunca sairão nela perfeitos.”

(…)


Procurando ser breve, gostaria de chamar a atenção para o facto de o nosso cérebro não esquecer o que de mau ou de perigoso ou de simplesmente assustador lhe acontece. Para além da memória que fica gravada para sempre, associa-se-lhe todo um movimento interior tendente a nunca mais deixar que aconteça o mesmo à pessoa - é que, para o cérebro, o que está em jogo é a sua sobrevivência. Isto aplica-se a qualquer experiência sentida como profundamente negativa (mesmo quando ela objetivamente não o é).


(…) Um dia, daqui a muitos anos, estes que vêm sentados no coche real que são as costas do seu pai, hão-de contá-lo.


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