24 ~ O Signo da Brevidade
Dizem-me que estas crónicas não são verdadeiras crónicas porque têm contos na sua origem. (…)
Dizem, quem?, pergunto-me. Vêm-me ao espírito, vejo-os, alguns pelo menos, os puristas da língua, dos géneros literários, de tudo e mais alguma coisa, para quem nada é o que deveria ser, polícias implacáveis da vida diversa e inesgotável. Como eles me cansam, por vezes!
Uma crónica que é um verdadeiro hino ao conto, em que se conjuga a busca do seu sentido tanto pela racionalidade como pela poesia.
(…) essa harmonia entre início, fim e exaltação de sentido, tecidos sobre o signo da brevidade, era a cartilha que presidia ao conto. (150)
Bela definição do que é um conto! Leio-a e penso nos autores de contos que deixaram em mim um tão longo rasto que aí perdurarão sempre até ao fim da minha vida.
Lídia Jorge, claro. Tocam-me particularmente todos aqueles contos, e são muitos, em que as mulheres lutam pela sua dignidade face a um mundo adverso (que, às vezes, inclui também outras mulheres).
Vergílio Ferreira. O drama, a tragédia, mas também o humor, a poesia, a plenitude.
Ray Bradbury e Mia Couto. Tão diferentes, mas iguais na dor interior que me fazem sentir de estar tão longe ainda da sabedoria que eles revelam nos seus contos.
Somerset Maugham. Com os seus retratos desencantados embora, ao mesmo tempo, compassivos de uma humanidade imperfeita.
Jorge Luís Borges. A inteligência, a racionalidade, o mistério e a ironia.
Jack Schaeffer e Louis L’Amour. Duas escritas diferentes, mas a mesma fé inabalável na possibilidade de uma humanidade digna e com grandeza.
James Herriot. O humor e a ternura, envolvendo pessoas e animais.
(…) No fundo o que é preciso é que o sentido em parte se desvende e em parte nos resista, em parte fique a pairar, incompleto e breve, como um poema fica. (…) (152)
Isto (e ser tocado pela Beleza) é o que me atrai infatigavelmente para a Literatura, todos os dias da minha vida. Uma Literatura que interroga mais do que afirma. Que assume a inteligência do leitor, convidando-o a coconstruir o texto. Que mostra como na vida nem tudo é visto, nem tudo é explicado, nem sequer explicável. Propiciando encontros emocionais infindáveis entre o leitor, a escritora, as personagens, a paisagem, a época. Tudo isto cumprido de tal forma que vemos verdadeiramente, como diz Novalis citado por Lídia Jorge, que
Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido. (153)
E eu, gostarei de histórias? É uma coisa estranha, pois não sei contar histórias e conto muito poucas. Além de que a minha leitura preferida é o ensaio, não é a ficção (que, muitas vezes, acho pobre, previsível e demasiado violenta para a minha sensibilidade, tudo exatamente ao contrário do ensaio)).
Nunca soube contar histórias, nem escrevê-las, embora tivesse tentado durante muitos anos. Hoje, dedico-me a estas simples notas de rodapé; e a um ou outro poema. Mas o que me dói mais, olhando para trás, foi não ter sabido contar tantas histórias quantas o meu filho me pedia quando ele era pequenino.
Assim, para apaziguar o vazio e a dor inerentes à existência, a verdade é que não consigo passar sem histórias. No fundo, como todos nós. De as ler principalmente, pois é só na leitura que eu consigo ter o prazer de criar com a imaginação tudo o que a autora não nos transmitiu, pelo menos não explicitamente.
(…) Viciada no conto, como poderia conceber crónicas diferentes?
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