25 ~ O Órgão de Boliqueime
Da última vez que passei por Leipzig ia acompanhada por um professor de música. (…)
(…) Aconteceu no ano de 1724 e como é costume dizer quando a alma fica cheia, nunca mais deixou de acontecer. (155)
Sim, fica sempre em nós esse rasto de que já falei a propósito da Literatura no comentário anterior. Bela maneira de colocar a questão.
Leio a história,
(...) história intensa e absoluta, uma história daquelas que iluminam qualquer entardecer (...) (157),
de Maria Inácia e porque
(…) a humanidade, como a História, é feita de pequenos mundos. (…) (159),
não consigo deixar de pensar em como nada nunca está suficientemente conquistado na nossa civilização. Quero eu dizer mais especificamente, nunca há tréguas na luta pela Dignidade inteira e indivisível de todos os seres humanos.
Como podem as pessoas, sem poder, nem dinheiro, nem prestígio, como Maria Inácia, não desanimar desse combate? A memória e a obstinação, ambas ao serviço da verdade, são as armas que todos temos à nossa disposição para fazer frente a quem quer que seja. Principalmente, àqueles que querem limitar a Liberdade, condição necessária e prévia à sobrevivência daquela Dignidade.
Esta crónica é talvez a mais comovente de todas neste livro. Aquela em que Lídia Jorge deixou as emoções extravasarem um pouco, para nosso deleite e inspiração. Mas, especialmente, pela desproporção de forças entre Maria Inácia e aqueles que tinham todo o poder e todos os meios para retirar dali o órgão.
É interessante ouvir esta crónica a ser dita pela própria Lídia Jorge, aqui, na RTP Play. Ou aqui, no Festival Órgão Algarve´21 - Boliqueime, a partir do minuto 9:25.
(…) então deve pedir-se ao organista Rúben Bárbara, quando vier de férias a Portugal, que no meio das sequências litúrgicas de louvor a Deus, dedique uma delas a uma figura anónima, profana, salvadora do órgão, e chame a essa peça, Salve, Maria Inácia, rainha de Boliqueime. Talvez os santos gostem e nós também.
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