Patrick [Deville] sabe, todos nós sabemos, que a transmissão dos livros, que sempre foi escassa, selectiva como uma guerra biológica darwiniana, em que só sobrevivem alguns – (…) (163)
Contra esta guerra, acredito que podemos opor com sucesso a nossa fidelidade de leitores.
(…), como os nossos contemporâneos estão deixando de ser leitores de livros. (…) (163)
Estaremos mesmo a deixar de ler livros?
Sei que nos programas escolares se inclui a leitura de livros. Infelizmente, não para um simples prazer, mas para outra coisa qualquer: um relatório, uma apresentação, um teste ou exame. E, claro, retirando o hábito desse estímulo, dessa “recompensa”, qualquer ser humano tende a abandonar o comportamento correspondente.
Sei também que, em muitos cursos universitários, a leitura de livros não é minimamente estimulada, dando-se a preferência à leitura de artigos científicos. Na minha mais recente passagem pela Universidade, apenas uma disciplina de todo o curso incluía a obrigatoriedade de ler alguns livros. No entanto, a minha experiência é que essa restrição aos artigos académicos me levou à leitura de livros. Porquê? Porque estes se encontram escritos de forma muito mais interessante e atraente, além de até não se encontrarem tão desatualizados assim relativamente aos artigos.
Nova pergunta: a leitura de livros não terá sido sempre um apanágio somente de uns poucos?
O que penso é que a democratização da cultura criou expetativas muito elevadas nos agentes culturais. Ou seja, mais exatamente a expetativa de uma população que, no seu todo, lesse, estudasse, ouvisse música, fosse ao cinema, ao teatro, a museus, etc. Ora, na atualidade, dadas as brutais condições laborais e a expressiva quantidade de população que vive na pobreza, esperar isto não será um pouco menos, apenas um pouco menos do que utópico?
Aliás, pergunto-me se os intelectuais, sabendo disto, não se deveriam sentir mais motivados a uma intervenção cívica junto da sociedade. Como Lídia Jorge faz, por variados meios. E de que o presente livro é um bom exemplo. Contribuindo para a libertação do medo e das privações de que sofre muita gente, talvez deste modo acabassem por ser mais lidos...
(…) Mas Hubert Haddad, autor de um livro sobre o gueto de Varsóvia, escreveu-me na primeira página – Para si, por esta comunicação secreta. É essa comunicação secreta que nos une, (…) (163)
Lídia Jorge refere-se nesta crónica à comunicação entre escritores. No entanto, neste episódio específico, ponho a hipótese de que talvez Hubert Haddad a estivesse a ver principalmente como leitora.
Na verdade, não sei como é entre escritores. O que sei é que também entre muitos leitores e escritores existe essa comunicação secreta que a ambos une indissoluvelmente até ao fim da vida. De tal modo, por exemplo, que às vezes suspeito que o meu último pensamento antes de morrer irá para alguma obra daquele escritor que está entretecido a toda a minha existência. Não, não é Lídia Jorge (que, não obstante e sem dúvida alguma, pertence há muito tempo ao meu panteão particular, juntamente com Albert Camus), mas sim Vergílio Ferreira (que me ensinou a ser, a ver, a sentir, a pensar, enfim, a ser pessoa inteira dentro do possível que eu fui sendo).
Esta comunidade também é feita de silêncios, de olhares, de sorrisos cúmplices. Muitas vezes, nós, os leitores, tentamos lançar palavras e, tal como no final de La Dolce Vita, de Fellini, perante o fracasso da comunicação, porque não se consegue perceber, recorremos a um sorriso longo e gentil (que, no filme, será talvez um dos mais belos sorrisos da história do cinema):
(…) Ele [Miguel de Cervantes] iluminou as Letras, mas quando o fez não sabia que nós o esperávamos sobre a Terra. (…) (165)
Hoje, a escritora sabe, e talvez não precise de imaginar, que uma extensa linhagem de leitores a espera, como quem aguarda e acolhe alguém muito chegado da família. Dessa forma, a escritora será para sempre mãe, irmã, filha e companheira não só de muitos contemporâneos como de futuros leitores.
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