27 ~ Geografia Partilhada
Digam agora que a ficção não serve para nada. (…)
Crónica simultaneamente séria e irónica, triste e divertida, desesperada e esperançosa. Que antecipa até o atual desbragamento de um Putin.
(…) Não só o romance espelha realidades que andam escondidas e que de outro modo permanecem invisíveis, como ainda por cima fornece ideias úteis que depois vêm a ser postas em prática. (…) (167)
Há uma boa hipótese de este excerto poder ser irónico. Mas Lídia Jorge respeita a inteligência e a liberdade do leitor, como sempre. Eu escolho interpretar pelo lado da seriedade, penso que sem trair o pensamento da autora.
Lídia Jorge refere aqui livros que esclarecem o presente e lançam avisos sobre o futuro. É impossível não nos lembrarmos de 1984, de George Orwell. Ou, falando da própria Lídia Jorge, do seu romance Estuário.
Sim, nos livros reside uma grande esperança, pois eles são a memória da humanidade e o seu projeto no futuro. Com os livros, não poderemos escudar-nos na desculpa de que não sabíamos.
(…) também sonha great again, (…) (171)
Todos ansiamos por um sonho que nos faça soerguer da nossa vida pequenina, cinzenta, entediante e uniformizadora do dia-a-dia. Por isso, os sonhos que mais nos atraem são os da Grandeza. Ou os da sua substituta menor que é a Fama – a deusa da qual Virgílio dizia que «mais veloz do que ela não existe outra desgraça» (Eneida, IV, 174)...
Quando aparece um político a acenar com esse sonho de Grandeza no deserto de sonhos em que vivemos hoje (o prazer e o entretenimento, ligados à pobreza do espaço público, secaram tudo), as pessoas sentem-se empolgadas. Porque se trata de algo que apela ao que cada um de nós tem de mais elevado e o une aos outros, o que nos faz sentir mais vivos.
Trata-se, claro, de um sonho irrealista e irrealizável: não há, nunca houve ninguém, nem nenhum país ou civilização que fosse verdadeiramente grande em todas as suas dimensões. Sim, nem Buda (com a sua desconfiança misógina), nem Cristo (com a sua intolerância com os vendedores ou com a figueira), embora ambos se tenham aproximado muito da verdadeira Grandeza. De países ou civilizações nem vale a pena falar.
O problema é que este sonho de Grandeza não é inofensivo, longe disso. Porque está indissoluvelmente associado ao que há de mais baixo. Porque o sonho da Grandeza só pode ser construído sobre a Pequenez dos outros. Se esta Pequenez não for natural e pacificamente aceite (e não o é nunca pois também eles têm os seus sonhos de Grandeza), terá de ser imposta à força. Com todo o cortejo de violência e crueldade que se lhe segue.
Não é um sonho bonito. E, infelizmente, as pessoas só demasiado tarde é que o descobrem.
Eis uma moral possível desta crónica:
Tudo o que separa, discrimina e subordina, tudo isto que tem a sua raiz no medo do outro, só serve para, na melhor das hipóteses, nos exilarmos na solidão mais estéril; na pior das hipóteses, para perdermos a amizade, a confiança, a justiça, a liberdade e, no fim, a vida (como a invasão da Ucrânia o comprova).
(…) Para já, o planeta mais próximo de nós parece ser Marte. (173)
Sim, já se pensa colonizar Marte. O que, neste momento, é no mínimo insólito. Desperdiçar recursos (naturais, humanos e financeiros) para transformar Marte numa nova Terra, quando com muitos menos gastos se conseguiria tornar o nosso planeta viável no presente e para as futuras gerações, temos de admitir que é francamente estúpido. Como também disse ao The Guardian Neil DeGrasse Tyson:
If you want to ship a billion people to Mars and have them live there as they are living on Earth, you’ll have to terraform Mars – and that means turning Mars into an oasis of some kind. If you have the power of geoengineering to terraform Mars into Earth, then you have the power of geoengineering to turn Earth back into Earth. So, the argument that if we trash Earth we need another planet doesn’t work. I am not convinced that escaping Earth and leaving others behind to die is the most sensible solution out there.
Façam o favor de pensar na viagem.
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