quinta-feira, 7 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 4

 



4 ~ O Soldado Gertrudes

Decorreram mais de cem anos sobre a Batalha de La Lys, e no entanto a história desse desastre não pára de nos ensombrar como nação. (...)


Aqui, Lídia Jorge expõe a sombra da guerra que pende permanentemente sobre todos nós.


O início desta crónica suscitou-me algumas perguntas:

27 - Para quem, hoje, a Batalha de La Lys significa algo? E o que é que significa? Porque, para mim, La Lys evoca-me a figura de um compatriota miseravelmente equipado e com uma tristeza escura a pesar-lhe na face.

27 - Que mitos existem à volta deste evento? Que narrativas? Não conheço ou será que o que penso que sei é em si mesmo um desses mitos.

27 - Porquê "a derrota de um temperamento nosso"? De que temperamento estará Lídia Jorge a falar e que foi derrotado? E o que lhe aconteceu depois?

27/8 - Em que medida é que celebrar o desastre é vermo-nos ao espelho - incompetência, miserabilismo, desprezo e ódio pelos compatriotas?

Perguntas para as quais não tenho resposta.


(30) "(...) [Manuel Gertrudes] Costumava dizer - «Muito gostam aqueles que mandam de fazer a guerra. Eles não vão lá. Se fossem, não a faziam.»

E assim terminou para sempre a narrativa do soldado Gertrudes."

Precisamente. O que não os desculpa nem justifica. Porque, tal como eu sei, sem nunca ter participado em nenhuma guerra, eles sabem bem o que é a guerra. Nem são desprovidos de um pouco de bom senso. O que lhes pode faltar é um pouco mais de imaginação, arte, e compaixão pela vida em geral e pelos seres humanos em particular. 

Provavelmente, são resultado do fracasso de uma educação, ou são o produto de uma educação que foi direccionada para isto mesmo, quem sabe? O que não tenho dúvidas é que resulta de uma falta de prática - como dizem os americanos, "Use it or lose it".

É trágico que selecionemos como nossos líderes pessoas com esta deficiência fundamental. Aliás, veja-se como praticamente mais ninguém quer fazer a guerra senão aqueles que mandam (falamos, claro, dos políticos e de outras figuras pardas por detrás deles).

Também isto não desculpa nem justifica (embora não com a mesma força que usamos em relação a quem manda) todos aqueles que apoiam, entusiasticamente ou não, uma guerra. Não confundir com apoiar a vítima de uma guerra. Também esses contribuem. Aliás, nas democracias, já contribuíram ao elegerem líderes com uma inclinação mortal para se suicidarem arrastando com eles todo um povo. É que todos estes eleitores, seguindo o exemplo de Bartleby, poderiam sempre dizer «Preferia não o fazer.»


Com tudo isto, há uma pergunta que se impõe:

Porque somos a única espécie do planeta que faz guerra entre si, de forma organizada e em escala gigantesca?

A minha proposta de explicação reside na arquitetura do nosso cérebro. Ou seja, naquela parte do nosso cérebro que é especificamente humana e que não partilhamos com os animais. Refiro-me, naturalmente, ao nosso cérebro racional, aquele que é plenamente capaz de trazer muita coisa boa às nossas vidas. Mas que, infelizmente, tem também a capacidade de criar uma multiplicidade pavorosa de infernos. Porque é o cérebro racional que consegue suster por tempo indeterminado as emoções negativas; e que consegue amplificá-las, traduzindo-as em impulsos e comportamentos dos mais irrealistas e destrutivos que possamos imaginar. Atualmente, ajudados por meios tecnológicos que facilitam uma selvajaria sem limites (porque não chegamos sequer a ver as vítimas).

É esta a tragédia do ser humano: a parte da nossa fisiologia que contribuiu para a ascensão da nossa espécie é a que contribui para um sofrimento desmedido e sem fim de todos os seres vivos deste planeta. Conseguiremos alguma vez sair desta espiral negativa? Conseguiremos alguma vez dominar este nosso cérebro?

Talvez começando simplesmente pelas nossas palavras. Dominando-as. Respeitando o seu significado e o seu poder. Estando alerta para aqueles que usam a língua para a destruição, para o ódio. Conscientes de que se não apaga uma fogueira deitando-lhe mais lenha, ou derramando gasolina sobre ela. Portanto, usando a palavra para acalmar, não para combater o outro; pois, neste caso, estaremos a comprar o primeiro estágio de uma guerra.

Depois, procurar saber os factos. 

Por exemplo, que países envolvidos em guerra nunca ganham, mesmo quando saem como vencedores dela. Primeiro, pelos mortos, feridos, mutilados, perturbados mentalmente. Segundo, pelo sofrimento gerado para quase toda a sua população. E, finalmente, de um ponto de vista material e patriótico, pelo enfraquecimento do país - veja-se o Reino Unido: o império "no qual o sol nunca se punha", de tão vasto que era; e como ficou depois da 2ª Guerra Mundial.

Num conflito, a única hipótese de se sair a ganhar alguma coisa (ou, pelo menos, a perder pouco) é negociando, negociando e negociando. A opção pelo recurso às armas é um jogo demasiado perigoso e com um fim demasiado certo.

Um segundo facto que é preciso reconhecer é que a guerra não é natural no ser humano, não faz parte da sua natureza. Entre várias provas possíveis do que afirmo, apresento quatro: 

a) as perturbações mentais das pessoas que passaram por uma guerra (se fosse natural, não constituiria um choque nem originaria qualquer trauma).

b) e a facilidade com que a guerra pára quando os combatentes entram em contacto mais próximo uns com os outros. Como aconteceu na 1ª Guerra Mundial.

c) o reconhecimento pela ciência que um dos principais fatores de pertencermos ao menos de 1% das espécies que sobreviveram no nosso planeta se deveu ao espírito de cooperação entre os seres humanos. Sozinhos, somos presa fácil para qualquer outra espécie predadora. Juntos, tornámo-nos na espécie dominante do planeta.

d) Raramente são os povos que tomam a iniciativa, por si próprios, de uma guerra. Essa iniciativa vem sempre dos políticos. O povo quer paz, uma vida digna e segura para si e para os seus filhos. Já nas narrativas mais antigas se refere isso mesmo. Veja-se Ulisses, o herói da Antiguidade de quem nos sentimos mais próximos, que faz tudo o que pode para não ter de ir fazer uma guerra a Tróia decidida pelos políticos poderosos da altura.

E, finalmente, não só para sair, mas também para nem entrar sequer numa espiral de destrutividade, pensarmos por nós próprios. Não aceitando acriticamente que outros ditem o que havemos de pensar. 

Principalmente, perceber que não são os "inimigos exteriores" os causadores das nossas dificuldades em satisfazer as nossas necessidades. Os verdadeiros inimigos, aqueles que põem em causa as nossas necessidades mais básicas, estão no meio de nós e muitos deles foram colocados por nós em posições de poder, de onde espalham a sua destrutividade pelos povos.

Acima de tudo, reconhecer que os políticos (declarados ou disfarçados de jornalistas, pensadores, etc.) tornam uma guerra iminente quando contribuem para que desumanizemos aqueles que eles escolheram (é uma escolha, já que hoje são uns, amanhã são outros) para serem nossos inimigos.


Fica assim garantida a não existência de guerras? Infelizmente, não. Porque nem todos os países vivem em democracia e, portanto, o povo não tem poder de decisão. Porque, nas democracias, os políticos mentem sempre e há alguns que mentem mais do que os outros e é difícil distingui-los. E, por último, porque, como diz Vergílio Ferreira (Conta-Corrente 1, 31 de agosto de 1975): "A questão é sempre a mesma: um indivíduo com uma metralhadora tem sempre" razão" sobre uma multidão de homens desarmados." E se esse indivíduo decide que se faz uma guerra, todos os outros pouco podem fazer...


Como conclui Lídia Jorge esta crónica? Com uma interrogação, como é habitual nela. Mas sinto que uma interrogação acompanhada de uma imagem de pavor perante o (ab)uso do poder pelos políticos.


(...) Naquele dia, 11 de Novembro, eu voltei a pensar no relato do soldado Gertrudes, e a cada dia que passa, mais e mais, não paro de pensar.




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