5 ~ Estação do Oriente
Há poucos dias tive acesso a dois episódios de uma série sobre cidades do futuro, e de novo me maravilhei com o poder da imaginação. (...)
Qual é a questão-chave desta crónica?
Talvez mais um exemplo de como somos bastante impotentes perante os poderosos.
Penso que, na verdade, ou estes são bons, ou ficamos muitas vezes em situação difícil.
Desejaria que, pelo menos, conseguíssemos garantir essa bondade naqueles em que podemos votar (há muitos poderosos que, pelo contrário, estão fora do nosso alcance).
E qual poderia ser uma medida para ajuizarmos da bondade desses poderosos? Para mim, maldoso é o que propõe e coloca em prática soluções à custa da dignidade e do sofrimento de outros. Que podemos ser ou vir a ser nós. Por todas as razões, não é nestes que devemos votar.
33 - Refere Lídia Jorge que agora é mais fácil idealizar com perfeição, graças às tecnologias digitais (dou o exemplo: o AutoCAD).
Mas há sempre uma grande diferença entre o que idealizamos e a dura realidade. Por vezes, deliberadamente ou por incúria (como parecem ser os casos aqui relatados pela autora).
Mas, outras vezes, porque é da natureza da realidade nunca deixar que se cumpram na perfeição todos os planos que se façam anteriormente. Daí o provérbio: "O homem planeia e Deus ri."
No caso em apreço, a responsabilidade é do arquitecto Santiago Calatrava. Mas não o é menos, recordemo-lo, daqueles que escolheram o projeto deste arquitecto como vencedor do concurso .
Esta é uma crónica triste que só não é completamente amarga porque Lídia Jorge tempera a sua zanga com uma certa ironia a revelar uma compaixão viva pelo mais fracos, pelos que não têm voz.
E critica aqueles que sonham com um futuro ideal e que desprezam todas as pessoas que se encontram longe, muito longe de se encaixar nesse ideal.
(36) Lídia jorge gostaria que ninguém ficasse excluído dos benefícios destas cidades do futuro. Mas apelida esse desejo de "heresia". Porquê "heresia"? Penso que é porque pode ser acusada de irrealista. É claro que esta acusação seria feita por aqueles mesmos que se mostram irrealistas (mas que nunca o admitem e acusam os outros de o serem) ao desenhar aquelas cidades do futuro que nunca chegarão (nunca chegaram até agora) a existir.
Depois, subtilmente, Lídia Jorge interroga-nos se estes espaços amplos e luminosos, mas vazios de conforto e de calor humano, não contribuirão para uma certa cegueira nossa. É com um episódio (36 e 37) pungente passado com uma pedinte que Lídia Jorge nos confronta.
Trata-se de um exemplo pessoal de como, apesar do ato compassivo, também ela menosprezou a fala de uma pessoa que não se encaixa. Penso que devido a preconceitos, provavelmente. Tal como o arquiteto e os decisores políticos fazem/fizeram na Gare do Oriente, menosprezando as pessoas comuns.
Porque é que Lídia Jorge partilha connosco este episódio? Imagino a autora alertar-nos com muita arte para estarmos atentos às vezes em que cada um de nós podemos ter momentos em que não conseguimos atuar à altura dos nossos princípios morais.
(37) A essa pedinte, diz Lídia Jorge que «Não é preciso mentir. (...)»
Não será? Na verdade, não sei se não é preciso mesmo; e nós, tal como Lídia Jorge, esperemos que nunca cheguemos a precisar. Mas eu avanço a hipótese de que, provavelmente, sim, é preciso mentir.
Primeiro, porque toda a gente mente, mendigo ou não (ainda por cima, com tantos e tantos a acreditarem piamente nas suas próprias mentiras).
Segundo, porque a verdade não é conhecida por enternecer o coração das pessoas. E isto é ainda mais real, sem dúvida alguma, numa sociedade endurecida por relatos, não só reais como ficcionais, das piores violências que o ser humano é capaz de imaginar.
De qualquer modo, não se tratou aqui desse caso. E foi um choque para Lídia Jorge (e para nós, seus leitores) descobrir que a pedinte falava mesmo verdade.
(...) Espero que o filho da rapariga do Leste, e o filho do seu filho, não sejam excluídos da cidade perfeita. Quando se precisar de um pão, olhar-se para o céu e ele cair no regaço já com manteiga e tudo.
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