sexta-feira, 8 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 6

 


6 ~ O Céu Estrelado

Há pessoas da minha família que são aficionadas da Astronomia e das Ciências do Cosmos. (...)


E, possivelmente, haverá muito mais pessoas aficionadas da Astrologia do que da Astronomia. De certa forma, esta crónica procura explicar este fenómeno - isto é, inclui-o, apesar de nunca o referir explicitamente.


O tema central desta crónica parece-me ser a pequenez do ser humano face à incomensurável dimensão do que o rodeia; e como podemos lidar com isso. 

Essa pequenez sempre existiu, só que antes não o sabíamos. 

Qual a reação de Lídia Jorge perante esta desproporção? Com uma ironia fina, diz:

(40/41) - "A certa altura atiro a toalha ao chão e encosto-me às boxes, recolho ao mundo primitivo de onde provenho." 

E, depois, vai dando exemplos em (41).


Depois, investiga o porquê desta atitude (42).


Lídia Jorge fala um pouco do orgulho do saber, do conhecimento astronómico em particular. E, por oposição, da modéstia do viver no dia a dia com os pés assentes na terra; e com a cabeça encostada «ao poial quente do Verão, e imagino que existe no céu uma estrela que olha pela minha vida como me ensinaram há muitos anos.» (41)

Mais à frente, acrescenta (41-42):

«Sou, pois, uma primitiva a braços com uma memória arcaica e não encontro modo de ultrapassar a minha linguagem feita de irrealidade.

Porque será?»

Lídia Jorge aventa a hipótese de o nosso medo ancestral e primitivo estar na base deste afastamento em relação à racionalidade. Sim, há um medo primitivo que nos leva a procurar conforto e segurança nas pequenas coisas materiais do dia a dia, e não em teorias por mais verdadeiras e maravilhosas que sejam.

Embora esta razão apresentada por Lídia Jorge possa ser de facto a mais profunda (isso já não discutirei), penso que ela não será a principal para explicar uma adesão a um certo primitivismo (primitivismo esse onde entra a Astrologia de que eu falava há pouco, mas que nunca é referida pela autora). 

Na minha opinião, a razão principal é a seguinte e tem duas componentes:

Uma, tem a ver com o conteúdo científico. É-nos atualmente impossível, já nem digo dominar, mas no mínimo perceber a ciência que existe já feita e a fazer-se diariamente. Note-se que, se lhe dedicarmos toda a nossa vida, até poderemos vir a dominar uma ínfima parcela desse saber. Mas isso não está de todo ao alcance da esmagadora maioria das pessoas que, por esse motivo e justificadamente, já desistiram de aceder à ciência atual.

A segunda componente tem a ver com as linguagens científicas que são usadas para fazer e partilhar o conhecimento científico. Essas linguagens estão também elas completamente fora do alcance da esmagadora maioria das pessoas. Não se trata só das próprias palavras que são usadas, cuja complexidade não é possível de abarcar com o recurso a um dicionário (e sem conhecer a respetiva teoria que lhes deu origem). Mas também com a  própria linguagem que é cada vez mais usada em todos os domínios da ciência: a linguagem matemática. Também esta já não é possível de compreender pelo comum das pessoas. Nem, aliás, por muitos dos próprios cientistas, pois vemo-los muitas vezes digladiarem-se a propósito de eventuais erros matemáticos cometidos nas suas respetivas investigações. 

É isto que eu penso que nos afasta irremediavelmente da ciência e nos aproxima de quadros mais simples e acolhedores que pretendem explicar a realidade que nos rodeia.


O que podemos fazer, então, para diminuir aquela desproporção? Inteligência, conhecimento, imaginação e linguagem.


Há que não desistir de enfrentar o mistério (por isso gosto de Vergílio Ferreira quando nos estimula constantemente a olhar de frente o mistério), há que lutar por compreendê-lo e por abarcá-lo, pelo menos. 

Se calhar, recorrendo também ao humor leve que é um apanágio de Lídia Jorge: "aficionadas" (como se fosse tourada), "entre a cesta da roupa e a gaiola", "atiro a toalha ao chão" (40/1), etc. 


(41) O conforto podemos buscá-lo às memórias boas da infância. Mas quem não as tem não acede a esta fonte de apoio emocional. 


(41/2) Porquê esta necessidade de conforto que só é satisfeita com ideias primitivas? Isso é uma boa ideia? Quando devemos lutar contra isso? E como? Conseguimo-lo fazer sozinhos, ou precisamos da ajuda de outros e de estar abertos a críticas à nossa maneira de pensar? 


(42) O peso que o medo exerce sobre nós para nos empurrar para acolhermos de bom grado ideias fantasistas. 


(42 e 43) - Como interpreta LJ as atitudes de Dawkins e de Hawking? Foi isso o que eles disseram mesmo? Penso que LJ interpreta mal as declarações de Dawkins e de Hawking. Eles não rejeitam a fantasia por si, mas sim aquela que nos é oferecida como verdade revelada pelas religiões (e há até cientistas crentes, mas que evitam misturar os campos, defendendo ao mesmo tempo que as leis que procuram descobrir foram criadas por Deus). 


(43) Será que os cientistas só querem explicar o Universo e conhecer as suas leis, rejeitando pensar sobre ele? Penso que os cientistas não excluem as interrogações Porquê e Para Quê, no âmbito da ciência, embora talvez não da filosofia. 


(43)

«(...) Compreendo o deslumbramento que sentem todos aqueles que percebem que estão a aproximar-se da equação que explicará definitivamente a origem de Tudo. Mas a pergunta que se fará depois, com essa fórmula na mão [que, recordemo-lo, a quase totalidade da humanidade será incapaz de compreender], levantada acima da nossa cabeça, será e porquê, e para quê essa criação?»

Concordo.

Vejamos: temos, na nossa neuropsicologia, redes de neurónios que se focam na obtenção da segurança e na busca de recursos. Esta arquitetura do cérebro leva a que o ser humano raramente ou, pelo menos, durante muito pouco tempo, se sinta satisfeito e tranquilo com o que tem. Ou seja, ela faz de nós seres sempre em busca de algo, seres sempre em projeto. 

Ora, por isso mesmo, Lídia Jorge aventa (e, na minha opinião, com razão) que mesmo quando tudo estiver descoberto, tudo estiver explicado, todas as necessidades satisfeitas, mesmo aí surgirá a interrogação que nós encontramos no fim de todos os caminhos: Porquê? Para quê?

Apesar da nossa pequenez, dominaremos num sentido figurativo (como dominamos uma língua) a desproporção esmagadora entre cada um de nós e o Universo pela linguagem humana metafórica, seja a científica ou outra qualquer. Talvez, mais uma vez, valorizando implicitamente a imaginação humana em geral e a literatura em particular. 

E aí entrará mais uma vez a nossa linguagem humana para acedermos a um sentido de tudo o que nos rodeia. É nela que está a nossa esperança de podermos continuar a expandir a nossa humanidade. Acrescento que é por isso que devemos cuidar dessa linguagem, recusando-nos a abastardá-la em usos que conduzam ao seu esvaziamento ou à sua morte lenta.


(...) O que quer dizer que o Universo parece desconhecer-nos encobrindo a sua fórmula, mas nós dominá-lo-emos, enquanto usarmos para defini-lo a nossa linguagem humana.


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