sábado, 9 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 7

 


7 ~ A Seita Unida

Era madrugada alta, no meio do escuro, o telemóvel deu um sinal de mensagem. (...)


O tema desta crónica que me chamou a atenção foi como o peso da vida "externa" contemporânea é capaz de nos envolver em pânico (daí Clarice Lispector desejar, 47, ter alguém que assumisse esse peso por ela). 

E como são os vários mundos da escrita e da leitura (que incluem o mundo digital) que podem aproximar as pessoas, aliviando essa carga de pânico.

Note-se como nesta crónica Lídia Jorge mostra os benefícios do mundo digital para ajudar a aproximar as pessoas. Curiosamente, aqui, todos permanecem nesse mundo, ninguém pega no telefone e fala com a outra pessoa, numa conversa boa face a face. O que causa alguma estranheza, sabendo nós como Lídia Jorge nos alerta para os perigos (reais, diga-se de passagem) desse mundo.


(45) Como o capitalismo selvagem e consumista invade a nossa vida privada. E quando esses anúncios nos chegam, tentando vender produtos que pensámos recentemente em comprar, então ficamos com medo: o que sabem "eles" de nós? E como conseguiram sabê-lo?


(46) «(...) Porque teria dito Juan José Millás que ser escritor é viver rodeado de pânico? (...)»

Experimentemos interpretar literalmente este autor.

Estas linhas foram escritas antes da pandemia de Covid-19. Hoje, o seu sentido seria mais claro ainda. Mas já antes disso havia muitos sinais desse pânico por toda a parte. Por outras palavras, não são só os escritores a viverem rodeados de pânico. Atrevermo-nos a ser humanos, hoje, é vivermos rodeados de pânico.

Nem é preciso pensar só nos políticos que defendem e instituem realidades cada vez mais hostis para os mais fracos (e, hoje, a esmagadora maioria das pessoas pertence ao número dos mais fracos). Aliás, pergunto-me se as pessoas que votaram nestes líderes não se sentem também elas rodeadas de pânico; e recorrem à raiva e ao ódio contra os outros para sacudirem esse medo (que, no entanto, nunca as largará e até aumentará). 

Nem é preciso pensar nas pessoas que, nas redes sociais, dão vazão àquele medo, sendo cada vez mais e mais agressivas para os outros, contribuindo (saberão que o estão a fazer?) para o espessar desse clima de pânico que nos rodeia.

Por exemplo, eu, que já nada espero dos políticos, que não me envolvo nas redes sociais, quanto mais vivo em lugares onde a área construída e betumizada excede em milhares de vezes as áreas arborizadas e relvadas, mais sinto o pânico a encerrar-me num espaço vazio onde a minha respiração se torna cada vez mais opressiva e difícil.

Não, não são só os escritores a sentirem-se rodeados por esse pânico.

Vamos um pouco além do círculo da nossa vida estritamente pessoal. Pensemos, por um momento, sobre o que representa ser mulher ou negro ou cigano ou judeu ou homossexual hoje. Principalmente, se tiver filhos. Não estarão estas pessoas hoje em dia cercadas de pânico? É que não foi há muito tempo que pertencer a um destes grupos representava uma sentença de morte para si e para os seus filhos. Nós, os brancos caucasianos e cristãos até à n-ésima geração, podemos esquecer isto. Eles não podem permitir-se a esse luxo.

Acrescentaria que alguém que se atreva a ser humano, hoje, terá infelizmente de viver rodeado de pânico.


(46) É uma pergunta interessante, a de que a realidade trazida até nós pela Ciência, Política, Justiça, Arte, Pobreza, Riqueza, Indiferença e até a Caridade é que contribui para nos rodear de pânico. Porquê?

Porquê a Ciência? Pelos instrumentos cada vez mais poderosos que vai pondo à disposição daqueles que já são os mais poderosos do mundo, a fim de poderem mais eficazmente perseguir os seus próprios interesses egoístas sacrificando a maioria da humanidade?

Porquê a Política? É preciso perguntar? Depois de os políticos, hoje em dia, se mostrarem cada vez mais indiferentes à sorte das pessoas reais, em prol de interesses mundanos ou abstratos que são de uma utilidade nula para essas pessoas?

Porquê a Justiça? Por causa da falência em conseguir que os mais poderosos obedeçam à lei e, não o fazendo, que sejam obrigados a reparar o mal feito?

Porquê a Arte? Porque ela (talvez como espelho incómodo da nossa sociedade) cada vez mais nos inquieta, nos faz sentir ignorantes e incapazes, e nos transmite uma imagem de violência e de destruição?

Porquê a Pobreza? Não só ela em si, afetando profundamente milhares e milhares de pessoas (mais fortemente as crianças, as menos responsáveis de todas), mas pela falta de vontade política e económica de resolver esse problema? Optando apenas por uma assistência social magra que alivia, é certo, mas que é uma opção que também contribui para perpetuar essa mesma pobreza? Porque estamos a criar e a alimentar a fúria de milhões de pobres?

Porquê a Riqueza? Porque ela é conseguida à custa do sofrimento de milhões de pessoas? Porque ela é egoísta e não retribui os benefícios que recolhe? Porque contribui para destruir não só pessoas, como o próprio planeta?

Porquê a Indiferença? Nem é preciso responder, quase. Não sabemos todos como a indiferença é a pior resposta que podemos receber dos outros? Porque através dela é a nossa própria existência que é ignorada e, portanto, negada? Abrindo caminho para toda a destruição de que o ser humano é capaz de infligir ao seu semelhante?

Porquê a Caridade? Porque há pessoas para quem o conceito de caridade é de rejeitar totalmente? O que serão essas pessoas capazes de fazer(-nos)? Porque há caridade construtiva, mas há também aquela que é destrutiva, aquela que é dada ao preço da indignidade e da desumanização?


(46) «(…) este vício de inventar fábulas que oferecemos aos que gostam de ler histórias inventadas, e de que agora cada vez menos gente gosta? (…)»

Na minha opinião, o ser humano, em qualquer idade, sempre gostou, gosta e gostará de histórias inventadas. Pois são elas que dão e acrescentam sentido à sua vida e ao mundo que o rodeia. Um mundo onde o excesso de informação a que estamos submetidos rouba ou corrói aquele sentido.

Na realidade, a Internet exacerbou essa paixão por essas e outras histórias – como se pode ver pelo fascínio crescente pelas teorias da conspiração. A verdade é que há muita gente agora que se sente atraída por histórias inventadas (absurdas) como nunca antes. E ISSO faz-me sentir não só rodeado mas invadido de pânico! 

Por outro lado, se admitirmos que as pessoas gostam cada vez menos das histórias inventadas pelos artistas, poderemos interrogar-nos se não haverá também cada vez menos escritores que, com amor pela língua, com devoção, seriedade e honestidade, sejam capazes de escrever boas histórias - que não contribuam para o pânico nem para a destruição de sentido?

É que eu acredito que gostamos de histórias inventadas porque as reais são demasiado brutais e violentas e assustadoras. O que me faz pensar sobre que realidade horrorosa que eu não imagino (até porque fugi de parte dela há uns anos) está a ocorrer hoje em dia que facilita o facto de as pessoas até gostarem das histórias violentas e de terror - vejam-se as séries e filmes desse tipo que são dominantes nas preferências das pessoas.


(46) Já mostrei que sou Juan José Millás. Aqui, sou também Rui Zink, eu também leio os livros de Lídia Jorge. (47) Serei também Clarice Lispector? Na verdade, numa sociedade tão invencivelmente complexa como a de hoje, quem se pode dar ao luxo de não ser? Realmente, só quem já tem uma governanta-secretária...


(47) Lídia Jorge, ao escolher citar Ignacio de Loyola  Brandão, põe os "bandoleiros que assaltaram os cofres do Estado e as empresas públicas ao longo de anos" como fonte do nosso pânico. Quem são eles? São facilmente identificados: à cabeça dessa mafia, sem dúvida, os políticos e os banqueiros. Que partilham essa característica comum de nunca serem responsabilizados pelas decisões que tomaram e que foram destrutivas para milhares e milhares de pessoas. 


(48/49) Interpretar as palavras de Clarice, o que ela terá querido dizer. Momentos são bons, embora imperfeitos. E são tão poucos! É por isso que a nossa vida não pode apoiar-se apenas nesses momentos, precisa de algo mais. De quê? Eu diria que, da minha parte, uma certa humildade para aceitar o que a vida me oferece, sem deixar de lutar pelo que a vida me pode oferecer realisticamente. Sim, porque já Clarice o diz logo no início: "Meu Deus, como o mundo sempre foi vasto (...)" - vasto nomeadamente no que tem para oferecer...


(49) O último parágrafo desta crónica (abaixo transcrita) constitui um dos trechos deste livro que mais me comoveu. 

Lídia Jorge fala-nos da seita dos que, rodeados de pânico, estão a ler este e outros livros. Porque estimular a imaginação é importante, para sermos capazes de pensar num mundo alternativo a este. 

Além disso, todos juntos sentiremos a perda mais como experiência, e o pânico como campainha que nos acorda para os outros (tal como a LJ naquela manhã)

É uma seita que procura a beleza simplesmente porque ela conforta. Porquê? Porque tem em si uma vasta e imperecível promessa de perfeição e de paz.


Muitas vezes me refiro a seita como a comunidade de escritores, editores, livreiros e leitores que teima em manter os livros no lugar dos livros, como artefactos da imaginação imprescindíveis à nossa sobrevivência. Uma seita que se estreita e se alarga, conforme a nossa crença na causa, e o esforço que fazemos por ela. Mas hoje, eu sei que a seita tem ainda uma outra dimensão, a de nos ampararmos uns aos outros, para sentirmos a perda não como perda mas como experiência, e o pânico, não como pânico mas como campainha. E a beleza como supremo conforto. Foi o que disseram naquela manhã, Pilar del Rio, Juan José Millás, Rui Zink, Elisabete Abrantes, Ignácio de Loyola Brandão, Clarice Lispector e seu cão Ulisses.


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