sexta-feira, 15 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 8

 

(O corpo do menino refugiado sírio Aylan Kurdi, de três anos, na costa da Turquia, em 2 de setembro de 2015)


8 ~ O Lobo de Tróia

Na tarde do dia 29 do mês de Janeiro, começava a nevar sobre Paris. (...)


(51/2) «(…) Em política, a estupidez não é um handicap.»

Eu começaria por dizer que é ao contrário: É impossível a estupidez ser um defeito ou uma desvantagem, qualquer que seja a área de negócios humanos que se considere. Porque a estupidez é uma inevitabilidade. Há livros sobre isso: Why Smart People Can Be So Stupid, de Robert J. Sternberg; The Intelligence Trap: Why Smart People Make Dumb Mistakes, de David Robson; Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman; e o saudoso e nunca esquecido Princípio de Peter, de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Mas nem precisaríamos destes livros para esbarrarmos continuamente com a estupidez nas nossas vidas. Note-se que estas “estupidezes” se referem tanto às dos outros como às nossas: na verdade, somos também (enquanto humanos, não podemos deixar de ser) contribuintes líquidos para este rico manancial.

Claro que o facto de a estupidez não ser um handicap, depende de para quem. Para o que quer ser político, talvez não seja; desde que não tenha ambições de se tornar num grande líder ou no líder máximo, já que para isso é preciso ter alguma inteligência prática (moralmente bem ou mal dirigida, isso já interessa menos). Mas para quem é alvo das políticas da estupidez, esta torna-se uma limitação grave para muitas coisas na vida, tornando-se até infelizmente uma tragédia a maior parte das vezes.


(53) «(…) pensei que essa região paradoxal que faz da Literatura um campo de reclamação do entendimento e da paz, (…)» Habitualmente, sim, os escritores não estão presos a uma geografia. Felizmente.


(53) «(…) Sou um europeu patriota. Porque o patriotismo está para o nacionalismo como a dignidade está para a barbárie. (…)» (Roger Cohen). 

note-se que uma sociedade que valoriza a competição, e a ensina às crianças desde pequenas, favorece o florescimento do nacionalismo.

Saliente-se também que a barbárie corresponde a um estado de quem é rude, grosseiro ou violento. Está certo. Embora eu ache que o oposto de dignidade seja degradação. É mais assim, degradados, que eu vejo muitos políticos e outros poderosos que se descomprometem com a dignidade (muitas vezes, porque acreditam genuinamente que ela pode ser mercadejada).

Todos estes conceitos, patriotismo, nacionalismo, dignidade, são conceitos que apenas se conseguem definir com alguma dificuldade. Mas, pior é tentar traduzi-los em práticas concretas (não só em termos de conteúdo, mas também em termos da forma que esse conteúdo vai tomar). Nestes territórios, a nossa visão não é clara. E, muitas vezes, navegamos à vista, somente orientados pelos nossos valores (se os tivermos).


(55) «(…) esta é a melhor imagem da identidade da Europa. Um rosto luminoso (…), e um outro rosto, obscuro, (…)» 

A Europa é um Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Qual deles ganhará? É certo que, no final, mesmo final de todos os tempos, perderemos todos. Enquanto isso não acontece, gostaria que a Europa estivesse em modo de Dr. Jekyll. Receio, porém, que estejamos a transformar-nos em Mr. Hyde. 

E, por isso, para já, estamos a perder (quase) todos.

O ser humano é o único habitante deste planeta que destrói a Natureza e mata os da sua espécie de forma planeada, organizada e em grandes números. Representará isto a sua essência? Acredito que não; ou então Darwin estava errado e os criacionistas é que estão certos ao defenderem que nós, humanos, somos construídos à imagem de Deus.

Por isso, quando se afirma que o homem é um animal entre outros animais, em vez de interpretarmos isto como uma degradação, podemos entendê-lo como uma afirmação de esperança e, no limite, até de elogio ao homem. Embora, como Lídia Jorge refere em 29 ~ O Novo Bestiário, tal afirmação possa ser utilizada de forma destrutiva e violenta para o ser humano.

Finalmente, voltando aos políticos e outros poderosos. Note-se como, no nosso imaginário, um lobo é muito mais perigoso do que um cavalo - por isso, Lídia Jorge usa a expressão "Lobo de Tróia" para referir determinados políticos.

Já agora, sobre estes, pergunto-me se a maior parte deles não constitui um tipo de humanidade à parte, sem princípios, sem lealdade (a não ser com os que estão acima deles e, mesmo assim, nem sempre), e sem afetos genuínos (daí não procurarem o encerramento das fábricas de armamento; ou, nos Estados Unidos, a proibição da venda livre de armas que tanto tem contribuído para sucessivos massacres de crianças; ou, no ocidente, procurarem travar o genocídio do povo palestiniano por Israel). Não tenho resposta para esta minha interrogação.


(56) Talvez seja isto que dá à Europa este rosto dual, qual deus Jano: de um lado, o bom até ao sublime; de outro, o mau até ao horrendo. O que faz Lídia Jorge terminar com um certo sarcasmo, mesmo quando a estupidez tem resultados desastrosos:


(...) Em política, desde que haja ambição e poder que a suporte, não existe stupidity.

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