10 ~ Diante da Chuva
Quatro, cinco vezes em cada ano, chove na casa do bosque. (...)
(67) «(…) Não pensamos mais de onde ela vem nem para onde vai, não a vemos, não a sentimos. Ter água deixou de ser dádiva, passou a ser instrumento. (…)»
Quantas coisas verdadeiramente preciosas (como a água) deixei/deixámos de “ver”? quantas fontes de bem-estar e de alegria desprezamos no nosso dia a dia neste mundo de abundância que presumimos que vá existir para sempre?
(68) «Todas as águas, uma só água, milhares de formas de vida, só uma fonte de vida. (…)»
Lídia Jorge leva-nos a sentir como há forças no nosso planeta que nos ligam uns aos outros de forma indissolúvel. Forças todas ligadas à vida. Forças que, enfraquecidas, serão causa da nossa morte ou, pelo menos, do nosso sofrimento.
(68) «(…) Não será o volume da água que estará em causa, será a sua distribuição. Lugares da Terra férteis poderão ficar estéreis, e os estéreis poderão ser inundados de forma inesperada, as zonas ribeirinhas das cidades poderão perder a sua configuração, e essa mudança custará vidas, deslocações, pânicos, tumultos pré-históricos nos tempos históricos futuros. O que posso eu fazer, enquanto ouço chover, quatro, cinco vezes, por ano?
Não posso mudar os rios, não posso mudar os mares, não posso enviar recados às nuvens. Não posso nada, mas acredito no poder de certos actos de cerimónia. Julgo que se não deitar fora a água da cozinha, e com ela regar as plantas que estão no jardim, que ajudarei a manter um equilíbrio remoto, um papel tão mínimo quanto o de um grão de areia na consistência das nuvens. Ainda assim, hei-de fazê-lo, hei-de respeitar a água, (…)»
Será esta a resposta à minha interrogação geral e inicial sobre o que posso fazer para mudar o mundo atual, violento e egoísta, a que me oponho? Uma resposta é, sem dúvida. Mas a minha questão nunca deixa de estar de pé por causa da eficácia insuficiente do que seja o que for que eu faça individualmente.
Mudar o mundo é mudar as pessoas que o habitam, é tentar mudar principalmente as pessoas com poder para o mudar.
Sei que a mudança é muito difícil; e convencer os outros a mudarem, mais difícil é ainda. Por isso, entendo que a compreensão do outro e a empatia são essenciais como primeiros passos para convencer. Porque hostilizar o outro, atacando-o não só a sua pessoa, mas também as suas ideias e a sua sensibilidade, só servirá para criar ainda mais resistências à mudança. Devemos ter sempre presente que o nosso objetivo não é vencer o outro, porque aí obtemos um adversário; mas, sim, convencê-lo para, dessa maneira, ganhamos um aliado.
Portanto, primeiro ouvir. Depois, compreender (nesta fase, ainda não fazemos afirmações, apenas perguntamos para ter a certeza de que entendemos plenamente a outra pessoa – “Por que razão fazes tu isto assim?”… É que há quase sempre uma razão que nós não imaginamos). A seguir, mostrar empatia (ou seja, mostrando que também nós partilhamos, se não for de mais nada, pelo menos da mesma humanidade). Só depois disto, poderemos começar a esboçar a nossa posição, tendo o cuidado de monitorizarmos se estamos a ser compreendidos e se estamos a convencer, sem querermos ganhar a discussão ou arrasar a pessoa com argumentos – e a melhor maneira de fazer isto é expressarmos a nossa posição por meio de perguntas: “O que achas da seguinte maneira de fazer...?” E ouvir a resposta.
E, depois, não esquecer a vertente política da minha ação. Porque é a política que pode levar a mudanças de fundo. Aliás, são os políticos que os poderosos procuram influenciar primordialmente. Sim, também procuram influenciar as pessoas comuns, mas com a finalidade de estas pressionarem os políticos no sentido do seu interesse particular e, muitas vezes, sinistro. Portanto, a política: não há maneira de lhe fugir. Pior: se optarmos por a ignorar, ela far-se-á sentir na nossa vida de forma incomensuravelmente mais violenta. Além de, claro, tornar todos os nossos outros esforços quase totalmente irrisórios.
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