16 ~ A Ópera das Crianças.
Aconteceu num país nórdico. (…)
Porque é a vida no seu todo que está aqui em jogo. Diz Lídia Jorge (105) que «foi a Humanidade que o executou», ao Holocausto. Ora, a Humanidade sou também eu. Interrogo-me: que barbaridades estarei a executar neste período da minha vida (talvez sem a consciência de o fazer, tal como acredito que aconteceu na altura a muitos alemães)?
Como é possível ainda escrever sobre esta tragédia abominável do séc. XX de forma diferente, marcante, comovente e sábia? Não o sei, mas Lídia Jorge conseguiu-o, sem dúvida.
Vivemos num mundo de violência e de abusos de poder, de narcisismo e de condenação sistemática das vítimas (coisa esta que me repugna sobremaneira), de ganância e de desconfiança mútua, onde todas estas forças nos lançam para o meio de um imenso deserto. Um mundo ao qual me oponho, mas em que sinto que me faltam os meios para ter algum impacto efetivo. E então fica aqui a minha questão: o que posso, o que podemos então todos fazer?
Nesta crónica, Lídia Jorge sugere implicitamente que é com as crianças que podemos construir bases sólidas para que a tragédia não se repita. Trata-se de saber como fazer as crianças (futuros adultos) participar desse valor supremo da vida, mas vivida com dignidade e que inclua todos. Sugere também que isso passará pelo conhecimento da história (ou seja, cultivando a memória e rejeitando a abstração assassina). Absolutamente de acordo.
Mas duvido que chegue, se não procurarmos mudar a forma como as crianças são educadas, no seio das suas famílias ou de outros cuidadores. Crianças maltratadas serão mais provavelmente adultos cuja primeira resposta aos desafios da vida será a violência. Porém, só conseguiremos mudar a forma de educar as crianças (se o quisermos fazer de forma intencional e mais rápida do que o movimento natural, mas errático, da sociedade) se procurarmos mudar os pais e restantes cuidadores a esse respeito. E tanto que eles sentem necessidade de uma ajuda!
Nas sociedades mais antigas, que faziam exigências reduzidas às pessoas (reduzidas, mas não menos violentas, claro), educar crianças era algo de relativamente simples. Hoje em dia, em que essas exigências são muito maiores e muito mais complexas, educar tornou-se algo também muito mais complicado.
Quando pensamos em educação, pensamos em escola. Aliás, esta crónica fala de professores, não fala de pais. Teria preferido que todo este episódio relatado por Lídia Jorge tivesse como protagonistas ou só os pais ou também os pais. Porque a escola não pode fazer muito. Tudo o que ela ensina às crianças vem sobre o que lhes foi inculcado na mais tenra infância. Raramente se lhe sobrepõe, principalmente quando envolve aspetos emocionais perturbadores.
Por isso, mais do que um trabalho sobre as crianças, parece-me muito mais urgente e importante um trabalho com os pais. Provavelmente, eles agradecerão. No entanto, surpreendentemente, este tema, no fundo o da educação de pais, é um tema tabu na nossa sociedade. Não percebo bem porquê. Talvez por um respeito pela autonomia da família? Mas que autonomia pode existir baseada na ignorância?
Costumo fazer uma comparação com a condução de automóveis. Antigamente, em que o trânsito era reduzido (por isso, as regras eram poucas e simples), os carros tinham uma tecnologia básica, e a condução era algo que se aprendia com facilidade, toda a gente podia conduzir sem ter que realizar uma aprendizagem formal. No entanto, quando as características do tráfego se começaram a complicar, o número de veículos na estrada a aumentar e as exigências de uma boa condução se avolumaram, passou a ser necessária uma aprendizagem formal, acompanhada de uma certificação das competências para conduzir. Ninguém, aliás, questiona a necessidade disto, hoje em dia.
Não peço tanto para a educação de pais. Apenas acho absolutamente necessário que se lhes proporcione o conhecimento científico de vários estilos de educar e das suas consequências. Não peço a certificação das suas competências para ter filhos e para os educar. Mas, entretanto, com aquele conhecimento, os pais seriam absolutamente livres de decidir por si próprios como educar os seus filhos. Todavia, seria uma decisão informada, ao contrário do que acontece agora.
Nessa educação de pais, acho que se devia acrescentar à Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento e da Aprendizagem o conhecimento novo de uma área muito recente da ciência (que eu tenho procurado divulgar nas minhas aulas e palestras): as aplicações da Neuropsicologia da Regulação Emocional – que permitiriam gerir com êxito experiências emocionais elementares/primárias através de competências de regulação de um espetro alargado de processos e que influenciariam como estes são experienciados e exprimidos.
Se não for por mais nada, porque precisamos muito de metáforas novas e mais eficazes, fruto da evolução recente e extraordinária do conhecimento científico sobre o ser humano. Um conhecimento que ajuda a perceber como o ser humano constrói estas calamidades com as suas próprias mãos; e que, principalmente, ajuda significativamente a saber como evitar repeti-las.
Termino esta já longa conversa com um retrato que Lídia Jorge faz das crianças. Um retrato muito exato, na minha opinião. Diz Lídia Jorge (105):
(…) Mas será que as crianças de nove anos têm capacidade para perceber o que significa redenção e resgate? Creio que sim. As crianças têm um conhecimento baseado em sentimentos primordiais, a sua lógica é do domínio do puro afectivo. Conhecem o circuito do esforço e da recompensa, da perda e da recuperação, do acto prejudicial e do castigo, da dor e da superação. A alegria e o medo. Podem não dispor do vocabulário adequado para cada acto, podem não os distinguir, sobretudo na dimensão da sua complexidade, cambiantes e variáveis, mas detêm uma gramática de afectos apurada, feita de avaliações puras porque dramáticas. Os sentimentos das crianças revelam-se por drama e em si são drama.
Repare-se que Lídia Jorge não diz que as crianças têm capacidade para tomar as melhores decisões. Porque estas só podem advir da experiência e do conhecimento que elas ainda são muito novas para os terem adquirido. Mas no âmbito estritamente emocional, acrescento que não há diferenças em relação aos adultos. E, no âmbito cognitivo, estão a caminho de se tornarem como os adultos. Sim, este é um retrato bastante preciso da infância. Sobre o qual não deveríamos todos refletir? Nomeadamente, interrogando-nos se procedemos com as crianças de harmonia com estes pressupostos. Mais uma vez, a fim de diminuir a probabilidade de elas se tornarem adultos zangados que espalham destruição à sua volta…
(…) É bom que, em muitas praias, as crianças se juntem representando Brundibár e, no final, queimem as tábuas e dancem, em sinal de que, por suas mãos, conhecendo a História, aquilo não mais irá acontecer.