sábado, 24 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 23

 


23 ~ Fala Diante do Mar

Escrevo estas palavras para serem lidas em voz alta, diante do mar, quando a manhã ainda não rompeu, pois só agora as águas começam a emergir do arroxeado da noite. (…)


Esta crónica é tão bonita que sinto relutância em lhe acrescentar o que quer que seja. Creio que é porque não vemos aqui apenas a memória tornada poesia; ao invés, podemos sentir a evocação transformada em arte.

No entanto, para cada uma das crónicas deste livro, comprometi-me a escrever “Sim, e…”. É esse pacto que vou honrar, sob a forma de apontamentos muito curtos, a fim de a beleza deste texto poder continuar a respirar livremente.


Lídia Jorge concretiza aqui um exemplo da ideia dominante sobre como as crianças deviam ser educadas. Na verdade, achava-se que não havia educação que prestasse, se não houvesse imposição e sofrimento. Será injusto afirmar que, ainda hoje, esta visão domina largos setores da nossa sociedade? Talvez apenas no que se refere às crianças e jovens, porque, na educação de adultos, a opinião já não será bem a mesma. 

Mas, desde sempre, houve vozes mais lúcidas e, sem querer ofender ninguém, mais humanas. Em total consonância, partilho aqui o excerto de uma publicação da escritora Isabel Rio Novo, de hoje, 24/09/2022, no Facebook (a foto que encima esta crónica é retirada dessa mesma publicação):

(…)

Por vezes, pelo meio, um momento em que parece caber tudo. Como quando, ao permitir-me estender a leitura de um livro antigo para além do que é estritamente necessário para aqueloutro que estou a escrever, encontro reflexões que parecem simultaneamente dirigidas à mãe, à professora, à investigadora que também sou. Reflexões que me fazem descobrir que sempre houve vozes sensatas. Que na nossa época não inventamos nada. Que este Alexandre de Gusmão, tivesse ele vivido uns séculos mais tarde, poderia estar, daqui a nada, a comentar esta publicação.

Aqui vão, então, duas reflexões tiradas deste livro a desfazer-se:


“…tende cuidado em primeiro lugar, que os meninos não aborreçam o estudo, para que não passe aos anos maiores a pouca vontade de estudar.”


“Fazei com que os meninos amem o que lhe ensinam, e que lhes não seja o estudo trabalho, senão recreação; não força, senão delícia; e é assim, porque se desde meninos se não afeiçoarem ao estudo daquela arte, a que os aplicam, nunca sairão nela perfeitos.”

(…)


Procurando ser breve, gostaria de chamar a atenção para o facto de o nosso cérebro não esquecer o que de mau ou de perigoso ou de simplesmente assustador lhe acontece. Para além da memória que fica gravada para sempre, associa-se-lhe todo um movimento interior tendente a nunca mais deixar que aconteça o mesmo à pessoa - é que, para o cérebro, o que está em jogo é a sua sobrevivência. Isto aplica-se a qualquer experiência sentida como profundamente negativa (mesmo quando ela objetivamente não o é).


(…) Um dia, daqui a muitos anos, estes que vêm sentados no coche real que são as costas do seu pai, hão-de contá-lo.


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 22

 


22 ~ A Fragrância das Coisas

Num célebre filme de Alfred Hitchcock, A Corda, produção de 1948, uma personagem, referindo-se à oportunidade de certos livros, proferia uma curiosa sentença sobre as obras de Filosofia – livros de letras miudinhas, muitas páginas, poucas vendas. (...)


Poucas vendas? Não será também porque, às vezes, os editores não sabem publicitar algumas dessas obras? Vejamos o exemplo de Platão.

Ele escreveu livros relativamente curtos, que nos fazem refletir e nos ajudam a dar um sentido à vida; livros divertidos, alguns até de um excelente humor (veja-se Eutidemo); com enorme suspense, quase como se fossem policiais; e genericamente muito bem escritos. 

Sim, Platão era um escritor de elevadíssima qualidade literária; nem precisarmos de referir a sua qualidade filosófica. No entanto, isto foi algo que eu tive de descobrir por mim próprio (com a ajuda d'A Senhora Sócrates), pois nunca ninguém me anunciou os seus livros nestes termos… mas foi exatamente isto que referi atrás que eu encontrei na sua leitura!


Já aludi, no comentário à crónica anterior, como o medo tem vindo a ser estimulado na nossa sociedade. Lídia Jorge, citando o filósofo Byung-Chul Han, menciona como isso leva a que os seres humanos se sintam sempre em perigo, fazendo com que se aproximem de estados primitivos, ou mesmo animais (com a maior parte dos humanos, essa situação é uma constante). Com a agravante de os animais não imaginarem nem anteciparem cenários futuros perigosos, ao contrário dos seres humanos. Que consequências isto traz?

Como hipótese, adianto várias, que já ganharam uma enorme visibilidade, mas cuja origem ainda não foi reconhecida: um surto nunca antes visto de doenças mentais, uma diminuição acentuada dos sentimentos de bem-estar, um aumento exponencial da solidão (e das respetivas consequências para a saúde física e mental), uma raiva que já começa a transbordar para o espaço público de uma forma inquietante, enquanto vai inundando insidiosa e tristemente o espaço privado, etc. Como diz Lídia Jorge (e eu concordo totalmente):

(…) Cada um de nós transformou-se num para-raios onde desferem a cada instante solicitações que nos surgem como ameaças de usurpação do nosso tempo restrito e do nosso pequeno espólio. (…) Estamos a funcionar num tempo que não é o nosso tempo, hiperactivos, num tempo que desliza para o estado de desconfiança do selvagem, sem tempo para a atenção profunda que a contemplação das coisas e dos outros exige. (141 e 142)

Sim, a atenção, o cuidado, o conforto em relação aos outros exige tempo. Para os mais economicistas e defensores da eficácia, lembro que também a competência exige tempo. Por isso, nunca consigo deixar de me surpreender quando oiço que os sindicatos vão iniciar uma nova luta por aumentos salariais. Não que estes não sejam importantes, mas não será o roubo que está a ser feito ao tempo de cada um de nós tão dramaticamente pernicioso como o roubo feito aos nossos bolsos?


(…) ainda queremos cumprir a cerimónia de olhar para quem está à nossa frente, desarmados, para anunciarmos aos outros que não constituímos um perigo. Eu já sabia que era assim, mas não o saberia dizer. Ler A Sociedade do Cansaço, mesmo que seja numa noite escura, ajuda-nos a ver mais claro.


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 21

 

(Nitra Art, Lies, Smell Like Cheese, 2019)


21 ~ Aurora e a Mentira

Grande tema é a mentira, e dele não nos podemos arredar sob pena de não entendermos nada deste mundo. Se fosse votado o termo que melhor caracteriza este início de século, por certo que a palavra ganhadora seria mentira. (...)


Também creio que, pelo menos no espaço público, esta seria a palavra ganhadora. Mas, sê-lo-ia na esfera privada?

Mal volto o meu pensamento para o início deste século, a memória traz-me de imediato a eleição de George W. Bush nos E.U.A., seguida do ataque às Torres Gémeas. Também a ida de Durão Barroso para a chefia do governo. Mas, principalmente, José Sócrates que chega ao poder com toda a sua carga autoritária, de ataque às classes que ele considerava privilegiadas (que incluíam até, por exemplo, os professores do 1º ciclo) e de manipulação dos meios de comunicação social (para, entre outras coisas, as suas campanhas contra essas classes).

Ao mesmo tempo, em 2007, surge a notícia da crise financeira mundial, cujos efeitos terríveis se estenderam pelos anos seguintes. Depois, as notícias cada vez mais alarmantes, relacionadas com o nosso futuro no planeta, por causa do Aquecimento Global; a ensombrar as perspetivas de futuro, senão mesmo a roubá-las, a nós e às gerações mais novas. E, recentemente, o aparecimento da pandemia da Covid-19 (note-se que estas crónicas são anteriores a este evento).

Tudo isto tem, como pano de fundo, a generalização a todos os estratos profissionais de uma avaliação competitiva que nos leva a desconfiar do próximo, a estar num permanente estado de luta, e a perder a esperança de qualquer conforto vindo da parte dos pares. tudo isto concebido e aplicado por políticos e patrões que desejam dividir para melhor reinar.

Sim, para mim, a um nível pessoal e privado, eu votaria sem dúvida nenhuma na palavra medo. Que, agora, mais ainda com a atual guerra na Ucrânia (iniciada pela Rússia a Fevereiro de 2022), não dá mostras de poder perder a sua força devastadora.


Mal comecei a ler esta crónica (que classifico à vontade de interessante, original, multifacetada e estimulante), veio-me de imediato o pensamento: mas não mente toda a gente? Aos outros e a si próprios? Não deverá ser este um dado de partida a ter em conta?

É que, então, dizer a verdade tem de ser uma luta constante para a nossa tendência para a mentira. Porquê tendência? Porque, genericamente, a mentira simplifica, e nós tendemos a seguir a lei do menor esforço. A verdade é quase sempre complexa, apresenta muitos matizes, e muitas vezes não é única; dado que a realidade tem infinitos elementos que podem ser observados de muitos pontos de vista, tanto no sentido real como figurado.


Além de que temos de considerar a 

mentira enquanto invenção que acrescenta alguma coisa à realidade apenas para servir de diversão. Deixem, pelo menos de vez em quando, que a palavra mentira permaneça no seu grau simbólico de alteração gratuita da realidade. É dessa mentira que eu gosto, é dessa que é feita a Literatura e a Arte. (…) (132)

Será que podemos associar sem perigo o trabalho da imaginação ao conceito de mentira? Lídia Jorge nesta crónica fá-lo para um certo tipo de mentira, dando aliás dois exemplos reais… divertidos ou sérios? Talvez divertidos e sérios.

Portanto, a mentira limitada a certos contextos será decerto uma coisa boa. Por exemplo, quando ela é uma simples invenção. Mas creio que nunca quando é uma adulteração da verdade real, com intuitos manipulatórios para obter ganhos pessoais (provocando consequentes perdas nos outros).


(…) tudo isto para dizer que comecei a criar cedo a minha teoria sobre a mentira, mas ainda estou a apurá-la, ainda vou a meio caminho, não posso discorrer sobre a matéria em meios circunspectos, onde as pessoas gostam de ouvir falar da mentira segundo Platão, Aristóteles, Trump, Erdogan, Putin e Santo Agostinho.

(Pessoas possivelmente como eu próprio revelei ser, neste comentário que aqui termino um pouco embaraçado.)


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 20

 

(foto tirada daqui)


20 ~ Definição de Europa

Há poucos dias encontrei-me no Centro Cultural de Belém com Augustin Trapenard, o autor do programa Boomerang da France Inter. Augustin tinha-me pedido que escrevesse dois parágrafos sobre a Europa. (…)


(…) Não há resposta mas há pergunta – Como é possível que aqueles mesmos que criam a Beleza não sejam capazes de criar a Paz? (125)

Boa pergunta. Pensemos, então, ao nível a que Lídia Jorge se refere, ao do continente europeu.

Talvez porque não são os mesmos, os que desejam criar Beleza e os que querem criar a Paz? 

Ou porque, para criar a Paz, é preciso exercer Poder, algo que não é necessário para criar a Beleza? E, naturalmente, porque, para os que têm Poder, a Paz não está no topo das suas prioridades? Não esqueçamos que a história da Europa é preenchida por guerras quase permanentes: (…), a Europa da batalha interminável, (126).

Ou porque muitos que dizem querer criar a Paz acham que o devem fazer desenvolvendo todo um conjunto de estratégias de carácter marcadamente bélico?

Ou ainda porque para alguns criadores não existe incompatibilidade entre Beleza e violência ou guerra?


Pessoalmente, não vejo diferença entre a noção de Europa e a de país; ou melhor, entre a noção de União Europeia e a de Portugal. Ambas são puras abstrações sem uma ter mais realidade palpável e concreta do que a outra. Mas a verdade é que a primeira se me revela muito mais estimulante. 

Talvez porque tenha vivido muitos anos (demasiados!) num país fechado, autoritário e atrasado em tudo o que é importante e interessante. A ideia de poder voltar a isso é-me totalmente insuportável. Por outro lado, a possibilidade de partilha direta e aberta da riqueza espiritual das nações europeias (através de uma maior proximidade entre as pessoas e da liberdade de circulação) e a perspetiva de não viver sempre com medo das suas agressões devo confessar que me entusiasma para além do que me é possível dizer.


Volto à questão da pertença. Quando há distinção nas sensações de pertença, isso refere-se primeiramente a pessoas ou a grupos de pessoas concretos, não a abstrações. O que é isso de pertencer a um país ou a uma pátria, para além de uma fantasia? Por mim, não me revejo nesse sentimento de pertença.

Além disso, tenho a suspeita de que aqueles que desejam mais pertencer a coisas pequeninas (países) do que pertencer a coisas grandes (Europa) não podem deixar eles próprios de ser pequeninos. O que não tem mal, já que nem todos partimos do mesmo patamar na vida. O que aflige é quererem continuar a ser pequeninos, não desejarem a grandeza, o largo, o horizonte – porque eu digo com José Régio (Cântico Negro):

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,


Eu pertenço a uma cultura que é muito mais do que a portuguesa. Como me é possível pensar que não me pertence ou que eu não pertenço ao monumento Acrópole, ao quadro Guernica, ao livro Os Irmãos Karamazov (sim, para mim, a Rússia é europeia, por mais que os políticos queiram que não), à Sinfonia nº 9 de Beethoven, à peça de teatro Hamlet - para citar apenas alguns “lugares” que mais do que eu viver neles, são eles que vivem em mim?


Em conclusão, é-me completamente absurdo defender que não pertenço ou que não quero pertencer à Europa. E muito mais absurdo não querer pertencer a uma União Europeia. Com todos os seus defeitos, porque não há nada que seja perfeito – e que não seja suscetível de ser melhorado –, mas que me oferece tudo aquilo que Lídia Jorge refere magnificamente no final desta crónica (129):


Talvez nos unam dez nomes que tenham feito de nós pessoas melhores, talvez vinte físicos, vinte matemáticos, vinte pintores, astrofísicos, a imprensa livre, a abolição da pena de morte, e alguns costumes, como as mulheres poderem mostrar o rosto, dançarmos nas ruas até de madrugada e andarmos quase despidos nas praias, dizermos o que pensamos em voz alta, rezar-se ao deus que se quer, e ser-se livre de não se rezar a deus nenhum. Não me digam que tudo isto acontece igualmente em todos os continentes do Mundo. Não me digam. Não me digam que não há nada que caracterize a Europa.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 19

 


19 ~ O Feminismo é um Humanismo

Talvez na crónica anterior, que designei por teoria e prática das mulheres, eu não tenha sido explícita. Eu não confundo trabalho de emancipação e dignificação do estatuto das mulhers apenas com as questões de violência doméstica. (…)


Imagino que pessoas terão contactado Lídia Jorge após a crónica anterior. Imagino essas pessoas a tentarem envolver a autora nalguma forma de “whataboutism”, desviando o fulcro da questão para outras áreas. Digo isto porque me parece que Lídia Jorge foi inequivocamente explícita naquela crónica.

Repare-se: o feminismo até pode ser uma questão de opinião (para mim e para Lídia Jorge não é). Porém, a oposição à violência sobre as mulheres é uma questão de civilização; e, nem deveria ser preciso dizê-lo, de humanidade. Procurar trazer a questão do feminismo para uma discussão centrada na violência exercida pelos homens sobre as mulheres pode ser revelador de mal-estar e incomodidade sobre o tema, mas também pode revelar uma simples má fé.


Reduzir os outros é sempre reduzir-me, mesmo quando isso me dá uma sensação de poder. Há quem goste de o fazer, o que sou capaz de compreender, pois não estamos todos no mesmo nível de evolução pessoal e de civilização. E há quem goste de ver outros fazê-lo, o que já me é mais difícil de perceber. Porquê? 

Porque aquele ou aquela que reduz outros seja de que forma for (palavras ou atos) pode perfeitamente vir a fazer o mesmo a mim próprio e aos meus. Talvez as pessoas não se deem conta disto. Talvez estas pessoas sintam uma raiva tão grande, até contra si mesmas, que ver fazer isto a outros ou outras lhes traz uma satisfação e um alívio mais profundos do que qualquer sentimento de medo ou terror que é natural que surjam em quem assiste a esses atos.


Lídia Jorge refere (e com toda a razão) como os hábitos de diminuir outros tornam invisível a ferida mortal que infligem à dignidade das pessoas, quer às vítimas, quer ao perpetrador, quer a quem simplesmente assiste. Assim, ara que estes atos ganhem visibilidade há que

(…) encontrar as palavras necessárias para colocar em relevo situações de desigualdade de género (…) (119)

isto é, tornando visível o que para muitos é invisível.


(…) a luta feminista é uma causa a favor do equilíbrio da humanidade. (…) (120)

Porque, alertando para o facto de não haver razão nenhuma para um tratamento diferenciado “vertical” para as mulheres (menores salários, menos empregabilidade, mais precariedade, lugares subalternos, etc.), acaba-se por mostrar a injustiça de outros grupos de seres humanos (principalmente os minoritários) estarem também a ser tratados desigualmente.

Gostaria de clarificar o que quero dizer com a palavra “vertical”. 

As pessoas são todas diferentes. A ciência já demonstrou largamente que as diferenças entre homens e mulheres existem (a nível de grau, não de categoria), mas não são significativas, a menos que nos estejamos a referir a características meramente físicas ou fisiológicas. 

E é por via destas últimas características que podemos debater uma diferenciação “horizontal” entre mulheres e homens, de que é exemplo a recente discussão política em Espanha e em Portugal sobre a concessão de licença menstrual às mulheres. Quanto a outras características, por exemplo as psicológicas, mesmo que possam existir diferenças, sejamos diretos, elas nunca são “deficiências”.


Mais uma vez, esta crónica levanta-me a habitual interrogação angustiada: que «comportamentos e julgamentos comuns» (122) de hoje irão ser julgados daqui a uns anos como bárbaros? Em particular, relativamente a este tema, de que forma estou a contribuir para alimentar e perpetuar uma cultura tradicional que hierarquiza as pessoas por características sobre as quais elas não têm qualquer controlo (seja o género, a origem, a etnia, etc.)?


E sim, sem dúvida alguma, as crianças sabem hoje mais do que a maior parte dos adultos no passado (e mais do que muitos adultos do presente):


(…) Qualquer rapaz do Ensino Secundário, hoje em dia, está muito à frente do divino Kant.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 18

 

(foto tirada de BBC News)


18 ~ Teoria e Prática das Mulheres

Esta crónica tem quatro capítulos.

(…)


O que há a acrescentar a uma crónica supremamente bem trabalhada que trata da violência sofrida pelas mulheres à mão dos homens? Muito pouco, creio.


Os homens matam. Matam, pelo menos, muito mais do que as mulheres.

De cada vez que uma mulher é vítima de qualquer tipo de violência, a sociedade regride para algo que não desejamos nem queremos. Também não serve ignorar a realidade desta violência: não existe progresso onde impera a insensibilidade. Olhando-me com absoluta honestidade, pergunto-me em que medida eu não prefiro olhar para outro lado e ignorar os sinais de uma violência sobre a mulher? Quantas vezes fiquei calado e até embaraçado (em vez de furioso) quando, ao meu lado, um homem usou de violência psicológica com uma mulher? Triste é dizê-lo: lembro-me de várias - com amigos e com conhecidos.


Um dos problemas é que não chegam as leis. São precisos o desejo e a vontade de as aplicar na vida do dia-a-dia. Mas esse desejo e essa vontade existem com pouca força na nossa sociedade, principalmente no que se refere à violência doméstica.

Relativamente a esta, aliás, não consigo perceber como é que os homens conseguem ligar o bater numa mulher com os ideais da masculinidade referentes à proteção dos mais fracos e das mulheres, em particular (“numa mulher não se bate nem com uma flor”, ouvi eu isto a muito homem machista). 

Se calhar estou enganado, não faz parte de um ideal de masculinidade (esta ficaria a um nível mais do bruto), mas sim de um ideal de nobreza de espírito, coisa bem mais rara de encontrar (e mais difícil de definir, também). No entanto, só esta é capaz de cuidar e alimentar uma dignidade autenticamente humana. Por meio de uma busca sincera e persistente do bem, da verdade, da justiça, da beleza, do amor e da liberdade. Sendo tudo isto obviamente incompatível com qualquer tipo de violência.


Mais um problema: a impotência do Estado (que já tem leis, assistentes sociais, polícias, tribunais e punições). É ela inevitável? Não tenho resposta. Mas, admitindo que sim, já que as leis só serão cumpridas se as pessoas o quiserem fazer, então só resta denunciar quem pratica a violência sobre os outros.

Não é um verbo bonito, “denunciar”. Mas a violência doméstica (sobre mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência ou incapacidade) é muito mais revoltante do que quaisquer pruridos egoistamente morais que possamos ter.

Eu sei do que estou a falar, eu, que denunciei vários pais pela violência que exerciam sobre crianças que foram minhas alunas. Se a palavra “denunciar” custa a engolir, então substituamo-la pela palavra “sinalizar”. Pois é isso que nós fazemos: sinalizar pessoas, que são vítimas, às autoridades competentes.


Acredito que a violência se reduzirá ao estritamente necessário à sobrevivência quando homens e mulheres pararem de dominar e de vencer, no fundo de quererem ter poder sobre os outros. Dominar e vencer talvez sejam desejos que fazem parte da nossa natureza humana. Por isso, não digo “pararem de desejar dominar e vencer”, mas apenas desafio a controlar os comportamentos que atuam aqueles desejos. Porque os comportamentos são bem mais fáceis de controlar do que os pensamentos, as emoções e os impulsos.


É interessante a reação da porteira do conto (referido nesta crónica) Marido, de Lídia Jorge. É que ela acaba a odiar as pessoas que se ofereceram para a ajudar a sair daquela situação de violência. Lídia Jorge evidencia aqui problemas de proteção e de educação, tanto da familiar (que a condiciona a aceitar como natural a violência do marido), como da escolar (que lhe faz ignorar os seus direitos e os mecanismos legais que existem para os proteger).

Mas também evidencia uma certa displicência dessas pessoas, talvez fruto também da sua ignorância. Por um lado, não denunciando às autoridades o que se estava a passar. Por outro, não querendo saber primeiro o que a porteira desejava ou precisava para a sua vida; para, depois, em função disso, oferecerem a ajuda necessária e adaptada aos desejos e necessidades dela. Porque quando damos conselhos sem nos pedirem, a maior parte das vezes acertamos completamente ao lado. E os efeitos poderão ser contrários ao que pretendíamos (como aconteceu com a porteira do conto).


Não posso deixar de referir que, por detrás de cada mulher violentada, batida, morta, vejo uma criança destruída. Eu sei que não devo desviar o foco da violência sobre as mulheres, mas não consigo parar de ser assombrado pela imagem das crianças, também elas vítimas, e na maior parte das vezes silenciosas. Não queiramos iludir-nos: um lar violento é-o para ambos, mulheres e crianças.

E se existe reprovação social clara relativamente à violência sobre as mulheres, já o mesmo não se pode dizer no que respeita às crianças, o que as torna muito mais vulneráveis. Por exemplo, a partir do momento em que defendemos a “palmada pedagógica” (como eu ouço muita gente a fazer), estamos a abrir a porta à violência. Cujos limites ficam depois sujeitos à arbitrariedade do “bom senso” de cada um, e não sujeitos à lei.

Uma palmada aplicada a uma criança ou a um adulto é sempre um ato de violência; e é sentido como tal. Aliás, muito mais terrivelmente sentido pela criança que não tem nem a liberdade, nem a autonomia, nem as defesas que um adulto apesar de tudo já tem. Bater numa criança é abrir as portas da sociedade à violência, tanto no presente como no futuro (crianças batidas têm a tendência de se tornarem adultos violentos).

O que me leva a mais uma reflexão. Talvez se comece a extinguir a violência sobre as mulheres (e sobre todos os mais fracos) apostando numa educação de pais que os leve a não terem de recorrer à agressão sobre as crianças para as educar.


Finalmente, não aprofundarei, mas também não esquecerei, a violência do Estado (isto é, dos Governos) sobre os cidadãos. Essa violência constitui sempre um exemplo e um modelo que as populações tendem a seguir nas suas vidas privadas. E fico-me por aqui, pois o assunto é extenso e complexo.


(…) Sugiro estantes compridas de livros onde estão descritas as vidas verdadeiras, e que não vêm descritas nas leis dos juízes.


sábado, 10 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 17

 

(Gravura tirada da Wikipédia)


17 ~ Montaigne e o Amigo

O que devo a Pierre Léglise-Costa não se descreve. (…)


A Literatura e a História para pensarmos o presente, eis a proposta de Lídia Jorge nesta crónica.


A primeira interrogação que Lídia Jorge nos coloca é a de saber por que razão duas pessoas (ela própria e Pierre Léglise-Costa) que aparentemente têm pouco em comum podem ser tão amigas uma da outra. Ou seja, o que pode estar por detrás de uma amizade improvável?

Ora, como todas as interrogações mais profundas sobre a vida, esta também não terá resposta. Pelo menos, nunca terá uma resposta definitiva.

Pessoalmente, não tenho nenhuma. Talvez isso indique que não sei ser amigo de alguém? Seja como for, acredito que uma grande parte da humanidade não foi tocada por esta dádiva de uma amizade que se aproxima do absoluto. É uma intuição pobre. Assim, leio com interesse o que Lídia Jorge tem a dizer sobre a amizade autêntica.

Como a que ligou Montaigne a Etienne de La Boétie, de que a autora nos dá notícia nesta crónica. Registada por Montaigne nos seus Ensaios, em particular naquele que tem o título «De L’Amitié».

E aí ele (citado pela autora) diz que é «feliz aquele que alguma vez encontrou a sombra de um amigo. (…)», confirmando a minha ideia de que a amizade autêntica é uma experiência rara.


(…) Pierre ofereceu-me esses dois livros [Ensaios, de Montaigne; e Discurso sobre a Servidão Voluntária, de La Boétie], e nesse dia falámos do tempo de Montaigne e La Boétie, e dos nossos tempos. Haverá pontos de contacto?

Lídia Jorge interroga-se. Eu respondo: múltiplos, na minha opinião. Escolho um de entre muitos aspetos. E parto de um trecho da referida obra de La Boétie (p. 46, Edições Antígona, 1986):

Mas voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascido e sido criados na servidão.

A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem covardes e efeminados.

La Boétie não estaria provavelmente a pensar na educação de crianças, mas eu sim. É exatamente por esta razão apresentada pelo autor (mas não unicamente, claro) que eu discordo do modelo da educação autoritária (seja qual for a sua variante), aquela que promove logo na família «o terem nascido e sido criados na servidão».

E cuja consequência (mais uma vez, na minha opinião) é propiciar o aparecimento e a multiplicação de «covardes e efeminados». Esta última característica tomada no sentido «3. figurado, depreciativo a que falta força ou energia» para enfrentar qualquer tirania, política, organizacional ou familiar.


Termino com algo que me ocorreu ao finalizar a leitura desta crónica. Não será a amizade autêntica inseparável da lealdade? Sim, porque Montaigne certamente não concordou com tudo o que La Boétie fez ou disse ou escreveu. Mas nunca deixou de lhe ser fiel na amizade e na defesa do amigo. Mesmo depois de este ter morrido.


(…) De momento, só sabemos que, tal como nós, pelas cidades da Terra inteira, haverá amigos conversando ao longo das ruas, ombro a ombro, e isto é um consolo sem palavras.


sábado, 3 de setembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 16

 

(foto tirada de BRUNDIBÁR)


16 ~ A Ópera das Crianças. 

Aconteceu num país nórdico. (…)


Porque é a vida no seu todo que está aqui em jogo. Diz Lídia Jorge (105) que «foi a Humanidade que o executou», ao Holocausto. Ora, a Humanidade sou também eu. Interrogo-me: que barbaridades estarei a executar neste período da minha vida (talvez sem a consciência de o fazer, tal como acredito que aconteceu na altura a muitos alemães)?


Como é possível ainda escrever sobre esta tragédia abominável do séc. XX de forma diferente, marcante, comovente e sábia? Não o sei, mas Lídia Jorge conseguiu-o, sem dúvida.


Vivemos num mundo de violência e de abusos de poder, de narcisismo e de condenação sistemática das vítimas (coisa esta que me repugna sobremaneira), de ganância e de desconfiança mútua, onde todas estas forças nos lançam para o meio de um imenso deserto. Um mundo ao qual me oponho, mas em que sinto que me faltam os meios para ter algum impacto efetivo. E então fica aqui a minha questão: o que posso, o que podemos então todos fazer?


Nesta crónica, Lídia Jorge sugere implicitamente que é com as crianças que podemos construir bases sólidas para que a tragédia não se repita. Trata-se de saber como fazer as crianças (futuros adultos) participar desse valor supremo da vida, mas vivida com dignidade e que inclua todos. Sugere também que isso passará pelo conhecimento da história (ou seja, cultivando a memória e rejeitando a abstração assassina). Absolutamente de acordo.

Mas duvido que chegue, se não procurarmos mudar a forma como as crianças são educadas, no seio das suas famílias ou de outros cuidadores. Crianças maltratadas serão mais provavelmente adultos cuja primeira resposta aos desafios da vida será a violência. Porém, só conseguiremos mudar a forma de educar as crianças (se o quisermos fazer de forma intencional e mais rápida do que o movimento natural, mas errático, da sociedade) se procurarmos mudar os pais e restantes cuidadores a esse respeito. E tanto que eles sentem necessidade de uma ajuda!

Nas sociedades mais antigas, que faziam exigências reduzidas às pessoas (reduzidas, mas não menos violentas, claro), educar crianças era algo de relativamente simples. Hoje em dia, em que essas exigências são muito maiores e muito mais complexas, educar tornou-se algo também muito mais complicado.


Quando pensamos em educação, pensamos em escola. Aliás, esta crónica fala de professores, não fala de pais. Teria preferido que todo este episódio relatado por Lídia Jorge tivesse como protagonistas ou só os pais ou também os pais. Porque a escola não pode fazer muito. Tudo o que ela ensina às crianças vem sobre o que lhes foi inculcado na mais tenra infância. Raramente se lhe sobrepõe, principalmente quando envolve aspetos emocionais perturbadores.

Por isso, mais do que um trabalho sobre as crianças, parece-me muito mais urgente e importante um trabalho com os pais. Provavelmente, eles agradecerão. No entanto, surpreendentemente, este tema, no fundo o da educação de pais, é um tema tabu na nossa sociedade. Não percebo bem porquê. Talvez por um respeito pela autonomia da família? Mas que autonomia pode existir baseada na ignorância? 


Costumo fazer uma comparação com a condução de automóveis. Antigamente, em que o trânsito era reduzido (por isso, as regras eram poucas e simples), os carros tinham uma tecnologia básica, e a condução era algo que se aprendia com facilidade, toda a gente podia conduzir sem ter que realizar uma aprendizagem formal. No entanto, quando as características do tráfego se começaram a complicar, o número de veículos na estrada a aumentar e as exigências de uma boa condução se avolumaram, passou a ser necessária uma aprendizagem formal, acompanhada de uma certificação das competências para conduzir. Ninguém, aliás, questiona a necessidade disto, hoje em dia.

Não peço tanto para a educação de pais. Apenas acho absolutamente necessário que se lhes proporcione o conhecimento científico de vários estilos de educar e das suas consequências. Não peço a certificação das suas competências para ter filhos e para os educar. Mas, entretanto, com aquele conhecimento, os pais seriam absolutamente livres de decidir por si próprios como educar os seus filhos. Todavia, seria uma decisão informada, ao contrário do que acontece agora.


Nessa educação de pais, acho que se devia acrescentar à Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento e da Aprendizagem o conhecimento novo de uma área muito recente da ciência (que eu tenho procurado divulgar nas minhas aulas e palestras): as aplicações da Neuropsicologia da Regulação Emocional – que permitiriam gerir com êxito experiências emocionais elementares/primárias através de competências de regulação de um espetro alargado de processos e que influenciariam como estes são experienciados e exprimidos.

Se não for por mais nada, porque precisamos muito de metáforas novas e mais eficazes, fruto da evolução recente e extraordinária do conhecimento científico sobre o ser humano. Um conhecimento que ajuda a perceber como o ser humano constrói estas calamidades com as suas próprias mãos; e que, principalmente, ajuda significativamente a saber como evitar repeti-las.


Termino esta já longa conversa com um retrato que Lídia Jorge faz das crianças. Um retrato muito exato, na minha opinião. Diz Lídia Jorge (105):

(…) Mas será que as crianças de nove anos têm capacidade para perceber o que significa redenção e resgate? Creio que sim. As crianças têm um conhecimento baseado em sentimentos primordiais, a sua lógica é do domínio do puro afectivo. Conhecem o circuito do esforço e da recompensa, da perda e da recuperação, do acto prejudicial e do castigo, da dor e da superação. A alegria e o medo. Podem não dispor do vocabulário adequado para cada acto, podem não os distinguir, sobretudo na dimensão da sua complexidade, cambiantes e variáveis, mas detêm uma gramática de afectos apurada, feita de avaliações puras porque dramáticas. Os sentimentos das crianças revelam-se por drama e em si são drama.

Repare-se que Lídia Jorge não diz que as crianças têm capacidade para tomar as melhores decisões. Porque estas só podem advir da experiência e do conhecimento que elas ainda são muito novas para os terem adquirido. Mas no âmbito estritamente emocional, acrescento que não há diferenças em relação aos adultos. E, no âmbito cognitivo, estão a caminho de se tornarem como os adultos. Sim, este é um retrato bastante preciso da infância. Sobre o qual não deveríamos todos refletir? Nomeadamente, interrogando-nos se procedemos com as crianças de harmonia com estes pressupostos. Mais uma vez, a fim de diminuir a probabilidade de elas se tornarem adultos zangados que espalham destruição à sua volta…


(…) É bom que, em muitas praias, as crianças se juntem representando Brundibár e, no final, queimem as tábuas e dancem, em sinal de que, por suas mãos, conhecendo a História, aquilo não mais irá acontecer.


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...