sábado, 12 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 30, c

 

(Foto tirada daqui)


(…) acumular mitos é progressivo e improvável que sejam desfeitos pela razão. (…) (191/2)

Sim, relendo o que escrevi até aqui, dou-me conta de que fica mais ou menos subentendido que não vale de grande coisa discutir com pessoas que defendem posições extremadas, pois elas não vão mudar.

Todavia, não defendo que nos calemos perante elas. Pelo contrário, devemos sempre defender o que nos parece justo e correto, mesmo com estas pessoas. Não necessariamente para convencer o nosso opositor, mas especialmente para convencer quem está a assistir à discussão e ainda não chegou a uma decisão bem fundamentada. 

Esta é uma das razões pela qual não devemos maltratar o nosso opositor, a fim de não fazer dele uma vítima capaz de congregar a simpatia dos indecisos. 

A outra razão é explicada por Jane Goodall no minuto 2:44 do vídeo que encerra a minha publicação anterior:

(…) se você começar a argumentar com alguém, se tiver opiniões diferentes, se discutir de uma forma ligeiramente agressiva, a outra pessoa pára de o ouvir porque fica tão ocupada a refutar o seu argumento que não o vai ouvir mais. (…)

Por isso, o resultado poderá ser o extremar das suas posições, se tentarmos esmagar de forma agressiva o nosso opositor com os nossos argumentos, não deixando nenhuma saída digna para ele.


Uma pergunta que ocorre fazer agora é a seguinte: que pessoas serão, então, aquelas ainda capazes de ouvir os nossos argumentos e de mudar de opinião? 

Provavelmente, as moderadas, ou seja, as que têm dúvidas, as que estão conscientes de que não sabem tudo sobre Salazar. 

Aliás, investigações têm comprovado que quanto mais intensos forem os sentimentos de certeza que temos sobre o nosso conhecimento de qualquer assunto, mais provável é ser grande a nossa ignorância acerca dele (Efeito Dunning-Kruger).

E que a intensidade deste sentimento de certeza cresce quanto mais conversarmos sobre esse tema com outras pessoas igualmente ignorantes. Este efeito psicossocial torna o problema ainda mais difícil de combater. 

Às vezes, pedir à pessoa para descrever detalhadamente como seria a vida do dia a dia sob um regime presidido por Salazar pode ajudar-nos a fazer perceber às pessoas como o seu apoio a Salazar se baseia em muito desconhecimento. É melhor isto do que fazer uma preleção, caso em que o outro pára de nos ouvir ao fim de alguns segundos.


Outra questão pertinente: junto de quem podemos defender intervenções a pensar em efeitos de longo prazo? Claro que a resposta é: as crianças e os jovens. E o lugar natural para o fazer é na escola, sítio onde eles passam a maior parte dos seus dias. Se possível, procurando envolver os pais.

O primeiro aspeto que salta ao espírito é a questão da coerência: se queremos que as crianças e os pais adotem valores democráticos e progressivos, então a sua vivência do dia a dia na escola tem de ser democrática e progressiva. Não é o que vemos acontecer.

É fácil de compreender que estilos autoritários na escola ajudam a criar uma base psicológica nas crianças para, mais tarde, se sentirem bem com regimes e personagens autoritários. Porque vemos isso acontecer na escola, se os documentos teóricos oficiais até apontam em sentido contrário? 

Primeiro, porque o modelo de gestão profissional dos professores concretizado pelo Governo é absolutamente autoritário: os professores nunca são consultados para nada, têm muito pouca autoridade, ao mesmo tempo que são sufocados até à exaustão pelos exames e pela burocracia (sabemos como a burocracia pesada e excessiva é um dos traços dominantes dos regimes ditatoriais). Assim, eles tendem a reproduzir com os outros a forma como são constantemente tratados pelas hierarquias.

Além disso, eles são sobrecarregados de tal forma com programas despropositadamente extensos, associados a burocracias infinitas e absurdas, que a prática democrática é submergida porque não há tempo para mais nada. Sim, porque todos sabemos e compreendemos que a prática da democracia exige mais tempo e mais esforços do que a do autoritarismo. Tempo esse que os professores pura e simplesmente não têm e que lhes é constantemente negado.

Penso que, portanto, na educação (mas, infelizmente, não só) estamos a falhar no apelo que o Papa Francisco faz na sua Carta Encíclica, Fratelli Tutti:

249. Hoje é fácil cair na tentação de voltar página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para diante. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa. Precisamos de manter «viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu», que assim «aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição» [Francisco, Mensagem para o 53º Dia Mundial da Paz de 2020 (8 de dezembro de 2019), 2: L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 17-24/XII/2019), 8.]. Precisam disso as próprias vítimas – indivíduos, grupos sociais ou nações – para não cederem à lógica que leva a justificar a represália e qualquer violência em nome do mal imenso que sofreram. Por isso, não me refiro só à memória dos horrores, mas também à recordação daqueles que, no meio dum contexto envenenado e corrupto, foram capazes de recuperar a dignidade e, com pequenos ou grandes gestos, optaram pela solidariedade, o perdão, a fraternidade. É muito salutar fazer memória do bem.

Sim, é uma responsabilidade com a qual todos nos devíamos comprometer: lembrarmos os horrores, nomeadamente os criados por Salazar; e lembrarmos quem lhes fez frente. Lídia Jorge fá-lo nos seus livros e na sua participação cívica e pública. Façamo-lo nós também.


(...) Sobre o assunto, poderei, quando muito, trocar umas ideias com um homem que não dispensa a liberdade, chamado Palhó.


sábado, 5 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 29

 


29 ~ O Novo Bestiário

Gostaria de conhecer pessoalmente Carl Safina, o ecologista que fala com os animais, que os ama profundamente e neles vê o espelho da Criação. (…)


(…) mas não achavam [os avós de Lídia Jorge] que o comportamento do porco fosse mais equilibrado do que o comportamento do meu avô e da minha avó, (…) (183)

Creio que esta opinião talvez não seja partilhada por todos os seres humanos, começando se calhar logo por Carl Safina (não sei porque não li nenhum livro dele). A verdade é que é comum citar (com variações) a frase, cuja origem exata se desconhece: Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos cães. O que não abona muito a favor das pessoas.

Porque razão isto acontece?

Lídia Jorge dá-nos uma pista ao dizer, e passo a citar um trecho desta crónica sobre o qual me debruçarei nos próximos parágrafos:

(…) O problema que eu colocaria a Carl Safina, (…), é se ele acha que para além da nossa amplitude intolerável, entre crueldade e compaixão, se ele acha que o homem é um animal entre os animais. (…) (183/4)

Esta constatação de Lídia Jorge é simultaneamente realista e justa.

Na verdade, nenhum animal (excetuando naturalmente os vírus e as bactérias, mas também ninguém considera estes “animais” quando se fala de animais) nem de longe espalhou, espalha ou espalhará tanta dor, tanto sofrimento e tanta morte a tantos seres vivos, incluindo os da sua própria espécie, como os seres humanos.

Mesmo o bem que os seres humanos fizeram foi, muitas vezes, à custa da dor e do sofrimento de outros seres vivos, quer para o presente, quer para o seu futuro.


Lídia Jorge também diz:

(…) Carl Safina respondeu – Nunca é tão difícil lidar com os animais como com as pessoas. (…)

Claro que tem toda a razão, Carl Safina. As pessoas são muito difíceis porque são como o próprio Carl Safina, pessoas. Isto é, animais complexos, e por isso mais imprevisíveis do que os outros animais. (…) (184)

Totalmente de acordo com Lídia Jorge. Acrescento mais uma razão relativamente simples: é que exigimos das pessoas (mesmo das crianças mais pequenas) uma complexidade que nem sequer jamais esperamos dos animais. Ora, a complexidade traz atrás de si, ou mesmo à frente, dificuldades de toda a ordem, não só para quem a exige, como também para quem dela é objeto.

Notemos, além disso, que os animais vivem em geral fechados no presente. Por isso, quando percebemos a sua lógica de funcionamento no seu ambiente natural, o seu comportamento torna-se previsível. Mas não muito. Aqui há igualmente que distinguir entre diferentes classes de animais. 

Por exemplo, os mamíferos são muitas vezes imprevisíveis (quando atacados podem responder indo à luta, fugindo, paralisando, submetendo-se ou ainda dissociando… tal como acontece, na verdade, com os humanos). O que talvez se possa dizer é que a amplitude (recorrendo a um termo usado por Lídia Jorge nesta crónica) de imprevisibilidade nos animais é menor do que no ser humano. Onde quero chegar com esta argumentação? À seguinte hipótese: as diferenças entre animais e seres humanos não são de natureza, mas simplesmente de grau.


Aliás, nesta crónica, Lídia Jorge refere diferenças entre seres humanos e animais. Tem razão. Nós possuímos um cérebro racional muito mais desenvolvido do que os animais (nestes, ele praticamente não existe ou é incipiente, tanto quanto sabemos). Este cérebro permite-nos recordar, ordenar e interpretar o passado; analisar e criticar o presente; idealizar e planear o futuro; e exprimir tudo isto através de uma linguagem que permite uma comunicação relativamente clara entre nós.

Trata-se de um cérebro desenvolvido, mas que é simultaneamente bastante fraco, já que é facilmente capturado pelo cérebro emocional, podendo até no extremo ser desligado, quando as emoções negativas são violentas. Isto acontece porque, provavelmente, nós não seremos o pico da evolução, ainda há muito por onde crescer e maturar nos próximos milhares ou milhões de anos (se entretanto não nos aniquilarmos).

Cérebro emocional, é preciso dizê-lo a todos os que nunca tiveram animais de companhia ou não os observaram devidamente, que temos em comum com os animais, nomeadamente com os mamíferos. Verdade seja dita que emoções negativas, um dos mecanismos básicos de sobrevivência aqui na Terra, temos em comum até com os répteis: medo, raiva, sofrimento, etc. 

De mais a mais, se olharmos menos para as diferenças entre os animais e nós, e mais para as semelhanças, a proximidade é gritante:

  • Em termos de hardware, e sem pretensão de esgotar a lista: dois olhos; dois ouvidos; quatro membros; um nariz com duas narinas que serve para cheirar e respirar com o respetivo sistema respiratório; uma boca com uma língua que serve para comer com o respetivo sistema digestivo, além de servir de alternativa ou de complemento ao nariz para respirar; um coração e respetivo sistema circulatório; e, mais primordialmente, um sistema nervoso; etc, etc, etc. 
  • Ao nível mental, isto é, de software se lhe quisermos chamar assim, os animais (principalmente os mamíferos) sofrem como os humanos de alegria, curiosidade, arrependimento, medo, raiva, tristeza, amor, etc, etc, etc.
    • lembro aqui a reação do cão de Saramago durante muitas horas após a morte do escritor tal como é contado por Pilar del Río em A Intuição da Ilha - Os Dias de José Saramago em Lanzarote, p. 91, Porto Editora: Quando José Saramago morreu, Camões, o único que lhe sobreviveu, apercebeu-se e chorou uma noite inteira. Eram uivos tremendos que ninguém podia consolar, ia pelos lugares do seu dono cheirando em vão, uivando, gritando desesperado.)


Portanto, dada esta proximidade (e não incluo aqui a proximidade genética - ver vídeo no final desta publicação), parece-me não ser abusivo concluir que o ser humano é um animal entre outros animais. No entanto, há algo sobre esta afirmação que me parece exigir um esclarecimento (que não é muito fácil de fazer, aliás).

São duas coisas diferentes: dizer que os animais são semelhantes a nós (do que eu discordo), ou dizer que somos semelhantes aos animais (no que eu concordo). Por outras palavras, não se trata de fazer os animais ascender ao estatuto de humanos (caindo no antropomorfismo, atribuindo características e comportamentos humanos em demasia aos animais), mas de os humanos não rejeitarem a sua herança animal (e de não caírem em nenhuma forma de antroponegação, que se refere à rejeição quer da existência nos animais de características semelhantes às nossas, quer da existência em nós de características semelhantes às que podem ser encontradas nos animais).

Na realidade, nós somos parecidos, não iguais aos animais, porque temos a capacidade de sermos muito melhores do que eles conseguem ser… e, infelizmente, também a capacidade de sermos muito piores do que eles conseguem ser.

Dizer que somos animais entre animais serve, assim, não para nos reduzir à condição inferior animal, mas para nos lembrar que somos parceiros de vida neste pequeno apartamento do Universo que se chama Terra. Por outras palavras, que eles não são coisas de que podemos dispor a nosso bel-prazer. Porque têm muitas características comuns com os seres humanos. Por exemplo, a coragem, a dignidade (por exemplo, face à morte), o afeto, a lealdade, etc., etc.

People sometimes describe nature as a dog-eat-dog world. (…) That’s totally wrong. I fought against that sort of characterization of animal society all my life, because just like human society, it is built on a lot of friendship and cooperation at the same time. We’d like to deny that connection that exists between us and animals. Certain tendencies, such as a sense of fairness, empathy, caring for others, helping others, following rules, punishing individuals who don’t follow the rules, all of these tendencies can be observed in other primates.

(in 95% of your behavior is primate behavior, Frans de Waal, biólogo e primatologista)


Lídia Jorge cita em (184) e (185) afirmações de outras pessoas que, perante as enormidades ditas, podemos apelidar no mínimo de radicalmente extremistas. O objetivo de Lídia Jorge é o de nos alertar para os riscos de exageros que podem advir da disseminação acrítica de comparações entre pessoas e animais, favoráveis a estes últimos. Mas estes exemplos servem também para apoiar a afirmação de Carl Safina de que o que as pessoas fazem, muitas vezes, não é lógico e é muito difícil de perceber. (184)

Aliás, ao ler a afirmação da ecologista que Lídia Jorge cita (feita aparentemente de raiva, azedume e ausência de compaixão), não pude deixar de me lembrar do célebre escrito de Jonathan Swift, publicado em 1729, A Modest Proposal - For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick (também publicado pela editora Antígona).

Foi um texto escrito com finalidade satírica, mas espelha de forma cristalina como a lógica humana pode ser completamente ilógica, quando privada de empatia e de bondade.

Lídia Jorge alerta-nos assim para os perigos de considerarmos cegamente as pessoas como animais, sem distinção alguma. 

Acrescento um exemplo: quando há animais a mais, chamamos praga a esse excesso e lidamos com ela optando pela sua eliminação pura e simples. É o que parece que a citada ecologista defende. O risco é, portanto, de ficarmos com a porta aberta à barbárie, ou seja, a sermos piores do que animais: todos nos recordamos como, ao chamar “baratas” aos tutsis do Ruanda ou ao apelidar os judeus de “vérmina”, isso conduziu facilmente ao horror e ao genocídio de milhões e milhões de seres humanos. Portanto, o alerta de Lídia Jorge faz todo o sentido.


(…) Sintetizando, há três hipóteses distintas – Primeira, somos um bicho, ponto final. Segunda, somos um bicho especial, ponto final. Terceira, não somos um bicho. Eu defendo que não somos um bicho. (…) (185)

Pessoalmente, eu defendo a segunda hipótese (sem ponto final, naturalmente, pois muito há a dizer sobre isto). Por várias razões já referidas, mas a que acrescentarei que ser também um bicho ou animal dá-me uma família mais alargada à qual me sinto orgulhoso de pertencer. E em que o ser "especial" me dá uma responsabilidade acrescida e, consequentemente, uma humanidade acrescida. 

Além disso, também me dá a esperança de que a Humanidade, com estas raízes, possa chegar a uma muito melhor versão de si mesma – com tanto que já caminhou até aqui, a Evolução que ainda não terminou abre perspetivas exaltantes para o futuro. 

Porque, e este é o ponto principal, aceitando a ideia de que somos também bichos ou animais, temos de aceitar a ideia de que a maldade não está de todo na nossa natureza mais profunda. E este é um pensamento bom.


Jane Goodall: Qu'est-ce que les humains font de mal? Que pouvons-nous apprendre des chimpanzés?


(...) Com a suspeita de que, com o professor de Nova Iorque, vou regressar ao mundo moderno dos meus avós, e sua quinta no meio de um bosque.


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 28

 

(Foto daqui)


28 ~ Guilherme e o Mito

Quando me sugerem que fale da forma como se processa a imaginação, sou tentada a contar uma história selvagem. (…)


A questão parece-me ser esta: os escritores serão perfeitamente criativos, ou irão buscar ao seu fundo de experiências o material para o qual irão olhar de uma forma pouco habitual e disso darem notícia? Vou por esta última hipótese, porque senão seria muito difícil alguém se identificar com o que eles escrevessem. A verdade é que mesmo os escritores mais “estranhos” ou “difíceis” (lembro, em Portugal, um Rui Nunes, por exemplo) podem encontrar uma legião de admiradores e seguidores apaixonados da sua obra.

Eu sei de mim que não sou particularmente criativo a escrever. É raro alguma ideia minha ser perfeitamente original. Mais tarde ou mais cedo, descubro que já houve alguém que pensou o mesmo e que escreveu sobre isso. Por isso, não posso falar baseado na minha experiência. Será este o meu viés em relação à opinião que eu possa ter sobre este assunto.

No entanto, no fundo, talvez Lídia Jorge se aproxime da hipótese que ponho. O episódio que conta de Guilherme, seu companheiro de escola, terá sido pelo menos o motor que pôs em movimento todo um organismo em direção à criatividade da autora.

Episódio esse que me recorda o que se passou também com aquele migrante do Mali, Mamoudou Gassama, de 22 anos, que sobe pela fachada de um prédio em França para ir salvar um menino de 4 anos que se encontrava pendurado de uma das varandas dos andares superiores. E que, após o seu feito, cai no chão sem forças, esgotado pelo seu feito, tal como Lídia Jorge conta que aconteceu com Guilherme.

E é deste fundo, deste húmus, desse repositório primordial de imagens e de palavras, que talvez os escritores vão fazendo crescer os seus livros como se fossem longos pomares, das quais nós, leitores felizes, tiramos, comemos e saboreamos alguns frutos. Árvores às quais voltamos, uma e outra vez, sendo os frutos saboreados sempre iguais e diferentes. Que acordam outros repositórios de imagens e de palavras. E que talvez levem cada leitor também à escrita.


(…) Eu só transformo essa imagem em letras.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 27

 


27 ~ Geografia Partilhada

Digam agora que a ficção não serve para nada. (…)


Crónica simultaneamente séria e irónica, triste e divertida, desesperada e esperançosa. Que antecipa até o atual desbragamento de um Putin.


(…) Não só o romance espelha realidades que andam escondidas e que de outro modo permanecem invisíveis, como ainda por cima fornece ideias úteis que depois vêm a ser postas em prática. (…) (167)

Há uma boa hipótese de este excerto poder ser irónico. Mas Lídia Jorge respeita a inteligência e a liberdade do leitor, como sempre. Eu escolho interpretar pelo lado da seriedade, penso que sem trair o pensamento da autora.

Lídia Jorge refere aqui livros que esclarecem o presente e lançam avisos sobre o futuro. É impossível não nos lembrarmos de 1984, de George Orwell. Ou, falando da própria Lídia Jorge, do seu romance Estuário.

Sim, nos livros reside uma grande esperança, pois eles são a memória da humanidade e o seu projeto no futuro. Com os livros, não poderemos escudar-nos na desculpa de que não sabíamos.


(…) também sonha great again, (…) (171)

Todos ansiamos por um sonho que nos faça soerguer da nossa vida pequenina, cinzenta, entediante e uniformizadora do dia-a-dia. Por isso, os sonhos que mais nos atraem são os da Grandeza. Ou os da sua substituta menor que é a Fama – a deusa da qual Virgílio dizia que «mais veloz do que ela não existe outra desgraça» (Eneida, IV, 174)...

Quando aparece um político a acenar com esse sonho de Grandeza no deserto de sonhos em que vivemos hoje (o prazer e o entretenimento, ligados à pobreza do espaço público, secaram tudo), as pessoas sentem-se empolgadas. Porque se trata de algo que apela ao que cada um de nós tem de mais elevado e o une aos outros, o que nos faz sentir mais vivos.

Trata-se, claro, de um sonho irrealista e irrealizável: não há, nunca houve ninguém, nem nenhum país ou civilização que fosse verdadeiramente grande em todas as suas dimensões. Sim, nem Buda (com a sua desconfiança misógina), nem Cristo (com a sua intolerância com os vendedores ou com a figueira), embora ambos se tenham aproximado muito da verdadeira Grandeza. De países ou civilizações nem vale a pena falar.

O problema é que este sonho de Grandeza não é inofensivo, longe disso. Porque está indissoluvelmente associado ao que há de mais baixo. Porque o sonho da Grandeza só pode ser construído sobre a Pequenez dos outros. Se esta Pequenez não for natural e pacificamente aceite (e não o é nunca pois também eles têm os seus sonhos de Grandeza), terá de ser imposta à força. Com todo o cortejo de violência e crueldade que se lhe segue.

Não é um sonho bonito. E, infelizmente, as pessoas só demasiado tarde é que o descobrem.


Eis uma moral possível desta crónica:

Tudo o que separa, discrimina e subordina, tudo isto que tem a sua raiz no medo do outro, só serve para, na melhor das hipóteses, nos exilarmos na solidão mais estéril; na pior das hipóteses, para perdermos a amizade, a confiança, a justiça, a liberdade e, no fim, a vida (como a invasão da Ucrânia o comprova).


(…) Para já, o planeta mais próximo de nós parece ser Marte. (173)

Sim, já se pensa colonizar Marte. O que, neste momento, é no mínimo insólito. Desperdiçar recursos (naturais, humanos e financeiros) para transformar Marte numa nova Terra, quando com muitos menos gastos se conseguiria tornar o nosso planeta viável no presente e para as futuras gerações, temos de admitir que é francamente estúpido. Como também disse ao The Guardian Neil DeGrasse Tyson:

If you want to ship a billion people to Mars and have them live there as they are living on Earth, you’ll have to terraform Mars – and that means turning Mars into an oasis of some kind. If you have the power of geoengineering to terraform Mars into Earth, then you have the power of geoengineering to turn Earth back into Earth. So, the argument that if we trash Earth we need another planet doesn’t work. I am not convinced that escaping Earth and leaving others behind to die is the most sensible solution out there.


Façam o favor de pensar na viagem.


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 26

 


26 ~ O Memorial de Cervantes

Muito particular é a comunidade dos escritores.


Patrick [Deville] sabe, todos nós sabemos, que a transmissão dos livros, que sempre foi escassa, selectiva como uma guerra biológica darwiniana, em que só sobrevivem alguns – (…) (163)

 Contra esta guerra, acredito que podemos opor com sucesso a nossa fidelidade de leitores.


(…), como os nossos contemporâneos estão deixando de ser leitores de livros. (…) (163)

Estaremos mesmo a deixar de ler livros?

Sei que nos programas escolares se inclui a leitura de livros. Infelizmente, não para um simples prazer, mas para outra coisa qualquer: um relatório, uma apresentação, um teste ou exame. E, claro, retirando o hábito desse estímulo, dessa “recompensa”, qualquer ser humano tende a abandonar o comportamento correspondente.

Sei também que, em muitos cursos universitários, a leitura de livros não é minimamente estimulada, dando-se a preferência à leitura de artigos científicos. Na minha mais recente passagem pela Universidade, apenas uma disciplina de todo o curso incluía a obrigatoriedade de ler alguns livros. No entanto, a minha experiência é que essa restrição aos artigos académicos me levou à leitura de livros. Porquê? Porque estes se encontram escritos de forma muito mais interessante e atraente, além de até não se encontrarem tão desatualizados assim relativamente aos artigos.


Nova pergunta: a leitura de livros não terá sido sempre um apanágio somente de uns poucos?
O que penso é que a democratização da cultura criou expetativas muito elevadas nos agentes culturais. Ou seja, mais exatamente a expetativa de uma população que, no seu todo, lesse, estudasse, ouvisse música, fosse ao cinema, ao teatro, a museus, etc. Ora, na atualidade, dadas as brutais condições laborais e a expressiva quantidade de população que vive na pobreza, esperar isto não será um pouco menos, apenas um pouco menos do que utópico?
Aliás, pergunto-me se os intelectuais, sabendo disto, não se deveriam sentir mais motivados a uma intervenção cívica junto da sociedade. Como Lídia Jorge faz, por variados meios. E de que o presente livro é um bom exemplo. Contribuindo para a libertação do medo e das privações de que sofre muita gente, talvez deste modo acabassem por ser mais lidos...


(…) Mas Hubert Haddad, autor de um livro sobre o gueto de Varsóvia, escreveu-me na primeira página – Para si, por esta comunicação secreta. É essa comunicação secreta que nos une, (…) (163)

Lídia Jorge refere-se nesta crónica à comunicação entre escritores. No entanto, neste episódio específico, ponho a hipótese de que talvez Hubert Haddad a estivesse a ver principalmente como leitora. 

Na verdade, não sei como é entre escritores. O que sei é que também entre muitos leitores e escritores existe essa comunicação secreta que a ambos une indissoluvelmente até ao fim da vida. De tal modo, por exemplo, que às vezes suspeito que o meu último pensamento antes de morrer irá para alguma obra daquele escritor que está entretecido a toda a minha existência. Não, não é Lídia Jorge (que, não obstante e sem dúvida alguma, pertence há muito tempo ao meu panteão particular, juntamente com Albert Camus), mas sim Vergílio Ferreira (que me ensinou a ser, a ver, a sentir, a pensar, enfim, a ser pessoa inteira dentro do possível que eu fui sendo).

Esta comunidade também é feita de silêncios, de olhares, de sorrisos cúmplices. Muitas vezes, nós, os leitores, tentamos lançar palavras e, tal como no final de La Dolce Vita, de Fellini, perante o fracasso da comunicação, porque não se consegue perceber, recorremos a um sorriso longo e gentil (que, no filme, será talvez um dos mais belos sorrisos da história do cinema):



(…) Ele [Miguel de Cervantes] iluminou as Letras, mas quando o fez não sabia que nós o esperávamos sobre a Terra. (…) (165)

Hoje, a escritora sabe, e talvez não precise de imaginar, que uma extensa linhagem de leitores a espera, como quem aguarda e acolhe alguém muito chegado da família. Dessa forma, a escritora será para sempre mãe, irmã, filha e companheira não só de muitos contemporâneos como de futuros leitores.


(…) É o que diz de outra forma Patrick Deville.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 25

 

(Orgão de Boliqueime, foto tirada de | DIRETO | Festival Órgão Algarve´21 - Boliqueime)


25 ~ O Órgão de Boliqueime

Da última vez que passei por Leipzig ia acompanhada por um professor de música. (…)


(…) Aconteceu no ano de 1724 e como é costume dizer quando a alma fica cheia, nunca mais deixou de acontecer. (155)

Sim, fica sempre em nós esse rasto de que já falei a propósito da Literatura no comentário anterior. Bela maneira de colocar a questão.


Leio a história,

(...) história intensa e absoluta, uma história daquelas que iluminam qualquer entardecer (...) (157),

de Maria Inácia e porque

(…) a humanidade, como a História, é feita de pequenos mundos. (…) (159),

não consigo deixar de pensar em como nada nunca está suficientemente conquistado na nossa civilização. Quero eu dizer mais especificamente, nunca há tréguas na luta pela Dignidade inteira e indivisível de todos os seres humanos.

Como podem as pessoas, sem poder, nem dinheiro, nem prestígio, como Maria Inácia, não desanimar desse combate? A memória e a obstinação, ambas ao serviço da verdade, são as armas que todos temos à nossa disposição para fazer frente a quem quer que seja. Principalmente, àqueles que querem limitar a Liberdade, condição necessária e prévia à sobrevivência daquela Dignidade.


Esta crónica é talvez a mais comovente de todas neste livro. Aquela em que Lídia Jorge deixou as emoções extravasarem um pouco, para nosso deleite e inspiração. Mas, especialmente, pela desproporção de forças entre Maria Inácia e aqueles que tinham todo o poder e todos os meios para retirar dali o órgão.


É interessante ouvir esta crónica a ser dita pela própria Lídia Jorge, aqui, na RTP Play. Ou aqui, no Festival Órgão Algarve´21 - Boliqueime, a partir do minuto 9:25.


(…) então deve pedir-se ao organista Rúben Bárbara, quando vier de férias a Portugal, que no meio das sequências litúrgicas de louvor a Deus, dedique uma delas a uma figura anónima, profana, salvadora do órgão, e chame a essa peça, Salve, Maria Inácia, rainha de Boliqueime. Talvez os santos gostem e nós também.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 24

 


24 ~ O Signo da Brevidade

Dizem-me que estas crónicas não são verdadeiras crónicas porque têm contos na sua origem. (…)


Dizem, quem?, pergunto-me. Vêm-me ao espírito, vejo-os, alguns pelo menos, os puristas da língua, dos géneros literários, de tudo e mais alguma coisa, para quem nada é o que deveria ser, polícias implacáveis da vida diversa e inesgotável. Como eles me cansam, por vezes!


Uma crónica que é um verdadeiro hino ao conto, em que se conjuga a busca do seu sentido tanto pela racionalidade como pela poesia.


(…) essa harmonia entre início, fim e exaltação de sentido, tecidos sobre o signo da brevidade, era a cartilha que presidia ao conto. (150)

Bela definição do que é um conto! Leio-a e penso nos autores de contos que deixaram em mim um tão longo rasto que aí perdurarão sempre até ao fim da minha vida.

Lídia Jorge, claro. Tocam-me particularmente todos aqueles contos, e são muitos, em que as mulheres lutam pela sua dignidade face a um mundo adverso (que, às vezes, inclui também outras mulheres).

Vergílio Ferreira. O drama, a tragédia, mas também o humor, a poesia, a plenitude.

Ray Bradbury e Mia Couto. Tão diferentes, mas iguais na dor interior que me fazem sentir de estar tão longe ainda da sabedoria que eles revelam nos seus contos.

Somerset Maugham. Com os seus retratos desencantados embora, ao mesmo tempo, compassivos de uma humanidade imperfeita.

Jorge Luís Borges. A inteligência, a racionalidade, o mistério e a ironia.

Jack Schaeffer e Louis L’Amour. Duas escritas diferentes, mas a mesma fé inabalável na possibilidade de uma humanidade digna e com grandeza.

James Herriot. O humor e a ternura, envolvendo pessoas e animais.


(…) No fundo o que é preciso é que o sentido em parte se desvende e em parte nos resista, em parte fique a pairar, incompleto e breve, como um poema fica. (…) (152)

Isto (e ser tocado pela Beleza) é o que me atrai infatigavelmente para a Literatura, todos os dias da minha vida. Uma Literatura que interroga mais do que afirma. Que assume a inteligência do leitor, convidando-o a coconstruir o texto. Que mostra como na vida nem tudo é visto, nem tudo é explicado, nem sequer explicável. Propiciando encontros emocionais infindáveis entre o leitor, a escritora, as personagens, a paisagem, a época. Tudo isto cumprido de tal forma que vemos verdadeiramente, como diz Novalis citado por Lídia Jorge, que

Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido. (153)


E eu, gostarei de histórias? É uma coisa estranha, pois não sei contar histórias e conto muito poucas. Além de que a minha leitura preferida é o ensaio, não é a ficção (que, muitas vezes, acho pobre, previsível e demasiado violenta para a minha sensibilidade, tudo exatamente ao contrário do ensaio)).

Nunca soube contar histórias, nem escrevê-las, embora tivesse tentado durante muitos anos. Hoje, dedico-me a estas simples notas de rodapé; e a um ou outro poema. Mas o que me dói mais, olhando para trás, foi não ter sabido contar tantas histórias quantas o meu filho me pedia quando ele era pequenino.

Assim, para apaziguar o vazio e a dor inerentes à existência, a verdade é que não consigo passar sem histórias. No fundo, como todos nós. De as ler principalmente, pois é só na leitura que eu consigo ter o prazer de criar com a imaginação tudo o que a autora não nos transmitiu, pelo menos não explicitamente.


(…) Viciada no conto, como poderia conceber crónicas diferentes?


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...