sábado, 5 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 29

 


29 ~ O Novo Bestiário

Gostaria de conhecer pessoalmente Carl Safina, o ecologista que fala com os animais, que os ama profundamente e neles vê o espelho da Criação. (…)


(…) mas não achavam [os avós de Lídia Jorge] que o comportamento do porco fosse mais equilibrado do que o comportamento do meu avô e da minha avó, (…) (183)

Creio que esta opinião talvez não seja partilhada por todos os seres humanos, começando se calhar logo por Carl Safina (não sei porque não li nenhum livro dele). A verdade é que é comum citar (com variações) a frase, cuja origem exata se desconhece: Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos cães. O que não abona muito a favor das pessoas.

Porque razão isto acontece?

Lídia Jorge dá-nos uma pista ao dizer, e passo a citar um trecho desta crónica sobre o qual me debruçarei nos próximos parágrafos:

(…) O problema que eu colocaria a Carl Safina, (…), é se ele acha que para além da nossa amplitude intolerável, entre crueldade e compaixão, se ele acha que o homem é um animal entre os animais. (…) (183/4)

Esta constatação de Lídia Jorge é simultaneamente realista e justa.

Na verdade, nenhum animal (excetuando naturalmente os vírus e as bactérias, mas também ninguém considera estes “animais” quando se fala de animais) nem de longe espalhou, espalha ou espalhará tanta dor, tanto sofrimento e tanta morte a tantos seres vivos, incluindo os da sua própria espécie, como os seres humanos.

Mesmo o bem que os seres humanos fizeram foi, muitas vezes, à custa da dor e do sofrimento de outros seres vivos, quer para o presente, quer para o seu futuro.


Lídia Jorge também diz:

(…) Carl Safina respondeu – Nunca é tão difícil lidar com os animais como com as pessoas. (…)

Claro que tem toda a razão, Carl Safina. As pessoas são muito difíceis porque são como o próprio Carl Safina, pessoas. Isto é, animais complexos, e por isso mais imprevisíveis do que os outros animais. (…) (184)

Totalmente de acordo com Lídia Jorge. Acrescento mais uma razão relativamente simples: é que exigimos das pessoas (mesmo das crianças mais pequenas) uma complexidade que nem sequer jamais esperamos dos animais. Ora, a complexidade traz atrás de si, ou mesmo à frente, dificuldades de toda a ordem, não só para quem a exige, como também para quem dela é objeto.

Notemos, além disso, que os animais vivem em geral fechados no presente. Por isso, quando percebemos a sua lógica de funcionamento no seu ambiente natural, o seu comportamento torna-se previsível. Mas não muito. Aqui há igualmente que distinguir entre diferentes classes de animais. 

Por exemplo, os mamíferos são muitas vezes imprevisíveis (quando atacados podem responder indo à luta, fugindo, paralisando, submetendo-se ou ainda dissociando… tal como acontece, na verdade, com os humanos). O que talvez se possa dizer é que a amplitude (recorrendo a um termo usado por Lídia Jorge nesta crónica) de imprevisibilidade nos animais é menor do que no ser humano. Onde quero chegar com esta argumentação? À seguinte hipótese: as diferenças entre animais e seres humanos não são de natureza, mas simplesmente de grau.


Aliás, nesta crónica, Lídia Jorge refere diferenças entre seres humanos e animais. Tem razão. Nós possuímos um cérebro racional muito mais desenvolvido do que os animais (nestes, ele praticamente não existe ou é incipiente, tanto quanto sabemos). Este cérebro permite-nos recordar, ordenar e interpretar o passado; analisar e criticar o presente; idealizar e planear o futuro; e exprimir tudo isto através de uma linguagem que permite uma comunicação relativamente clara entre nós.

Trata-se de um cérebro desenvolvido, mas que é simultaneamente bastante fraco, já que é facilmente capturado pelo cérebro emocional, podendo até no extremo ser desligado, quando as emoções negativas são violentas. Isto acontece porque, provavelmente, nós não seremos o pico da evolução, ainda há muito por onde crescer e maturar nos próximos milhares ou milhões de anos (se entretanto não nos aniquilarmos).

Cérebro emocional, é preciso dizê-lo a todos os que nunca tiveram animais de companhia ou não os observaram devidamente, que temos em comum com os animais, nomeadamente com os mamíferos. Verdade seja dita que emoções negativas, um dos mecanismos básicos de sobrevivência aqui na Terra, temos em comum até com os répteis: medo, raiva, sofrimento, etc. 

De mais a mais, se olharmos menos para as diferenças entre os animais e nós, e mais para as semelhanças, a proximidade é gritante:

  • Em termos de hardware, e sem pretensão de esgotar a lista: dois olhos; dois ouvidos; quatro membros; um nariz com duas narinas que serve para cheirar e respirar com o respetivo sistema respiratório; uma boca com uma língua que serve para comer com o respetivo sistema digestivo, além de servir de alternativa ou de complemento ao nariz para respirar; um coração e respetivo sistema circulatório; e, mais primordialmente, um sistema nervoso; etc, etc, etc. 
  • Ao nível mental, isto é, de software se lhe quisermos chamar assim, os animais (principalmente os mamíferos) sofrem como os humanos de alegria, curiosidade, arrependimento, medo, raiva, tristeza, amor, etc, etc, etc.
    • lembro aqui a reação do cão de Saramago durante muitas horas após a morte do escritor tal como é contado por Pilar del Río em A Intuição da Ilha - Os Dias de José Saramago em Lanzarote, p. 91, Porto Editora: Quando José Saramago morreu, Camões, o único que lhe sobreviveu, apercebeu-se e chorou uma noite inteira. Eram uivos tremendos que ninguém podia consolar, ia pelos lugares do seu dono cheirando em vão, uivando, gritando desesperado.)


Portanto, dada esta proximidade (e não incluo aqui a proximidade genética - ver vídeo no final desta publicação), parece-me não ser abusivo concluir que o ser humano é um animal entre outros animais. No entanto, há algo sobre esta afirmação que me parece exigir um esclarecimento (que não é muito fácil de fazer, aliás).

São duas coisas diferentes: dizer que os animais são semelhantes a nós (do que eu discordo), ou dizer que somos semelhantes aos animais (no que eu concordo). Por outras palavras, não se trata de fazer os animais ascender ao estatuto de humanos (caindo no antropomorfismo, atribuindo características e comportamentos humanos em demasia aos animais), mas de os humanos não rejeitarem a sua herança animal (e de não caírem em nenhuma forma de antroponegação, que se refere à rejeição quer da existência nos animais de características semelhantes às nossas, quer da existência em nós de características semelhantes às que podem ser encontradas nos animais).

Na realidade, nós somos parecidos, não iguais aos animais, porque temos a capacidade de sermos muito melhores do que eles conseguem ser… e, infelizmente, também a capacidade de sermos muito piores do que eles conseguem ser.

Dizer que somos animais entre animais serve, assim, não para nos reduzir à condição inferior animal, mas para nos lembrar que somos parceiros de vida neste pequeno apartamento do Universo que se chama Terra. Por outras palavras, que eles não são coisas de que podemos dispor a nosso bel-prazer. Porque têm muitas características comuns com os seres humanos. Por exemplo, a coragem, a dignidade (por exemplo, face à morte), o afeto, a lealdade, etc., etc.

People sometimes describe nature as a dog-eat-dog world. (…) That’s totally wrong. I fought against that sort of characterization of animal society all my life, because just like human society, it is built on a lot of friendship and cooperation at the same time. We’d like to deny that connection that exists between us and animals. Certain tendencies, such as a sense of fairness, empathy, caring for others, helping others, following rules, punishing individuals who don’t follow the rules, all of these tendencies can be observed in other primates.

(in 95% of your behavior is primate behavior, Frans de Waal, biólogo e primatologista)


Lídia Jorge cita em (184) e (185) afirmações de outras pessoas que, perante as enormidades ditas, podemos apelidar no mínimo de radicalmente extremistas. O objetivo de Lídia Jorge é o de nos alertar para os riscos de exageros que podem advir da disseminação acrítica de comparações entre pessoas e animais, favoráveis a estes últimos. Mas estes exemplos servem também para apoiar a afirmação de Carl Safina de que o que as pessoas fazem, muitas vezes, não é lógico e é muito difícil de perceber. (184)

Aliás, ao ler a afirmação da ecologista que Lídia Jorge cita (feita aparentemente de raiva, azedume e ausência de compaixão), não pude deixar de me lembrar do célebre escrito de Jonathan Swift, publicado em 1729, A Modest Proposal - For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick (também publicado pela editora Antígona).

Foi um texto escrito com finalidade satírica, mas espelha de forma cristalina como a lógica humana pode ser completamente ilógica, quando privada de empatia e de bondade.

Lídia Jorge alerta-nos assim para os perigos de considerarmos cegamente as pessoas como animais, sem distinção alguma. 

Acrescento um exemplo: quando há animais a mais, chamamos praga a esse excesso e lidamos com ela optando pela sua eliminação pura e simples. É o que parece que a citada ecologista defende. O risco é, portanto, de ficarmos com a porta aberta à barbárie, ou seja, a sermos piores do que animais: todos nos recordamos como, ao chamar “baratas” aos tutsis do Ruanda ou ao apelidar os judeus de “vérmina”, isso conduziu facilmente ao horror e ao genocídio de milhões e milhões de seres humanos. Portanto, o alerta de Lídia Jorge faz todo o sentido.


(…) Sintetizando, há três hipóteses distintas – Primeira, somos um bicho, ponto final. Segunda, somos um bicho especial, ponto final. Terceira, não somos um bicho. Eu defendo que não somos um bicho. (…) (185)

Pessoalmente, eu defendo a segunda hipótese (sem ponto final, naturalmente, pois muito há a dizer sobre isto). Por várias razões já referidas, mas a que acrescentarei que ser também um bicho ou animal dá-me uma família mais alargada à qual me sinto orgulhoso de pertencer. E em que o ser "especial" me dá uma responsabilidade acrescida e, consequentemente, uma humanidade acrescida. 

Além disso, também me dá a esperança de que a Humanidade, com estas raízes, possa chegar a uma muito melhor versão de si mesma – com tanto que já caminhou até aqui, a Evolução que ainda não terminou abre perspetivas exaltantes para o futuro. 

Porque, e este é o ponto principal, aceitando a ideia de que somos também bichos ou animais, temos de aceitar a ideia de que a maldade não está de todo na nossa natureza mais profunda. E este é um pensamento bom.


Jane Goodall: Qu'est-ce que les humains font de mal? Que pouvons-nous apprendre des chimpanzés?


(...) Com a suspeita de que, com o professor de Nova Iorque, vou regressar ao mundo moderno dos meus avós, e sua quinta no meio de um bosque.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...