sábado, 12 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 30, c

 

(Foto tirada daqui)


(…) acumular mitos é progressivo e improvável que sejam desfeitos pela razão. (…) (191/2)

Sim, relendo o que escrevi até aqui, dou-me conta de que fica mais ou menos subentendido que não vale de grande coisa discutir com pessoas que defendem posições extremadas, pois elas não vão mudar.

Todavia, não defendo que nos calemos perante elas. Pelo contrário, devemos sempre defender o que nos parece justo e correto, mesmo com estas pessoas. Não necessariamente para convencer o nosso opositor, mas especialmente para convencer quem está a assistir à discussão e ainda não chegou a uma decisão bem fundamentada. 

Esta é uma das razões pela qual não devemos maltratar o nosso opositor, a fim de não fazer dele uma vítima capaz de congregar a simpatia dos indecisos. 

A outra razão é explicada por Jane Goodall no minuto 2:44 do vídeo que encerra a minha publicação anterior:

(…) se você começar a argumentar com alguém, se tiver opiniões diferentes, se discutir de uma forma ligeiramente agressiva, a outra pessoa pára de o ouvir porque fica tão ocupada a refutar o seu argumento que não o vai ouvir mais. (…)

Por isso, o resultado poderá ser o extremar das suas posições, se tentarmos esmagar de forma agressiva o nosso opositor com os nossos argumentos, não deixando nenhuma saída digna para ele.


Uma pergunta que ocorre fazer agora é a seguinte: que pessoas serão, então, aquelas ainda capazes de ouvir os nossos argumentos e de mudar de opinião? 

Provavelmente, as moderadas, ou seja, as que têm dúvidas, as que estão conscientes de que não sabem tudo sobre Salazar. 

Aliás, investigações têm comprovado que quanto mais intensos forem os sentimentos de certeza que temos sobre o nosso conhecimento de qualquer assunto, mais provável é ser grande a nossa ignorância acerca dele (Efeito Dunning-Kruger).

E que a intensidade deste sentimento de certeza cresce quanto mais conversarmos sobre esse tema com outras pessoas igualmente ignorantes. Este efeito psicossocial torna o problema ainda mais difícil de combater. 

Às vezes, pedir à pessoa para descrever detalhadamente como seria a vida do dia a dia sob um regime presidido por Salazar pode ajudar-nos a fazer perceber às pessoas como o seu apoio a Salazar se baseia em muito desconhecimento. É melhor isto do que fazer uma preleção, caso em que o outro pára de nos ouvir ao fim de alguns segundos.


Outra questão pertinente: junto de quem podemos defender intervenções a pensar em efeitos de longo prazo? Claro que a resposta é: as crianças e os jovens. E o lugar natural para o fazer é na escola, sítio onde eles passam a maior parte dos seus dias. Se possível, procurando envolver os pais.

O primeiro aspeto que salta ao espírito é a questão da coerência: se queremos que as crianças e os pais adotem valores democráticos e progressivos, então a sua vivência do dia a dia na escola tem de ser democrática e progressiva. Não é o que vemos acontecer.

É fácil de compreender que estilos autoritários na escola ajudam a criar uma base psicológica nas crianças para, mais tarde, se sentirem bem com regimes e personagens autoritários. Porque vemos isso acontecer na escola, se os documentos teóricos oficiais até apontam em sentido contrário? 

Primeiro, porque o modelo de gestão profissional dos professores concretizado pelo Governo é absolutamente autoritário: os professores nunca são consultados para nada, têm muito pouca autoridade, ao mesmo tempo que são sufocados até à exaustão pelos exames e pela burocracia (sabemos como a burocracia pesada e excessiva é um dos traços dominantes dos regimes ditatoriais). Assim, eles tendem a reproduzir com os outros a forma como são constantemente tratados pelas hierarquias.

Além disso, eles são sobrecarregados de tal forma com programas despropositadamente extensos, associados a burocracias infinitas e absurdas, que a prática democrática é submergida porque não há tempo para mais nada. Sim, porque todos sabemos e compreendemos que a prática da democracia exige mais tempo e mais esforços do que a do autoritarismo. Tempo esse que os professores pura e simplesmente não têm e que lhes é constantemente negado.

Penso que, portanto, na educação (mas, infelizmente, não só) estamos a falhar no apelo que o Papa Francisco faz na sua Carta Encíclica, Fratelli Tutti:

249. Hoje é fácil cair na tentação de voltar página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para diante. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa. Precisamos de manter «viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu», que assim «aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição» [Francisco, Mensagem para o 53º Dia Mundial da Paz de 2020 (8 de dezembro de 2019), 2: L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 17-24/XII/2019), 8.]. Precisam disso as próprias vítimas – indivíduos, grupos sociais ou nações – para não cederem à lógica que leva a justificar a represália e qualquer violência em nome do mal imenso que sofreram. Por isso, não me refiro só à memória dos horrores, mas também à recordação daqueles que, no meio dum contexto envenenado e corrupto, foram capazes de recuperar a dignidade e, com pequenos ou grandes gestos, optaram pela solidariedade, o perdão, a fraternidade. É muito salutar fazer memória do bem.

Sim, é uma responsabilidade com a qual todos nos devíamos comprometer: lembrarmos os horrores, nomeadamente os criados por Salazar; e lembrarmos quem lhes fez frente. Lídia Jorge fá-lo nos seus livros e na sua participação cívica e pública. Façamo-lo nós também.


(...) Sobre o assunto, poderei, quando muito, trocar umas ideias com um homem que não dispensa a liberdade, chamado Palhó.


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