sábado, 12 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 30, b

 


(…) Nessa mitologia criada pelo acumular do saudosismo mítico, pergunta-se – Como subverter esta falácia, destruí-la, pulverizá-la, senão pela invocação da verdade dos factos provados? (190)

Na verdade, este recurso ao confronto com os “factos provados” é genericamente ineficaz. As pessoas possuem um cérebro com um extraordinário arsenal de truques cognitivos para justificarem ou distorcerem ou simplesmente ignorarem aqueles factos. Além de que há sempre muita gente a fornecer os tão brilhantemente apelidados de “factos alternativos” para as pessoas poderem descartar os tais “factos provados”, sem um grama sequer de desconforto mental.


Isto não quer dizer que devamos desistir de informar ou de exigir dos órgãos de comunicação social e dos políticos que se atenham aos factos provados. Mas, mesmo assim, é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade, como este anúncio do jornal Folha de S.Paulo mostra de forma brilhante:


Portanto, estamos perante uma tarefa muito, muito difícil. Que outras respostas podemos encontrar à pergunta de Lídia Jorge?


Pessoalmente, quando procuro convencer alguém e o recurso aos factos não dá qualquer resultado, procuro não me enredar nos argumentos do meu interlocutor. 

Tento, então, conduzir a discussão para o plano dos valores, das convicções morais. Às vezes, muito se consegue com esta abordagem. Embora, diga-se de passagem, raramente no imediato da discussão, altura em que a pessoa está muito fechada a defender-se. No entanto, mais tarde, acontece muitas pessoas refletirem e acabarem por mudar de posição a fim de ficarem mais coerentes com os valores e a moral em que acreditam.

Assim, por exemplo, faz todo o sentido Lídia Jorge recordar em (191) como um autoritarismo incivilizado e abusivo fez parte integrante da prática política e governativa de Salazar.


E se a pessoa, mesmo assim, decide defender convictamente valores abomináveis?

Primeiro, começo por chamar-lhe a atenção para o facto de que a forma que ele defende de concretizar esses valores já foi tentada no passado da humanidade, em tempos bem mais bárbaros. E teve que ser mudada porque… simplesmente, não resultou!


E quando, muitas vezes, quem defende estes valores não o admite cruamente, mas argumenta que são necessários determinados sacrifícios para atingir um maior bem futuro?

Bom, face a esse argumento do futuro, baseado na fé e, por isso, sendo porventura irrespondível, eu sou taxativo: digo que não estou para ter conversas de comunista (se a discussão for com um neoliberal) nem de neoliberal (se for com um comunista). Porque ambos recorrem quase sempre a este argumento de contemporizar com barbaridades atuais em nome de um futuro que se promete radioso.

Infelizmente, futuro esse que a História nos tem demonstrado até à exaustão que nunca chega – retorno a José Mário Branco e ao seu FMI, escrito em Fevereiro de 1979, portanto há 43 anos

(12:52 – 13:11 e 13:28 – 13:32):

(…)

Não te chega para o cangalheiro?

Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir!

Cabrões de vindouros, hã?

Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe!

Pois, pá! 

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? 

Que é que eu ando aqui a fazer?

Digam lá, e eu? 

(…)

Eu sou parvo ou quê?

Quero ser feliz, porra!

Quero ser feliz agora!

(…)


Ambos, comunistas e neoliberais, costumam também socorrer-se de uma outra alegação desesperada: a sua teoria é perfeita e resultaria na perfeição, desde que aplicada de forma ideal. Ora, sabemos que essa forma ideal nunca é alcançada, porque somos humanos e imperfeitos. Logo, estamos aqui perante um sofisma. Digo-lhes isso precisamente.

E acrescento que essa alegação é uma utopia destrutiva, pois ela suscita, na verdade, a tentação de recorrer a meios coercivos e violentos para que as condições ideias se possam verificar. O que acaba invariavelmente por dar origem não à utopia, mas a regimes políticos sumamente abomináveis.


Finalmente, procuro introduzir com serenidade algumas dissonâncias que me parecem resultar da sua argumentação. 

Por exemplo, aqui traria o tema da guerra, de que Salazar era ardente defensor, recusando qualquer negociação que pudesse levar a um entendimento mutuamente satisfatório. Lembraria àqueles jovens (possivelmente defensores da paz) que, com Salazar e as suas guerras, eles poderiam morrer (tantos e tantos que morreram), ou ficarem (quase todos) estropiados física e mentalmente para o resto da vida. Ou lembraria aos mais velhos que poderiam ver acontecer o mesmo aos seus filhos, netos e sobrinhos.

Curiosamente, não posso deixar de reparar que muita gente se esquece de falar na guerra colonial, quando se fala de Salazar (ou no regime de antes do 25 de Abril). Na verdade, a direita não gosta de recordar a guerra colonial; e a esquerda, sempre à defesa, não toma a iniciativa de o fazer.

No entanto, o Papa Francisco chama a atenção para o que verdadeiramente representa a opção pela guerra (ao mesmo tempo dando-nos sugestões de como podemos abordar o assunto), na sua Carta Encíclica, Fratelli Tutti:

261. Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal. Não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contacto com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos. Voltemos o olhar para tantos civis massacrados como «danos colaterais». Interroguemos as vítimas. Prestemos atenção aos prófugos, àqueles que sofreram as radiações atómicas ou os ataques químicos, às mulheres que perderam os filhos, às crianças mutiladas ou privadas da sua infância. Consideremos a verdade destas vítimas da violência, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer o abismo do mal no coração da guerra, e não nos turvará o facto de nos tratarem como ingénuos porque escolhemos a paz.


(continua)


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