sábado, 12 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 30, a

 


30 ~ A Construção da História

Agora que eu passo a maior parte do tempo na casinha do bosque, a cidade mais próxima é Loulé, e o bar mais interessante de Loulé chama-se O Postigo. (…)


Vou dividir esta publicação em três partes, já que as interrogações com que Lídia Jorge nos inquieta suscitaram longos pensamentos da minha parte.


(…) Pelo contrário, [os jovens] mostram-se pacíficos, abertos, são desenvolvimentistas, amam o progresso e a tecnologia. Então por que razão admiram e se referem a Salazar como um mito galvanizador com que adornam as suas casas?

Por que razão? (189)

Vamos analisar algumas respostas a esta interrogação.


Primeiro, não há, nunca existe só uma razão. Nesta matéria, que joga com mitos e irracionalidade, nada é simples nem singular.


Segundo, concordo com a explicação avançada por Lídia Jorge: a tendência que temos para dourar o passado e envolvê-lo em formas e cores muito suaves, eliminando tudo o que perturba essa imagem. 

Porque o fazemos? Talvez, para obter um conforto fácil num mundo sentido como frio, indiferente, cruel e degenerado. Compreensível, face às características cada vez mais duras da nossa época atual. Sabemos bem como é muito mais árduo trabalharmos para mudarmos as coisas para melhor.


Terceiro, um “mito galvanizador” não se destrói com facilidade. Como Vergílio Ferreira largamente explicou em muitas das suas páginas. Ou Leon Festinger e a sua Teoria da Dissonância Cognitiva. Negam-se evidências, criam-se falsas memórias, e distorcem-se ou ignoram-se perceções e informação fiável e idónea. Tudo isto tendo como consequência a crença sair ainda mais reforçada.

Veja-se o exemplo do mito do comunismo, cujo efeito sedutor sobre milhões de pessoas (jovens e adultos) resistiu várias décadas a todos os factos que o desmentiam. 

Se calhar, perante esses mitos só podemos ter duas esperanças. Uma é a de conseguirmos evitar novos aderentes a estes mitos destruidores. A outra é a de conquistar para a razão e para a verdade pelo menos aqueles cujas convicções nesta matéria não são muito fortes. 

Em ambos os casos, ajuda muito ter um outro mito igualmente forte a oferecer para substituir o indesejável - é preciso trabalhar (falando nele sempre que pudermos e vivendo de acordo com ele) na sua manutenção (se ele já existe) e para criar um novo (se ainda não existe). Eu avanço já aqui um: os Direitos Humanos, a sua respetiva Declaração Universal e convenções subsidiárias (por exemplo, a Convenção sobre os Direitos da Criança).


Quarto, vamos à educação recebida em casa. A razão pode estar no facto de os pais destes jovens defenderem e estimarem Salazar e tudo o que ele representou. Ou não bem tudo, mas relativizando o negativo, como José Mário Branco interpretou de forma magnificamente sarcástica no seu famoso monólogo FMI:

(7:40 - 8:07)

(…) Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril!

Esta confusão, pá, a malta estava sossegadinha,

A bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa.

Tá bem, essa merda da PIDE, pá, Tarrafais e o carago.

Mas no fim de contas quem é que não colaborava, hã?

Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, hã?

Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, hã?

Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá!

Isto é tudo a mesma carneirada!

(…)

Há jovens que se identificam com esta visão do mundo que lhes foi transmitida pelos pais e pela família. Daí a simpatia por Salazar e pelo seu mito.

Mas, como não há nada que seja simples no que se refere ao ser humano, o processo pode ser exatamente o oposto deste. Jovens que foram educados com liberalidade insurgem-se, pelo processo da Reatância Psicológica, não querendo a mesma educação para os seus filhos, e adotando princípios e valores ligados a estilos mais autoritários de relação. Mais uma vez, conduzindo naturalmente ao mesmo resultado: a simpatia pelo mito de Salazar.

Claro que estas reações não abrangem a totalidade dos jovens. Haverá sempre muitos que decidem seguir o que os seus pais defendem, seja o elogio a Salazar, seja a sua condenação. E muitos que, por si sós, interessando-se pelos factos históricos, rejeitam esse mito.


(continua)


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