31 ~ A Outra Face da Lua
As coisas passaram-se assim – Estávamos no Inverno de 2014 quando vários moradores da Avenida de Roma foram alertados para o projecto de venda e extermínio do Cinema Londres. (…) (194)
Sim, muitas pessoas desistiram dos cinemas.
Tive a experiência, durante vários anos, de salas quase vazias. E, algumas vezes, até de o gerente me vir pedir para sair (com a restituição do preço do bilhete) porque era o único espetador presente na sala.
Às vezes perdemos coisas (e pessoas também) porque não cuidámos devidamente delas. Depois, quando elas desaparecem da nossa vida, deixam um vazio e uma mágoa que não passam (mesmo quando interiormente conseguimos despedirmo-nos delas).
(…) Nós que não arriscávamos nenhum dinheiro, nenhum património, (…) (194)
Para além do que Lídia Jorge quer dizer nesta crónica, eu avanço o pensamento seguinte: não será que o valor que realmente damos a uma causa mede-se também pelo que estamos dispostos a arriscar por ela? Assim: o que é que eu estou disposto a arriscar neste momento por esta causa?
Esta foi a questão que se me levantou quando os professores corriam o risco de incorrer num processo disciplinar por desobedecer a ordens diretas do governo de José Sócrates; nomeadamente, ao não entregar a primeira fase do processo de avaliação competitiva que ele impôs. Acabei por decidir não entregar. Aquilo por que eu lutava valia esse risco.
Na altura, a minha autoestima estava muito baixa e, quando fui avisado de que se me iria abrir um processo (acho que de averiguações, já não me lembro), achei que não teria forças para lhe fazer frente (principalmente, porque a esmagadora maioria dos professores entregou, tendo desistido da luta, pelo que me senti muito sozinho e perdido). Decidi, então, vir-me embora e começar uma nova vida do princípio, isto é, decidi tentar conseguir uma vida mais digna e mais humana. Sim, penso muitas vezes nas professoras e professores que ficaram. Porque, quando se desiste da luta, está-se perdido.
(…) Não se conseguiria nada. O Londres foi vendido (…) (195)
É o resultado mais comum das nossas lutas. E não nos devemos desiludir demasiadamente quando isso acontece. Aqui talvez haja uma interrogação importante a fazer:
Qual a força dos cidadãos comuns perante o poder político e económico – especialmente quando ambos coincidem (o que acontece excessivas vezes para a saúde da democracia) e têm à sua frente a polícia e a GNR a apoiá-los?
Resposta: Apenas e unicamente aquela força que o dito poder permite ter, nem mais uma gota.
Suspeitei disso com as manifestações inúteis de milhões de pessoas em todo o planeta contra o início da 2ª Guerra do Iraque. Aprendi definitivamente com as manifestações inúteis de milhares e milhares de professores contra a avaliação competitiva.
Em ambos os casos, o tempo tem vindo a dar razão às pessoas que se manifestaram (na verdade, infelizmente, dado o sofrimento que se causou e continua a causar). Mas o poder claramente ganhou o que queria.
Não quer isto dizer que não devamos tentar lutar. Às vezes, aquele poder tem fracturas, ou seja, não é absolutamente monolítico. Outras vezes, a vitória do poder é uma vitória de Pirro, isto é, pode acabar por constituir a antecâmara da sua derrota (ainda que tal coisa possa levar anos).
(…) um saco de lembranças construtoras que em vez de terem ficado nas costas, levamos adiante iluminando a vida que está por vir. (…) (196)
Lídia Jorge formula na perfeição este tema das memórias magoadas que todos nós transportamos connosco.
A ideia é não olharmos excessivamente para trás, pois não é para esse lado que queremos ir (ou, aliás, que não é na realidade para onde estamos mesmo a ir, quer queiramos quer não). É preferível, como Lídia Jorge sugere, que as nossas lembranças, para serem construtoras, iluminem o caminho que vamos criando no nosso dia a dia.
(…) Por isso, ecléctico, filósofo, leitor de ficção e de poesia, Betâmio de Almeida apela aos grupos da ética e do direito, aos políticos, cientistas e engenheiros, para interpretarem bem os desejos da humanidade em vez de criarem necessidades que lhes são adversas. Betâmio é um recuperador da esperança. (…) (199)
Perfeito. Que eles possam interpretar os desejos da humanidade a partir de uma estrutura humanista e em função dos interesses mais autênticos desta. Não em função de interesses económicos e políticos, talvez bons no imediato para uma minoria, mas destrutivos para todos, pelo menos no médio e longo prazo. Ah, e não esquecendo nunca o papel central que os economistas desempenham nestas matérias.
Uma nota: o professor doutor Betâmio de Almeida foi o meu mestre na disciplina de Hidráulica no Instituto Superior Técnico, no início dos anos 80 do século passado. Já me esqueci de muitos professores dessa altura, mas do professor Betâmio lembro-me bem, nomeadamente da sua forma tranquila e clara de dar as suas aulas.
(…), fomos assistindo em directo ao desastre. (…)
(…) um projecto que perdemos, perdeu a comunidade inteira, (…) (195)
Sim, esta é a crónica de uma luta. É também sobre a derrota de uma comunidade. Que pode ter trazido lições individuais, umas construtivas (por exemplo, Lídia Jorge fala-nos destas, no seu caso pessoal), outras destrutivas (provavelmente, seriam as que eu tiraria, dado o meu pessimismo no pensamento, embora não tanto na ação).
Não sabemos se teve consequências construtivas para a comunidade. Por exemplo, com o saber adquirido, pode ter dado origem à organização de novos grupos comunitários para a preservação do que tem valor e não tem preço, contra a fúria destruidora dos diferentes poderes.
Ou, como sucedeu a Lídia Jorge, pelo menos talvez se salvem alguns relacionamentos. Será suficiente? Talvez não, mas já é muito bom.
(...) Tenho para mim que o seu equilíbrio resulta do saber hidráulico.
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