quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 31

 

(Imagem tirada de FLAN Colectivo)


31 ~ A Outra Face da Lua

As coisas passaram-se assim – Estávamos no Inverno de 2014 quando vários moradores da Avenida de Roma foram alertados para o projecto de venda e extermínio do Cinema Londres. (…) (194)


Sim, muitas pessoas desistiram dos cinemas.

Tive a experiência, durante vários anos, de salas quase vazias. E, algumas vezes, até de o gerente me vir pedir para sair (com a restituição do preço do bilhete) porque era o único espetador presente na sala.

Às vezes perdemos coisas (e pessoas também) porque não cuidámos devidamente delas. Depois, quando elas desaparecem da nossa vida, deixam um vazio e uma mágoa que não passam (mesmo quando interiormente conseguimos despedirmo-nos delas).


(…) Nós que não arriscávamos nenhum dinheiro, nenhum património, (…) (194)

Para além do que Lídia Jorge quer dizer nesta crónica, eu avanço o pensamento seguinte: não será que o valor que realmente damos a uma causa mede-se também pelo que estamos dispostos a arriscar por ela? Assim: o que é que eu estou disposto a arriscar neste momento por esta causa?

Esta foi a questão que se me levantou quando os professores corriam o risco de incorrer num processo disciplinar por desobedecer a ordens diretas do governo de José Sócrates; nomeadamente, ao não entregar a primeira fase do processo de avaliação competitiva que ele impôs. Acabei por decidir não entregar. Aquilo por que eu lutava valia esse risco.

Na altura, a minha autoestima estava muito baixa e, quando fui avisado de que se me iria abrir um processo (acho que de averiguações, já não me lembro), achei que não teria forças para lhe fazer frente (principalmente, porque a esmagadora maioria dos professores entregou, tendo desistido da luta, pelo que me senti muito sozinho e perdido). Decidi, então, vir-me embora e começar uma nova vida do princípio, isto é, decidi tentar conseguir uma vida mais digna e mais humana. Sim, penso muitas vezes nas professoras e professores que ficaram. Porque, quando se desiste da luta, está-se perdido.


(…) Não se conseguiria nada. O Londres foi vendido (…) (195)

É o resultado mais comum das nossas lutas. E não nos devemos desiludir demasiadamente quando isso acontece. Aqui talvez haja uma interrogação importante a fazer:

Qual a força dos cidadãos comuns perante o poder político e económico – especialmente quando ambos coincidem (o que acontece excessivas vezes para a saúde da democracia) e têm à sua frente a polícia e a GNR a apoiá-los?

Resposta: Apenas e unicamente aquela força que o dito poder permite ter, nem mais uma gota.

Suspeitei disso com as manifestações inúteis de milhões de pessoas em todo o planeta contra o início da 2ª Guerra do Iraque. Aprendi definitivamente com as manifestações inúteis de milhares e milhares de professores contra a avaliação competitiva. 

Em ambos os casos, o tempo tem vindo a dar razão às pessoas que se manifestaram (na verdade, infelizmente, dado o sofrimento que se causou e continua a causar). Mas o poder claramente ganhou o que queria.

Não quer isto dizer que não devamos tentar lutar. Às vezes, aquele poder tem fracturas, ou seja, não é absolutamente monolítico. Outras vezes, a vitória do poder é uma vitória de Pirro, isto é, pode acabar por constituir a antecâmara da sua derrota (ainda que tal coisa possa levar anos).


(…) um saco de lembranças construtoras que em vez de terem ficado nas costas, levamos adiante iluminando a vida que está por vir. (…) (196)

Lídia Jorge formula na perfeição este tema das memórias magoadas que todos nós transportamos connosco. 

A ideia é não olharmos excessivamente para trás, pois não é para esse lado que queremos ir (ou, aliás, que não é na realidade para onde estamos mesmo a ir, quer queiramos quer não). É preferível, como Lídia Jorge sugere, que as nossas lembranças, para serem construtoras, iluminem o caminho que vamos criando no nosso dia a dia.


(…) Por isso, ecléctico, filósofo, leitor de ficção e de poesia, Betâmio de Almeida apela aos grupos da ética e do direito, aos políticos, cientistas e engenheiros, para interpretarem bem os desejos da humanidade em vez de criarem necessidades que lhes são adversas. Betâmio é um recuperador da esperança. (…) (199)

Perfeito. Que eles possam interpretar os desejos da humanidade a partir de uma estrutura humanista e em função dos interesses mais autênticos desta. Não em função de interesses económicos e políticos, talvez bons no imediato para uma minoria, mas destrutivos para todos, pelo menos no médio e longo prazo. Ah, e não esquecendo nunca o papel central que os economistas desempenham nestas matérias.

Uma nota: o professor doutor Betâmio de Almeida foi o meu mestre na disciplina de Hidráulica no Instituto Superior Técnico, no início dos anos 80 do século passado. Já me esqueci de muitos professores dessa altura, mas do professor Betâmio lembro-me bem, nomeadamente da sua forma tranquila e clara de dar as suas aulas.


(…), fomos assistindo em directo ao desastre. (…) 

(…) um projecto que perdemos, perdeu a comunidade inteira, (…) (195)

Sim, esta é a crónica de uma luta. É também sobre a derrota de uma comunidade. Que pode ter trazido lições individuais, umas construtivas (por exemplo, Lídia Jorge fala-nos destas, no seu caso pessoal), outras destrutivas (provavelmente, seriam as que eu tiraria, dado o meu pessimismo no pensamento, embora não tanto na ação).

Não sabemos se teve consequências construtivas para a comunidade. Por exemplo, com o saber adquirido, pode ter dado origem à organização de novos grupos comunitários para a preservação do que tem valor e não tem preço, contra a fúria destruidora dos diferentes poderes.

Ou, como sucedeu a Lídia Jorge, pelo menos talvez se salvem alguns relacionamentos. Será suficiente? Talvez não, mas já é muito bom.


(...) Tenho para mim que o seu equilíbrio resulta do saber hidráulico.


sábado, 12 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 30, a

 


30 ~ A Construção da História

Agora que eu passo a maior parte do tempo na casinha do bosque, a cidade mais próxima é Loulé, e o bar mais interessante de Loulé chama-se O Postigo. (…)


Vou dividir esta publicação em três partes, já que as interrogações com que Lídia Jorge nos inquieta suscitaram longos pensamentos da minha parte.


(…) Pelo contrário, [os jovens] mostram-se pacíficos, abertos, são desenvolvimentistas, amam o progresso e a tecnologia. Então por que razão admiram e se referem a Salazar como um mito galvanizador com que adornam as suas casas?

Por que razão? (189)

Vamos analisar algumas respostas a esta interrogação.


Primeiro, não há, nunca existe só uma razão. Nesta matéria, que joga com mitos e irracionalidade, nada é simples nem singular.


Segundo, concordo com a explicação avançada por Lídia Jorge: a tendência que temos para dourar o passado e envolvê-lo em formas e cores muito suaves, eliminando tudo o que perturba essa imagem. 

Porque o fazemos? Talvez, para obter um conforto fácil num mundo sentido como frio, indiferente, cruel e degenerado. Compreensível, face às características cada vez mais duras da nossa época atual. Sabemos bem como é muito mais árduo trabalharmos para mudarmos as coisas para melhor.


Terceiro, um “mito galvanizador” não se destrói com facilidade. Como Vergílio Ferreira largamente explicou em muitas das suas páginas. Ou Leon Festinger e a sua Teoria da Dissonância Cognitiva. Negam-se evidências, criam-se falsas memórias, e distorcem-se ou ignoram-se perceções e informação fiável e idónea. Tudo isto tendo como consequência a crença sair ainda mais reforçada.

Veja-se o exemplo do mito do comunismo, cujo efeito sedutor sobre milhões de pessoas (jovens e adultos) resistiu várias décadas a todos os factos que o desmentiam. 

Se calhar, perante esses mitos só podemos ter duas esperanças. Uma é a de conseguirmos evitar novos aderentes a estes mitos destruidores. A outra é a de conquistar para a razão e para a verdade pelo menos aqueles cujas convicções nesta matéria não são muito fortes. 

Em ambos os casos, ajuda muito ter um outro mito igualmente forte a oferecer para substituir o indesejável - é preciso trabalhar (falando nele sempre que pudermos e vivendo de acordo com ele) na sua manutenção (se ele já existe) e para criar um novo (se ainda não existe). Eu avanço já aqui um: os Direitos Humanos, a sua respetiva Declaração Universal e convenções subsidiárias (por exemplo, a Convenção sobre os Direitos da Criança).


Quarto, vamos à educação recebida em casa. A razão pode estar no facto de os pais destes jovens defenderem e estimarem Salazar e tudo o que ele representou. Ou não bem tudo, mas relativizando o negativo, como José Mário Branco interpretou de forma magnificamente sarcástica no seu famoso monólogo FMI:

(7:40 - 8:07)

(…) Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril!

Esta confusão, pá, a malta estava sossegadinha,

A bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa.

Tá bem, essa merda da PIDE, pá, Tarrafais e o carago.

Mas no fim de contas quem é que não colaborava, hã?

Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, hã?

Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, hã?

Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá!

Isto é tudo a mesma carneirada!

(…)

Há jovens que se identificam com esta visão do mundo que lhes foi transmitida pelos pais e pela família. Daí a simpatia por Salazar e pelo seu mito.

Mas, como não há nada que seja simples no que se refere ao ser humano, o processo pode ser exatamente o oposto deste. Jovens que foram educados com liberalidade insurgem-se, pelo processo da Reatância Psicológica, não querendo a mesma educação para os seus filhos, e adotando princípios e valores ligados a estilos mais autoritários de relação. Mais uma vez, conduzindo naturalmente ao mesmo resultado: a simpatia pelo mito de Salazar.

Claro que estas reações não abrangem a totalidade dos jovens. Haverá sempre muitos que decidem seguir o que os seus pais defendem, seja o elogio a Salazar, seja a sua condenação. E muitos que, por si sós, interessando-se pelos factos históricos, rejeitam esse mito.


(continua)


Em Todos os Sentidos - 30, b

 


(…) Nessa mitologia criada pelo acumular do saudosismo mítico, pergunta-se – Como subverter esta falácia, destruí-la, pulverizá-la, senão pela invocação da verdade dos factos provados? (190)

Na verdade, este recurso ao confronto com os “factos provados” é genericamente ineficaz. As pessoas possuem um cérebro com um extraordinário arsenal de truques cognitivos para justificarem ou distorcerem ou simplesmente ignorarem aqueles factos. Além de que há sempre muita gente a fornecer os tão brilhantemente apelidados de “factos alternativos” para as pessoas poderem descartar os tais “factos provados”, sem um grama sequer de desconforto mental.


Isto não quer dizer que devamos desistir de informar ou de exigir dos órgãos de comunicação social e dos políticos que se atenham aos factos provados. Mas, mesmo assim, é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade, como este anúncio do jornal Folha de S.Paulo mostra de forma brilhante:


Portanto, estamos perante uma tarefa muito, muito difícil. Que outras respostas podemos encontrar à pergunta de Lídia Jorge?


Pessoalmente, quando procuro convencer alguém e o recurso aos factos não dá qualquer resultado, procuro não me enredar nos argumentos do meu interlocutor. 

Tento, então, conduzir a discussão para o plano dos valores, das convicções morais. Às vezes, muito se consegue com esta abordagem. Embora, diga-se de passagem, raramente no imediato da discussão, altura em que a pessoa está muito fechada a defender-se. No entanto, mais tarde, acontece muitas pessoas refletirem e acabarem por mudar de posição a fim de ficarem mais coerentes com os valores e a moral em que acreditam.

Assim, por exemplo, faz todo o sentido Lídia Jorge recordar em (191) como um autoritarismo incivilizado e abusivo fez parte integrante da prática política e governativa de Salazar.


E se a pessoa, mesmo assim, decide defender convictamente valores abomináveis?

Primeiro, começo por chamar-lhe a atenção para o facto de que a forma que ele defende de concretizar esses valores já foi tentada no passado da humanidade, em tempos bem mais bárbaros. E teve que ser mudada porque… simplesmente, não resultou!


E quando, muitas vezes, quem defende estes valores não o admite cruamente, mas argumenta que são necessários determinados sacrifícios para atingir um maior bem futuro?

Bom, face a esse argumento do futuro, baseado na fé e, por isso, sendo porventura irrespondível, eu sou taxativo: digo que não estou para ter conversas de comunista (se a discussão for com um neoliberal) nem de neoliberal (se for com um comunista). Porque ambos recorrem quase sempre a este argumento de contemporizar com barbaridades atuais em nome de um futuro que se promete radioso.

Infelizmente, futuro esse que a História nos tem demonstrado até à exaustão que nunca chega – retorno a José Mário Branco e ao seu FMI, escrito em Fevereiro de 1979, portanto há 43 anos

(12:52 – 13:11 e 13:28 – 13:32):

(…)

Não te chega para o cangalheiro?

Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir!

Cabrões de vindouros, hã?

Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe!

Pois, pá! 

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? 

Que é que eu ando aqui a fazer?

Digam lá, e eu? 

(…)

Eu sou parvo ou quê?

Quero ser feliz, porra!

Quero ser feliz agora!

(…)


Ambos, comunistas e neoliberais, costumam também socorrer-se de uma outra alegação desesperada: a sua teoria é perfeita e resultaria na perfeição, desde que aplicada de forma ideal. Ora, sabemos que essa forma ideal nunca é alcançada, porque somos humanos e imperfeitos. Logo, estamos aqui perante um sofisma. Digo-lhes isso precisamente.

E acrescento que essa alegação é uma utopia destrutiva, pois ela suscita, na verdade, a tentação de recorrer a meios coercivos e violentos para que as condições ideias se possam verificar. O que acaba invariavelmente por dar origem não à utopia, mas a regimes políticos sumamente abomináveis.


Finalmente, procuro introduzir com serenidade algumas dissonâncias que me parecem resultar da sua argumentação. 

Por exemplo, aqui traria o tema da guerra, de que Salazar era ardente defensor, recusando qualquer negociação que pudesse levar a um entendimento mutuamente satisfatório. Lembraria àqueles jovens (possivelmente defensores da paz) que, com Salazar e as suas guerras, eles poderiam morrer (tantos e tantos que morreram), ou ficarem (quase todos) estropiados física e mentalmente para o resto da vida. Ou lembraria aos mais velhos que poderiam ver acontecer o mesmo aos seus filhos, netos e sobrinhos.

Curiosamente, não posso deixar de reparar que muita gente se esquece de falar na guerra colonial, quando se fala de Salazar (ou no regime de antes do 25 de Abril). Na verdade, a direita não gosta de recordar a guerra colonial; e a esquerda, sempre à defesa, não toma a iniciativa de o fazer.

No entanto, o Papa Francisco chama a atenção para o que verdadeiramente representa a opção pela guerra (ao mesmo tempo dando-nos sugestões de como podemos abordar o assunto), na sua Carta Encíclica, Fratelli Tutti:

261. Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal. Não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contacto com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos. Voltemos o olhar para tantos civis massacrados como «danos colaterais». Interroguemos as vítimas. Prestemos atenção aos prófugos, àqueles que sofreram as radiações atómicas ou os ataques químicos, às mulheres que perderam os filhos, às crianças mutiladas ou privadas da sua infância. Consideremos a verdade destas vítimas da violência, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer o abismo do mal no coração da guerra, e não nos turvará o facto de nos tratarem como ingénuos porque escolhemos a paz.


(continua)


Em Todos os Sentidos - 30, c

 

(Foto tirada daqui)


(…) acumular mitos é progressivo e improvável que sejam desfeitos pela razão. (…) (191/2)

Sim, relendo o que escrevi até aqui, dou-me conta de que fica mais ou menos subentendido que não vale de grande coisa discutir com pessoas que defendem posições extremadas, pois elas não vão mudar.

Todavia, não defendo que nos calemos perante elas. Pelo contrário, devemos sempre defender o que nos parece justo e correto, mesmo com estas pessoas. Não necessariamente para convencer o nosso opositor, mas especialmente para convencer quem está a assistir à discussão e ainda não chegou a uma decisão bem fundamentada. 

Esta é uma das razões pela qual não devemos maltratar o nosso opositor, a fim de não fazer dele uma vítima capaz de congregar a simpatia dos indecisos. 

A outra razão é explicada por Jane Goodall no minuto 2:44 do vídeo que encerra a minha publicação anterior:

(…) se você começar a argumentar com alguém, se tiver opiniões diferentes, se discutir de uma forma ligeiramente agressiva, a outra pessoa pára de o ouvir porque fica tão ocupada a refutar o seu argumento que não o vai ouvir mais. (…)

Por isso, o resultado poderá ser o extremar das suas posições, se tentarmos esmagar de forma agressiva o nosso opositor com os nossos argumentos, não deixando nenhuma saída digna para ele.


Uma pergunta que ocorre fazer agora é a seguinte: que pessoas serão, então, aquelas ainda capazes de ouvir os nossos argumentos e de mudar de opinião? 

Provavelmente, as moderadas, ou seja, as que têm dúvidas, as que estão conscientes de que não sabem tudo sobre Salazar. 

Aliás, investigações têm comprovado que quanto mais intensos forem os sentimentos de certeza que temos sobre o nosso conhecimento de qualquer assunto, mais provável é ser grande a nossa ignorância acerca dele (Efeito Dunning-Kruger).

E que a intensidade deste sentimento de certeza cresce quanto mais conversarmos sobre esse tema com outras pessoas igualmente ignorantes. Este efeito psicossocial torna o problema ainda mais difícil de combater. 

Às vezes, pedir à pessoa para descrever detalhadamente como seria a vida do dia a dia sob um regime presidido por Salazar pode ajudar-nos a fazer perceber às pessoas como o seu apoio a Salazar se baseia em muito desconhecimento. É melhor isto do que fazer uma preleção, caso em que o outro pára de nos ouvir ao fim de alguns segundos.


Outra questão pertinente: junto de quem podemos defender intervenções a pensar em efeitos de longo prazo? Claro que a resposta é: as crianças e os jovens. E o lugar natural para o fazer é na escola, sítio onde eles passam a maior parte dos seus dias. Se possível, procurando envolver os pais.

O primeiro aspeto que salta ao espírito é a questão da coerência: se queremos que as crianças e os pais adotem valores democráticos e progressivos, então a sua vivência do dia a dia na escola tem de ser democrática e progressiva. Não é o que vemos acontecer.

É fácil de compreender que estilos autoritários na escola ajudam a criar uma base psicológica nas crianças para, mais tarde, se sentirem bem com regimes e personagens autoritários. Porque vemos isso acontecer na escola, se os documentos teóricos oficiais até apontam em sentido contrário? 

Primeiro, porque o modelo de gestão profissional dos professores concretizado pelo Governo é absolutamente autoritário: os professores nunca são consultados para nada, têm muito pouca autoridade, ao mesmo tempo que são sufocados até à exaustão pelos exames e pela burocracia (sabemos como a burocracia pesada e excessiva é um dos traços dominantes dos regimes ditatoriais). Assim, eles tendem a reproduzir com os outros a forma como são constantemente tratados pelas hierarquias.

Além disso, eles são sobrecarregados de tal forma com programas despropositadamente extensos, associados a burocracias infinitas e absurdas, que a prática democrática é submergida porque não há tempo para mais nada. Sim, porque todos sabemos e compreendemos que a prática da democracia exige mais tempo e mais esforços do que a do autoritarismo. Tempo esse que os professores pura e simplesmente não têm e que lhes é constantemente negado.

Penso que, portanto, na educação (mas, infelizmente, não só) estamos a falhar no apelo que o Papa Francisco faz na sua Carta Encíclica, Fratelli Tutti:

249. Hoje é fácil cair na tentação de voltar página, dizendo que já passou muito tempo e é preciso olhar para diante. Isso não, por amor de Deus! Sem memória, nunca se avança; não se evolui sem uma memória íntegra e luminosa. Precisamos de manter «viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu», que assim «aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição» [Francisco, Mensagem para o 53º Dia Mundial da Paz de 2020 (8 de dezembro de 2019), 2: L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 17-24/XII/2019), 8.]. Precisam disso as próprias vítimas – indivíduos, grupos sociais ou nações – para não cederem à lógica que leva a justificar a represália e qualquer violência em nome do mal imenso que sofreram. Por isso, não me refiro só à memória dos horrores, mas também à recordação daqueles que, no meio dum contexto envenenado e corrupto, foram capazes de recuperar a dignidade e, com pequenos ou grandes gestos, optaram pela solidariedade, o perdão, a fraternidade. É muito salutar fazer memória do bem.

Sim, é uma responsabilidade com a qual todos nos devíamos comprometer: lembrarmos os horrores, nomeadamente os criados por Salazar; e lembrarmos quem lhes fez frente. Lídia Jorge fá-lo nos seus livros e na sua participação cívica e pública. Façamo-lo nós também.


(...) Sobre o assunto, poderei, quando muito, trocar umas ideias com um homem que não dispensa a liberdade, chamado Palhó.


sábado, 5 de novembro de 2022

Em Todos os Sentidos - 29

 


29 ~ O Novo Bestiário

Gostaria de conhecer pessoalmente Carl Safina, o ecologista que fala com os animais, que os ama profundamente e neles vê o espelho da Criação. (…)


(…) mas não achavam [os avós de Lídia Jorge] que o comportamento do porco fosse mais equilibrado do que o comportamento do meu avô e da minha avó, (…) (183)

Creio que esta opinião talvez não seja partilhada por todos os seres humanos, começando se calhar logo por Carl Safina (não sei porque não li nenhum livro dele). A verdade é que é comum citar (com variações) a frase, cuja origem exata se desconhece: Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos cães. O que não abona muito a favor das pessoas.

Porque razão isto acontece?

Lídia Jorge dá-nos uma pista ao dizer, e passo a citar um trecho desta crónica sobre o qual me debruçarei nos próximos parágrafos:

(…) O problema que eu colocaria a Carl Safina, (…), é se ele acha que para além da nossa amplitude intolerável, entre crueldade e compaixão, se ele acha que o homem é um animal entre os animais. (…) (183/4)

Esta constatação de Lídia Jorge é simultaneamente realista e justa.

Na verdade, nenhum animal (excetuando naturalmente os vírus e as bactérias, mas também ninguém considera estes “animais” quando se fala de animais) nem de longe espalhou, espalha ou espalhará tanta dor, tanto sofrimento e tanta morte a tantos seres vivos, incluindo os da sua própria espécie, como os seres humanos.

Mesmo o bem que os seres humanos fizeram foi, muitas vezes, à custa da dor e do sofrimento de outros seres vivos, quer para o presente, quer para o seu futuro.


Lídia Jorge também diz:

(…) Carl Safina respondeu – Nunca é tão difícil lidar com os animais como com as pessoas. (…)

Claro que tem toda a razão, Carl Safina. As pessoas são muito difíceis porque são como o próprio Carl Safina, pessoas. Isto é, animais complexos, e por isso mais imprevisíveis do que os outros animais. (…) (184)

Totalmente de acordo com Lídia Jorge. Acrescento mais uma razão relativamente simples: é que exigimos das pessoas (mesmo das crianças mais pequenas) uma complexidade que nem sequer jamais esperamos dos animais. Ora, a complexidade traz atrás de si, ou mesmo à frente, dificuldades de toda a ordem, não só para quem a exige, como também para quem dela é objeto.

Notemos, além disso, que os animais vivem em geral fechados no presente. Por isso, quando percebemos a sua lógica de funcionamento no seu ambiente natural, o seu comportamento torna-se previsível. Mas não muito. Aqui há igualmente que distinguir entre diferentes classes de animais. 

Por exemplo, os mamíferos são muitas vezes imprevisíveis (quando atacados podem responder indo à luta, fugindo, paralisando, submetendo-se ou ainda dissociando… tal como acontece, na verdade, com os humanos). O que talvez se possa dizer é que a amplitude (recorrendo a um termo usado por Lídia Jorge nesta crónica) de imprevisibilidade nos animais é menor do que no ser humano. Onde quero chegar com esta argumentação? À seguinte hipótese: as diferenças entre animais e seres humanos não são de natureza, mas simplesmente de grau.


Aliás, nesta crónica, Lídia Jorge refere diferenças entre seres humanos e animais. Tem razão. Nós possuímos um cérebro racional muito mais desenvolvido do que os animais (nestes, ele praticamente não existe ou é incipiente, tanto quanto sabemos). Este cérebro permite-nos recordar, ordenar e interpretar o passado; analisar e criticar o presente; idealizar e planear o futuro; e exprimir tudo isto através de uma linguagem que permite uma comunicação relativamente clara entre nós.

Trata-se de um cérebro desenvolvido, mas que é simultaneamente bastante fraco, já que é facilmente capturado pelo cérebro emocional, podendo até no extremo ser desligado, quando as emoções negativas são violentas. Isto acontece porque, provavelmente, nós não seremos o pico da evolução, ainda há muito por onde crescer e maturar nos próximos milhares ou milhões de anos (se entretanto não nos aniquilarmos).

Cérebro emocional, é preciso dizê-lo a todos os que nunca tiveram animais de companhia ou não os observaram devidamente, que temos em comum com os animais, nomeadamente com os mamíferos. Verdade seja dita que emoções negativas, um dos mecanismos básicos de sobrevivência aqui na Terra, temos em comum até com os répteis: medo, raiva, sofrimento, etc. 

De mais a mais, se olharmos menos para as diferenças entre os animais e nós, e mais para as semelhanças, a proximidade é gritante:

  • Em termos de hardware, e sem pretensão de esgotar a lista: dois olhos; dois ouvidos; quatro membros; um nariz com duas narinas que serve para cheirar e respirar com o respetivo sistema respiratório; uma boca com uma língua que serve para comer com o respetivo sistema digestivo, além de servir de alternativa ou de complemento ao nariz para respirar; um coração e respetivo sistema circulatório; e, mais primordialmente, um sistema nervoso; etc, etc, etc. 
  • Ao nível mental, isto é, de software se lhe quisermos chamar assim, os animais (principalmente os mamíferos) sofrem como os humanos de alegria, curiosidade, arrependimento, medo, raiva, tristeza, amor, etc, etc, etc.
    • lembro aqui a reação do cão de Saramago durante muitas horas após a morte do escritor tal como é contado por Pilar del Río em A Intuição da Ilha - Os Dias de José Saramago em Lanzarote, p. 91, Porto Editora: Quando José Saramago morreu, Camões, o único que lhe sobreviveu, apercebeu-se e chorou uma noite inteira. Eram uivos tremendos que ninguém podia consolar, ia pelos lugares do seu dono cheirando em vão, uivando, gritando desesperado.)


Portanto, dada esta proximidade (e não incluo aqui a proximidade genética - ver vídeo no final desta publicação), parece-me não ser abusivo concluir que o ser humano é um animal entre outros animais. No entanto, há algo sobre esta afirmação que me parece exigir um esclarecimento (que não é muito fácil de fazer, aliás).

São duas coisas diferentes: dizer que os animais são semelhantes a nós (do que eu discordo), ou dizer que somos semelhantes aos animais (no que eu concordo). Por outras palavras, não se trata de fazer os animais ascender ao estatuto de humanos (caindo no antropomorfismo, atribuindo características e comportamentos humanos em demasia aos animais), mas de os humanos não rejeitarem a sua herança animal (e de não caírem em nenhuma forma de antroponegação, que se refere à rejeição quer da existência nos animais de características semelhantes às nossas, quer da existência em nós de características semelhantes às que podem ser encontradas nos animais).

Na realidade, nós somos parecidos, não iguais aos animais, porque temos a capacidade de sermos muito melhores do que eles conseguem ser… e, infelizmente, também a capacidade de sermos muito piores do que eles conseguem ser.

Dizer que somos animais entre animais serve, assim, não para nos reduzir à condição inferior animal, mas para nos lembrar que somos parceiros de vida neste pequeno apartamento do Universo que se chama Terra. Por outras palavras, que eles não são coisas de que podemos dispor a nosso bel-prazer. Porque têm muitas características comuns com os seres humanos. Por exemplo, a coragem, a dignidade (por exemplo, face à morte), o afeto, a lealdade, etc., etc.

People sometimes describe nature as a dog-eat-dog world. (…) That’s totally wrong. I fought against that sort of characterization of animal society all my life, because just like human society, it is built on a lot of friendship and cooperation at the same time. We’d like to deny that connection that exists between us and animals. Certain tendencies, such as a sense of fairness, empathy, caring for others, helping others, following rules, punishing individuals who don’t follow the rules, all of these tendencies can be observed in other primates.

(in 95% of your behavior is primate behavior, Frans de Waal, biólogo e primatologista)


Lídia Jorge cita em (184) e (185) afirmações de outras pessoas que, perante as enormidades ditas, podemos apelidar no mínimo de radicalmente extremistas. O objetivo de Lídia Jorge é o de nos alertar para os riscos de exageros que podem advir da disseminação acrítica de comparações entre pessoas e animais, favoráveis a estes últimos. Mas estes exemplos servem também para apoiar a afirmação de Carl Safina de que o que as pessoas fazem, muitas vezes, não é lógico e é muito difícil de perceber. (184)

Aliás, ao ler a afirmação da ecologista que Lídia Jorge cita (feita aparentemente de raiva, azedume e ausência de compaixão), não pude deixar de me lembrar do célebre escrito de Jonathan Swift, publicado em 1729, A Modest Proposal - For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick (também publicado pela editora Antígona).

Foi um texto escrito com finalidade satírica, mas espelha de forma cristalina como a lógica humana pode ser completamente ilógica, quando privada de empatia e de bondade.

Lídia Jorge alerta-nos assim para os perigos de considerarmos cegamente as pessoas como animais, sem distinção alguma. 

Acrescento um exemplo: quando há animais a mais, chamamos praga a esse excesso e lidamos com ela optando pela sua eliminação pura e simples. É o que parece que a citada ecologista defende. O risco é, portanto, de ficarmos com a porta aberta à barbárie, ou seja, a sermos piores do que animais: todos nos recordamos como, ao chamar “baratas” aos tutsis do Ruanda ou ao apelidar os judeus de “vérmina”, isso conduziu facilmente ao horror e ao genocídio de milhões e milhões de seres humanos. Portanto, o alerta de Lídia Jorge faz todo o sentido.


(…) Sintetizando, há três hipóteses distintas – Primeira, somos um bicho, ponto final. Segunda, somos um bicho especial, ponto final. Terceira, não somos um bicho. Eu defendo que não somos um bicho. (…) (185)

Pessoalmente, eu defendo a segunda hipótese (sem ponto final, naturalmente, pois muito há a dizer sobre isto). Por várias razões já referidas, mas a que acrescentarei que ser também um bicho ou animal dá-me uma família mais alargada à qual me sinto orgulhoso de pertencer. E em que o ser "especial" me dá uma responsabilidade acrescida e, consequentemente, uma humanidade acrescida. 

Além disso, também me dá a esperança de que a Humanidade, com estas raízes, possa chegar a uma muito melhor versão de si mesma – com tanto que já caminhou até aqui, a Evolução que ainda não terminou abre perspetivas exaltantes para o futuro. 

Porque, e este é o ponto principal, aceitando a ideia de que somos também bichos ou animais, temos de aceitar a ideia de que a maldade não está de todo na nossa natureza mais profunda. E este é um pensamento bom.


Jane Goodall: Qu'est-ce que les humains font de mal? Que pouvons-nous apprendre des chimpanzés?


(...) Com a suspeita de que, com o professor de Nova Iorque, vou regressar ao mundo moderno dos meus avós, e sua quinta no meio de um bosque.


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...