domingo, 7 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 15

 

(foto tirada de Prof William)


15 ~ Emily e o Cérebro

Estamos na Primavera de 2019. (...)


(...) Darwin afirmou que a diferença entre a mente humana e a dos animais superiores é apenas uma questão de grau e não de espécie. Isto é, a humanidade é uma categoria dentro da categoria dos bichos. (...) (98)

Note-se que não há uma categoria de "bichos", mas muitas categorias; logo, será adequado (para efeitos de uma reflexão produtiva) estar a pôr lado a lado a categoria "humanidade" versus a de "bichos"? O que Darwin aliás queria dizer é "espécies". 

Uma primeira vantagem desta ideia de Darwin é que, se não somos criacionistas, nós ficamos a saber que fazemos parte deste planeta e que somos todos locatários dele, não donos. Isso talvez nos ajude a mudar a nossa relação predadora e destrutiva que temos atualmente em relação a ele.

Uma segunda vantagem - e, para mim, a mais importante - é que podemos ter esperança na "natureza humana". De facto, se não somos assim tão diferentes das outras espécies, então esta característica de nos trucidarmos uns aos outros de forma fria, planeada, organizada e gigantesca é uma criação nossa e pode ser modificada. Dado que as outras espécies não o fazem, não poderemos então falar de um instinto assassino a fazer parte desta suposta "natureza humana", porque ele não existe em lado nenhum dirigido para os membros da própria espécie.


(...) Mas na última secção, a do futuro do cérebro, a exposição dava um salto no ar e enviava-me para a contiguidade entre os animais e as plataformas artificiais que mimam o cérebro humano e o expandem sem limite. (...) (98)

Deste tempo e deste lugar em que vivo, onde é que eu penso que os computadores e os robôs da Inteligência Artificial (IA) nunca conseguirão igualar o cérebro humano ou, pelo menos, ainda estão muito, muito longe de o conseguir? Talvez no:

- Pensamento sistémico (por oposição a um pensamento linear talvez mais possível de replicar artificialmente). Este pensamento é que está verdadeiramente ligado à nossa humanidade e à nossa sobrevivência.

- Pensamento informado pela emoção e esta vinda das vísceras, algo que os computadores e robôs não têm. Este pensamento é o único que nos permite ser autenticamente humanos. António Damásio descreve a incapacidade de sobrevivência dos seus doentes que deixaram de ter acesso às suas emoções: isso impossibilitava-os de tomar decisões inteligentes.

- Pensamento e destino orientados pelo "Porquê?" e pelo "Para quê?", fundados numa ânsia genuína e infindável de conhecimento e de sabedoria. Que é uma marca especificamente humanas e que faz realmente toda a diferença.

Haverá mais? De certeza que sim. A nossa complexidade (e, já agora, a dos animais superiores, nos quais incluo claramente os cães, por exemplo) leva a crer que ela é praticamente infinita e, portanto, irreplicável.

Acredito genuinamente que o problema não é a IA igualar o cérebro. O problema é pormos uma IA profundamente limitada e deficiente a realizar funções na nossa sociedade (fala-se muito, por exemplo, em dar aulas nas escolas e universidades) que antes apenas o cérebro humano realizava. Não será esse o verdadeiro perigo, porque isso poderá levar a uma violência irrecuperável sobre a nossa humanidade mais profunda?


(...) De facto, a porta de entrada não tinha nada a ver com a porta de saída.


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 14

 



14 ~ O Sol do Marmeleiro

Ao lado das salas de teatro e de ópera dos séculos passados, a primeira metade do século XX ergueu no meio das cidades salas para cinema, e assim a aventura humana, com sua vocação de viagem e criação de fantasia, ficaria para sempre diferente. (...)


(...) Somos os filmes que vimos. (...) (90)

Que filmes podem ascender a este estatuto?

Para mim, poucos, pois numa hierarquia de fruição de obras de arte, num primeiro lugar muito destacado vem a literatura. Depois, a música. E, bastante mais para trás, o cinema. Seguido da dança e bailado, vindo no fim a pintura e a escultura. Não tenho explicações para isto: são assim as minhas afinidades, estabelecidas lá num lugar para mim inacessível.

Mas, voltando à interrogação inicial. O filme que me surgiu na mente, sem refletir, foi Uma História Simples, de David Lynch. Também não sei porquê, mas sei que uma grande parte do que sou está entretecida naquele filme.

Lídia Jorge dá-nos conta desta dificuldade em explicar tudo isto:

(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Podem dizer-me?

Nada, talvez seja a resposta. Nada que se possa explicar por palavras. Estamos no domínio da experiência, e com ela só há vivência, não há ciência. (...) (91)

Bom, eu talvez nem queira investigar a questão muito a fundo. Quando procuramos prender as emoções que uma obra de arte nos suscita, a palavra-chave parece-me ser precisamente "prender". Eu não desejo isso. Gosto que um filme ande à desfilada e se espalhe dentro de mim por regiões que eu nem sequer suspeito; que crie um clima e dê uma cor àquilo que me sinto ser, sem eu saber explicar por palavras que clima ou que cor serão aqueles.


O que leva ao fecho das salas de cinema? Lídia Jorge propõe que

(...) O cinema assemelha-se a um livro, exige tempo e espaço alargados. Receio bem que sejam as exigências tradicionais da narrativa que fechem as salas de cinema dos nossos bairros. (94) [hoje, das nossas cidades também]

Com a finalidade de contribuir para a reflexão sobre este tema, eu gostaria de colocar aqui a minha experiência, também ela de afastamento das salas de cinema. Seguindo o indício de sugestão de Lídia Jorge feito aqui acima, vou pôr lado a lado a experiência de literatura e a experiência do cinema.

Gosto da lentidão associada à inteligência, para ter o prazer de parar e refletir sobre o que estou a ler.

Gosto da paz por oposição à violência, sendo esta muito comum hoje na arte em geral, é certo, mas muito mais penosa no cinema e na literatura. Porém, apesar de tudo, parece-me que menos disseminada nesta última.

Gosto de imaginar, muito, mas mesmo muito mais do que ver (veja-se um outro exemplo: prefiro a fotografia a preto e branco à a cores).

Gosto mais do belo do que do real feio (no cinema sinto que este se nos impõe muito mais desabridamente, ao mesmo tempo que temos menos defesas para nos protegermos desse real).

Não, não me parece que tenha problemas com a narrativa. Sinto que será noutro sítio que está o nó do problema.

Ah, e claro, gosto mais de estar só do que estar acompanhado. Acrescento esta razão somente por uma questão de honestidade, pois não a posso generalizar a outros: a verdade é que os festivais de música popular e as salas de concerto continuam a encher (embora as salas de concerto sejam talvez ainda mais raras do que as de cinema, na verdade).

Como reflexão final, talvez eu possa dizer que os filmes de que mais gosto são aqueles em que existe uma maior coincidência entre o que estou a assistir e o que eu poderia imaginar. Quando a discrepância aí é maior, menor será a minha adesão.


De qualquer modo, esta crónica de Lídia Jorge é extraordinariamente interessante, pois não a poderemos ler também como se a autora estivesse a falar da arte em geral e não apenas do cinema?


(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Enquanto essa pergunta estiver activa, e houver quem se ria em voz baixa da pergunta, o cinema continuará a existir. Receio, porém, que em breve tantos se levantem que não fique ninguém para dizer, Cala-te, pelo amor de Deus.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 13

 

(Foto de El País)


13 ~ A Cidade Traída

Aconteceu há muito tempo. (...)


(84) «(...) Desses dias guardei para sempre a certeza de que a Natureza não sabe que nós existimos.»

No sentido de que Lídia Jorge fala, sim. Mas será sempre assim? Depende. Se a incomodarmos demasiado, como temos vindo a fazer neste últimos dois séculos, quase que podemos ter a certeza de que ela irá reagir mal à nossa presença depredadora. Poderá ser uma espécie de generalização da terceira lei de Newton: perante toda a ação, surge sempre uma reação em sentido oposto, mas de igual intensidade. Se for ao fim de muitos anos de devastação acumulada, penso que será uma reação de uma intensidade incalculável.

De qualquer modo, gostaria aqui de questionar a ideia de existência de uma Natureza, como se ela fosse uma entidade separada e distinta de nós humanos. Na verdade, parece-me, que essa entidade não existe. Um pouco como não existe um escorpião (dos signos do Zodíaco) nos céus noturnos, mas apenas um nome a um agrupamento de estrelas, feito arbitrariamente por nós.

Portanto, e por outras palavras, todos somos natureza, ela não existe como algo separado de nós. Esta ideia é importante porque desloca o foco de algo que estejamos a fazer a essa entidade inexistente ("Natureza") para o que estaremos a fazer a nós próprios, a todos nós, sem exceção. Desse modo, ao destruir (florestas, por exemplo), é legítimo suspeitar que nos estamos a destruir a nós próprios. Se esta ideia ganhar raízes, pode ser que nos tornemos pelo menos mais prudentes e a conter mais a nossa avidez.


Lídia Jorge vem ao encontro desta ideia, embora abordada por ela de forma diferente:

(...) Não tenho palavras para esse desastre, e as minhas ações são limitadas. Mas o que sei é que se tem de encontrar uma palavra diferente para compaixão e solidariedade, palavras que supõem de um lado um sujeito salvo e, do outro, um sujeito para salvar. E não é mais assim. A cada dia que passa, o que acontece lá é como se acontecesse aqui, o que acontece aos outros é o mesmo que pode acontecer na nossa rua. A Terra é um só espaço, e todos os países estão unidos pelo mesmo traço de convivência necessária. (...) (87)


(...) Que palavras temos para chamar a isto?


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 12

 

(Pintura tirada de A a Z, de Nuno Júdice)


12 ~ O Mistério

Grandes dificuldades enfrentam os organizadores dos Festivais Literários para encontrarem temas que sejam interessantes e agregadores da população convidada. (...)


O debate livro vs. e-book (77 e 78). O que eleger?

Eu prefiro ler livros a e-books. Isso é claro para mim. A razão dessa preferência é que já o é muito menos.

Diria que, primeiramente, consigo estabelecer uma relação muito mais emocional com o livro do que com o e-book. Há um amor, um sentimento de afeição (que roça a adoração) que nunca surge na leitura de um e-book.

Mas isto pode ter por detrás uma causa muito simples: durante a maior parte da minha vida, desde que me lembro de ser, que os livros foram os meus melhores e mais fiéis amigos e companheiros. Hoje ainda assim acontece. A forma como me sinto a ser acolhido por um livro é muito mais afetuosa e segura do que me acontece experimentar com qualquer pessoa. Portanto, há aqui um viés, para não dizer uma doença, que leva a que fique emocionalmente muito mais atraído para o objeto físico e individualizado que é cada livro.

Sim, porque cada livro é um objeto distinto e particularizado. Os meus e-books estão todos aglomerados num suporte, o e-reader, que é sempre o mesmo. Talvez essa seja uma das razões por que mergulho muito mais profundamente no espaço, clima e território espiritual do livro do que consigo fazer com o e-book. Há uma relação pessoal e diferente que estabeleço com cada livro. Na verdade, com o e-reader passa-se o seguinte:

(…) e-books (…) lêem-se e desaparecem como aparições num lago de que não se conhece o fundo. (77)

Excelente imagem de Lídia Jorge que se harmoniza com a minha experiência. E, de facto, a investigação mostra que os estudantes têm mais facilidade em memorizar conteúdos em livros do que conteúdos eletrónicos.

Pelo meu lado, quais são os livros, lidos no e-reader, que me ficaram no espírito? Na verdade, muito poucos, embora eu não possa falar com inteiro conhecimento de causa porque, sempre que começo a gostar realmente de um e-book, vou logo comprar o livro em papel. Quanto aos restantes, a maior parte deles são abandonados por mim no princípio ou, no máximo, a meio.

Termino esta secção com o belíssimo poema de Nuno Júdice que acompanha a pintura acima, do blog A a Z:

Tempo fluvial

Se eu definisse o tempo como um rio,

a comparação levar-me-ia a tirar-te

de dentro da sua água, e a inventar-te

uma casa. Poria uma escada encostada

à parede, e sentar-te-ias num dos seus

degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:

«Não te apresses: também a água deste

rio é vagarosa, como o tempo que os

teus dedos suspendem, antes de virar

cada página.» Passam as nuvens no céu;

nascem e morrem as flores do campo;

partem e regressam as aves; e tu lês

o livro, como se o tempo tivesse parado,

e o rio não corresse pelos teus olhos.


Continuando com Lídia Jorge.

- E você, porque é que escreve? (…) Eu costumo dizer que escrevo para enviar cartas para longe, (…) Mas às vezes não é bem assim. (78/9)

E eu? Eu escrevo para pensar melhor, para organizar melhor os meus pensamentos. Não sou original, há muitos escritores que expressaram variações desta ideia. Por exemplo, Joan Didion: 

I don't know what I think until I write it down.

Ou Faulkner:

I never know what I think about something until I read what I've written on it.

Claro que, às vezes, sinto uma nostalgia de algo que só muito, mas mesmo muito raramente me existiu: um leitor afável. Ou seja, provavelmente escrevo também para ser lido, apesar de não ter esperanças de que isso vá alguma vez acontecer. Porém, um facto é este: escrevo aqui neste blog... que é público! 

Mas, apercebo-me agora, que escrever para não é bem a mesma coisa do que escrever porque.

Então porque escrevo? É verdade que sinto prazer na aquisição de sabedoria. Ora, quando escrevo, surgem-me pensamentos, ideias e reflexões que não apareceriam de outra maneira. Estes novos pensamentos são descobertas que faço, em relação ao mundo e às pessoas; e estas descobertas vão-me enriquecendo de compreensão e, portanto, de sabedoria. Este é um processo que me proporciona um prazer profundo. Portanto, no fundo, uma razão banal: escrevo porque me dá prazer!

Porque escreve, então, Lídia Jorge (80-82)? Tal como acontecia com a sua avó,


A minha escrita é isso. Ao escrever, talvez eu tenha uma moeda dentro da minha mão. Talvez não tenha coisa nenhuma. Mas, ainda assim, enquanto for viva, direi - «Toma, é para ti».


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 11

 

(foto de Diário de Notícias de 18-01-2017)


11 ~ Black Friday

Dizem as crónicas de costumes que a campanha de compras Black Friday veio para ficar. (…)


(73) A propósito de uma das origens desta designação usada para os saldos ter a ver com a escravatura:

Mas a verdade é que só essa suspeita seria suficiente para não se aplicar semelhante designação a um dia em que se anuncia que se vende o refugo ao desbarato. (73)

Concordo por duas razões: primeiro, porque suscita em nós uma certa náusea (como a que nunca me abandonou e me fez não ver nunca o programa Big Brother). Segundo, porque esvazia palavras sérias e profundas do seu sentido, passando elas a ter um significado superficial e banal; e isto trata-se de uma perda, não de um ganho.


Explico-me – Eu não partilho da ideia de que todos os dias os europeus tenham de se ajoelhar pedindo perdão por alguma coisa que durante a sua vida não fizeram, que condenam com veemência, e que há mais de dois séculos ficou reconhecido na europa como crime, ainda que os criminosos tenham longa vida e longa descendência. (…) (73)

Eu também não. 

Mas, primeiro, a verdade é que eu, hoje, continuo a beneficiar do que os meus antepassados fizeram.

Em segundo lugar, a escravidão (aliás, como a guerra) varre tudo o que de bom um povo pode construir porque o seu trabalho forçado foi utilizado apenas para beneficiar outros povos. 

Em terceiro, a escravidão terá feito desaparecer pessoas e contributos que seriam capazes de alterar a história desses povos oprimidos para melhor; e que poderiam não os ter mantido na miséria em que estão hoje.

Em suma, eu não fiz, mas pelos efeitos que ainda existem e não desapareceram, é como se eu tivesse feito. Nesse sentido, a culpa dos meus antepassados ainda pesa muito sobre os meus ombros.


Posso também acrescentar que não concordo com o pedir perdão quando ele não vem acompanhado de medidas reais e sinceras de reparação do mal feito. Tenhamos em conta que quem pede perdão parece alguém decente, porém nós bem sabemos que os estados e as corporações raro o são efetivamente. 

De mais a mais, pedir perdão não será ainda oprimir, já que pode limitar no oprimido a sua liberdade para continuar a reprovar o que foi feito? Como dizia Albert Camus, num texto de julho de 1954, reproduzindo:

(...) o discurso que um dirigente nacionalista árabe lhe fizera, logo a seguir à guerra: «Os nossos piores inimigos não são os franceses colonialistas. Pelo contrário, são os franceses como o senhor. Porque, enquanto os colonialistas nos dão uma imagem revoltante mas verdadeira da França, você dá‑nos uma ideia enganadora, porque conciliatória. Enfraquece‑nos na nossa vontade de lutar. É‑nos mais nocivo que os outros.» (António Mega Ferreira, O Essencial Sobre Albert Camus, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2013, p. 59). 

Por tudo isto, também, sou contra os pedidos hipócritas de perdão que, suspeito, o são mesmo na maioria das vezes.


Mas nos dias que correm, só seremos cúmplices desses crimes contra a humanidade se nos calarmos diante da escravatura que prossegue em certos locais da Terra, como no interior do Congo onde milhares de crianças aprisionadas, neste momento, estão a escavar rocha com as mão nuas nas minas de cobalto para que tenhamos o Samsung barato. E quem diz Congo diz Índia, diz Bangladesh e outros lugares do Globo. Para não falarmos dos casos encobertos que acontecem dentro das nossas portas. (74)

Exemplos? Odemira, 2021. Baixo Alentejo, 2021. Etc., etc.

Não precisamos por isso de nos ajoelhar para pedir perdão por aquilo que nós não fizemos, só temos de responder pelo que hoje não fazemos. (…) Mas podemos fazer alguma coisa de útil contra essa ignomínia, e não participar do que dela sobrevive, isso sim. Podemos ouvir os que vivem por perto, e que ainda são vítimas (…) Podemos perceber o que têm para dizer, e como se sentem os que se sentem mal. (…) Perante julgamentos injustos, só atitudes repetidamente correctas, e a demonstração dessa correcção, podem surtir efeito. (74)

Pergunto-me: bastará isto? Evidentemente que não, mas já é um grande passo este, o de ouvir realmente o outro magoado. 

Mas eu acrescento: recusar-me a votar no ou nos partidos que fomentam estas injustiças, ou que as defendem ou que nada fazem para lhes pôr cobro (a não ser quando os jornalistas denunciam vigorosa e continuadamente a situação – veja-se o caso paradigmático do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk assassinado a 12 de março de 2020 pelo SEF, em que se passaram meses antes de o governo PS fazer o que quer que fosse… e nem sequer era um governo de maioria absoluta!).


(…) Conrad denunciava o procedimento europeu generalizado de então, mas, ao mesmo tempo, mostrava dificuldade em ler, sobre o rosto de um negro, os traços da humanidade. (76)

Este é um problema que é muito mais insidioso do que parece à primeira vista. Por exemplo, não se passará o mesmo com os homens em relação às mulheres? Reflitamos no caso da constituição das chefias nos órgãos partidários, maioritariamente constituídas por homens. Trata-se de um verdadeiro problema porque há suspeitas de estar profundamente arraigado na natureza humana: falamos aqui do Favoritismo Intragrupal, um viés em que os elementos de um grupo reconhecem-se próximos e favorecem-se mutuamente, ao contrário do que fazem com elementos de outros grupos.


As palavras têm muita importância. Como já referi no início, o seu uso repetido e adulterado esvazia-as de sentido e isso é uma perda para a língua e para a cultura. Por exemplo, quando falamos hoje de "Big Brother" é difícil não associarmos a palavra ao infame concurso televisivo com esse título. Em vez de à sua origem no célebre romance 1984, de George Orwell.

É por isso que não chega reconhecer a importância que as palavras têm, assim como o seu historial sombrio. São precisas ações que justifiquem essa importância que damos às palavras. 

Também por isso, Lídia Jorge propõe que se retire a designação Black Friday e que se a substitua por qualquer outra. Aliás, igual na parvoíce, como Lídia Jorge sugere com a sua habitual e finíssima ironia, ao citar algumas alternativas surgidas nos jornais: Good Day, Happy Day, etc. Mas, pelo menos, nenhuma delas sem conotações sinistras.


(...) Mas, na dúvida, não lhe chamem Black Friday.


domingo, 24 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 10


10 ~ Diante da Chuva

Quatro, cinco vezes em cada ano, chove na casa do bosque. (...)


(67) «(…) Não pensamos mais de onde ela vem nem para onde vai, não a vemos, não a sentimos. Ter água deixou de ser dádiva, passou a ser instrumento. (…)»

Quantas coisas verdadeiramente preciosas (como a água) deixei/deixámos de “ver”? quantas fontes de bem-estar e de alegria desprezamos no nosso dia a dia neste mundo de abundância que presumimos que vá existir para sempre?


(68) «Todas as águas, uma só água, milhares de formas de vida, só uma fonte de vida. (…)» 

Lídia Jorge leva-nos a sentir como há forças no nosso planeta que nos ligam uns aos outros de forma indissolúvel. Forças todas ligadas à vida. Forças que, enfraquecidas, serão causa da nossa morte ou, pelo menos, do nosso sofrimento.


(68) «(…) Não será o volume da água que estará em causa, será a sua distribuição. Lugares da Terra férteis poderão ficar estéreis, e os estéreis poderão ser inundados de forma inesperada, as zonas ribeirinhas das cidades poderão perder a sua configuração, e essa mudança custará vidas, deslocações, pânicos, tumultos pré-históricos nos tempos históricos futuros. O que posso eu fazer, enquanto ouço chover, quatro, cinco vezes, por ano?

Não posso mudar os rios, não posso mudar os mares, não posso enviar recados às nuvens. Não posso nada, mas acredito no poder de certos actos de cerimónia. Julgo que se não deitar fora a água da cozinha, e com ela regar as plantas que estão no jardim, que ajudarei a manter um equilíbrio remoto, um papel tão mínimo quanto o de um grão de areia na consistência das nuvens. Ainda assim, hei-de fazê-lo, hei-de respeitar a água, (…)»

Será esta a resposta à minha interrogação geral e inicial sobre o que posso fazer para mudar o mundo atual, violento e egoísta, a que me oponho? Uma resposta é, sem dúvida. Mas a minha questão nunca deixa de estar de pé por causa da eficácia insuficiente do que seja o que for que eu faça individualmente.

Mudar o mundo é mudar as pessoas que o habitam, é tentar mudar principalmente as pessoas com poder para o mudar. 

Sei que a mudança é muito difícil; e convencer os outros a mudarem, mais difícil é ainda. Por isso, entendo que a compreensão do outro e a empatia são essenciais como primeiros passos para convencer. Porque hostilizar o outro, atacando-o não só a sua pessoa, mas também as suas ideias e a sua sensibilidade, só servirá para criar ainda mais resistências à mudança. Devemos ter sempre presente que o nosso objetivo não é vencer o outro, porque aí obtemos um adversário; mas, sim, convencê-lo para, dessa maneira, ganhamos um aliado.

Portanto, primeiro ouvir. Depois, compreender (nesta fase, ainda não fazemos afirmações, apenas perguntamos para ter a certeza de que entendemos plenamente a outra pessoa – “Por que razão fazes tu isto assim?”… É que há quase sempre uma razão que nós não imaginamos). A seguir, mostrar empatia (ou seja, mostrando que também nós partilhamos, se não for de mais nada, pelo menos da mesma humanidade). Só depois disto, poderemos começar a esboçar a nossa posição, tendo o cuidado de monitorizarmos se estamos a ser compreendidos e se estamos a convencer, sem querermos ganhar a discussão ou arrasar a pessoa com argumentos – e a melhor maneira de fazer isto é expressarmos a nossa posição por meio de perguntas: “O que achas da seguinte maneira de fazer...?” E ouvir a resposta.

E, depois, não esquecer a vertente política da minha ação. Porque é a política que pode levar a mudanças de fundo. Aliás, são os políticos que os poderosos procuram influenciar primordialmente. Sim, também procuram influenciar as pessoas comuns, mas com a finalidade de estas pressionarem os políticos no sentido do seu interesse particular e, muitas vezes, sinistro. Portanto, a política: não há maneira de lhe fugir. Pior: se optarmos por a ignorar, ela far-se-á sentir na nossa vida de forma incomensuravelmente mais violenta. Além de, claro, tornar todos os nossos outros esforços quase totalmente irrisórios.


(...) ... Esta é a minha contribuição para que se mantenha o ciclo natural da água - Acreditarei no destino dos homens enquanto acreditar na proeza da chuva.


sábado, 16 de julho de 2022

Em Todos os Sentidos - 9

 


9 ~ Agustina Como Ninguém

Foi na Alemanha e passou-se há uns anos. (...)


Verdade? Ficção? Não o sabemos. Mas que se trata de uma homenagem muito inteligente a Agustina Bessa-Luís, disso não tenho dúvidas.

Este relato pode também simbolizar, por um lado, a escritora como desvendadora de mistérios. Por outro, a leitora como uma presença fugaz que só se anuncia a si própria pela admiração e pela paixão; e em que, fora destas, desaparece e se torna vaga e indistinta.

Deverá a leitora tentar aproximar-se mais? Será que esta crónica revela os limites que os escritores gostariam de ver os seus leitores respeitar? Suspeito que sim. E, aliás, parece-me bem. Porque a pessoa e o escritor raramente coincidem. Na maior parte das vezes, o estado de espírito da escrita está muito longe do estado de espírito do dia a dia. Assim, quem conheceu o escritor ou o artista (nos momentos superiores da existência) poderá desiludir-se ao conhecer a pessoa (no resvés do dia a dia). Seria isso o que se passaria com Agustina Bessa-Luís e com Lídia Jorge? Com esta última, a minha experiência pessoal leva-me a dizer "Não". Quanto à primeira, temos o testemunho da própria Lídia Jorge e a resposta é também obviamente "Não".


Obrigada até ao fim da minha vida, por todas as suas viagens, Maria Agustina.


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...