14 ~ O Sol do Marmeleiro
Ao lado das salas de teatro e de ópera dos séculos passados, a primeira metade do século XX ergueu no meio das cidades salas para cinema, e assim a aventura humana, com sua vocação de viagem e criação de fantasia, ficaria para sempre diferente. (...)
(...) Somos os filmes que vimos. (...) (90)
Que filmes podem ascender a este estatuto?
Para mim, poucos, pois numa hierarquia de fruição de obras de arte, num primeiro lugar muito destacado vem a literatura. Depois, a música. E, bastante mais para trás, o cinema. Seguido da dança e bailado, vindo no fim a pintura e a escultura. Não tenho explicações para isto: são assim as minhas afinidades, estabelecidas lá num lugar para mim inacessível.
Mas, voltando à interrogação inicial. O filme que me surgiu na mente, sem refletir, foi Uma História Simples, de David Lynch. Também não sei porquê, mas sei que uma grande parte do que sou está entretecida naquele filme.
Lídia Jorge dá-nos conta desta dificuldade em explicar tudo isto:
(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Podem dizer-me?
Nada, talvez seja a resposta. Nada que se possa explicar por palavras. Estamos no domínio da experiência, e com ela só há vivência, não há ciência. (...) (91)
Bom, eu talvez nem queira investigar a questão muito a fundo. Quando procuramos prender as emoções que uma obra de arte nos suscita, a palavra-chave parece-me ser precisamente "prender". Eu não desejo isso. Gosto que um filme ande à desfilada e se espalhe dentro de mim por regiões que eu nem sequer suspeito; que crie um clima e dê uma cor àquilo que me sinto ser, sem eu saber explicar por palavras que clima ou que cor serão aqueles.
O que leva ao fecho das salas de cinema? Lídia Jorge propõe que
(...) O cinema assemelha-se a um livro, exige tempo e espaço alargados. Receio bem que sejam as exigências tradicionais da narrativa que fechem as salas de cinema dos nossos bairros. (94) [hoje, das nossas cidades também]
Com a finalidade de contribuir para a reflexão sobre este tema, eu gostaria de colocar aqui a minha experiência, também ela de afastamento das salas de cinema. Seguindo o indício de sugestão de Lídia Jorge feito aqui acima, vou pôr lado a lado a experiência de literatura e a experiência do cinema.
Gosto da lentidão associada à inteligência, para ter o prazer de parar e refletir sobre o que estou a ler.
Gosto da paz por oposição à violência, sendo esta muito comum hoje na arte em geral, é certo, mas muito mais penosa no cinema e na literatura. Porém, apesar de tudo, parece-me que menos disseminada nesta última.
Gosto de imaginar, muito, mas mesmo muito mais do que ver (veja-se um outro exemplo: prefiro a fotografia a preto e branco à a cores).
Gosto mais do belo do que do real feio (no cinema sinto que este se nos impõe muito mais desabridamente, ao mesmo tempo que temos menos defesas para nos protegermos desse real).
Não, não me parece que tenha problemas com a narrativa. Sinto que será noutro sítio que está o nó do problema.
Ah, e claro, gosto mais de estar só do que estar acompanhado. Acrescento esta razão somente por uma questão de honestidade, pois não a posso generalizar a outros: a verdade é que os festivais de música popular e as salas de concerto continuam a encher (embora as salas de concerto sejam talvez ainda mais raras do que as de cinema, na verdade).
Como reflexão final, talvez eu possa dizer que os filmes de que mais gosto são aqueles em que existe uma maior coincidência entre o que estou a assistir e o que eu poderia imaginar. Quando a discrepância aí é maior, menor será a minha adesão.
De qualquer modo, esta crónica de Lídia Jorge é extraordinariamente interessante, pois não a poderemos ler também como se a autora estivesse a falar da arte em geral e não apenas do cinema?
(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Enquanto essa pergunta estiver activa, e houver quem se ria em voz baixa da pergunta, o cinema continuará a existir. Receio, porém, que em breve tantos se levantem que não fique ninguém para dizer, Cala-te, pelo amor de Deus.
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