terça-feira, 2 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 13

 

(Foto de El País)


13 ~ A Cidade Traída

Aconteceu há muito tempo. (...)


(84) «(...) Desses dias guardei para sempre a certeza de que a Natureza não sabe que nós existimos.»

No sentido de que Lídia Jorge fala, sim. Mas será sempre assim? Depende. Se a incomodarmos demasiado, como temos vindo a fazer neste últimos dois séculos, quase que podemos ter a certeza de que ela irá reagir mal à nossa presença depredadora. Poderá ser uma espécie de generalização da terceira lei de Newton: perante toda a ação, surge sempre uma reação em sentido oposto, mas de igual intensidade. Se for ao fim de muitos anos de devastação acumulada, penso que será uma reação de uma intensidade incalculável.

De qualquer modo, gostaria aqui de questionar a ideia de existência de uma Natureza, como se ela fosse uma entidade separada e distinta de nós humanos. Na verdade, parece-me, que essa entidade não existe. Um pouco como não existe um escorpião (dos signos do Zodíaco) nos céus noturnos, mas apenas um nome a um agrupamento de estrelas, feito arbitrariamente por nós.

Portanto, e por outras palavras, todos somos natureza, ela não existe como algo separado de nós. Esta ideia é importante porque desloca o foco de algo que estejamos a fazer a essa entidade inexistente ("Natureza") para o que estaremos a fazer a nós próprios, a todos nós, sem exceção. Desse modo, ao destruir (florestas, por exemplo), é legítimo suspeitar que nos estamos a destruir a nós próprios. Se esta ideia ganhar raízes, pode ser que nos tornemos pelo menos mais prudentes e a conter mais a nossa avidez.


Lídia Jorge vem ao encontro desta ideia, embora abordada por ela de forma diferente:

(...) Não tenho palavras para esse desastre, e as minhas ações são limitadas. Mas o que sei é que se tem de encontrar uma palavra diferente para compaixão e solidariedade, palavras que supõem de um lado um sujeito salvo e, do outro, um sujeito para salvar. E não é mais assim. A cada dia que passa, o que acontece lá é como se acontecesse aqui, o que acontece aos outros é o mesmo que pode acontecer na nossa rua. A Terra é um só espaço, e todos os países estão unidos pelo mesmo traço de convivência necessária. (...) (87)


(...) Que palavras temos para chamar a isto?


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