12 ~ O Mistério
Grandes dificuldades enfrentam os organizadores dos Festivais Literários para encontrarem temas que sejam interessantes e agregadores da população convidada. (...)
O debate livro vs. e-book (77 e 78). O que eleger?
Eu prefiro ler livros a e-books. Isso é claro para mim. A razão dessa preferência é que já o é muito menos.
Diria que, primeiramente, consigo estabelecer uma relação muito mais emocional com o livro do que com o e-book. Há um amor, um sentimento de afeição (que roça a adoração) que nunca surge na leitura de um e-book.
Mas isto pode ter por detrás uma causa muito simples: durante a maior parte da minha vida, desde que me lembro de ser, que os livros foram os meus melhores e mais fiéis amigos e companheiros. Hoje ainda assim acontece. A forma como me sinto a ser acolhido por um livro é muito mais afetuosa e segura do que me acontece experimentar com qualquer pessoa. Portanto, há aqui um viés, para não dizer uma doença, que leva a que fique emocionalmente muito mais atraído para o objeto físico e individualizado que é cada livro.
Sim, porque cada livro é um objeto distinto e particularizado. Os meus e-books estão todos aglomerados num suporte, o e-reader, que é sempre o mesmo. Talvez essa seja uma das razões por que mergulho muito mais profundamente no espaço, clima e território espiritual do livro do que consigo fazer com o e-book. Há uma relação pessoal e diferente que estabeleço com cada livro. Na verdade, com o e-reader passa-se o seguinte:
(…) e-books (…) lêem-se e desaparecem como aparições num lago de que não se conhece o fundo. (77)
Excelente imagem de Lídia Jorge que se harmoniza com a minha experiência. E, de facto, a investigação mostra que os estudantes têm mais facilidade em memorizar conteúdos em livros do que conteúdos eletrónicos.
Pelo meu lado, quais são os livros, lidos no e-reader, que me ficaram no espírito? Na verdade, muito poucos, embora eu não possa falar com inteiro conhecimento de causa porque, sempre que começo a gostar realmente de um e-book, vou logo comprar o livro em papel. Quanto aos restantes, a maior parte deles são abandonados por mim no princípio ou, no máximo, a meio.
Termino esta secção com o belíssimo poema de Nuno Júdice que acompanha a pintura acima, do blog A a Z:
Tempo fluvial
Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
Continuando com Lídia Jorge.
- E você, porque é que escreve? (…) Eu costumo dizer que escrevo para enviar cartas para longe, (…) Mas às vezes não é bem assim. (78/9)
E eu? Eu escrevo para pensar melhor, para organizar melhor os meus pensamentos. Não sou original, há muitos escritores que expressaram variações desta ideia. Por exemplo, Joan Didion:
I don't know what I think until I write it down.
Ou Faulkner:
I never know what I think about something until I read what I've written on it.
Claro que, às vezes, sinto uma nostalgia de algo que só muito, mas mesmo muito raramente me existiu: um leitor afável. Ou seja, provavelmente escrevo também para ser lido, apesar de não ter esperanças de que isso vá alguma vez acontecer. Porém, um facto é este: escrevo aqui neste blog... que é público!
Mas, apercebo-me agora, que escrever para não é bem a mesma coisa do que escrever porque.
Então porque escrevo? É verdade que sinto prazer na aquisição de sabedoria. Ora, quando escrevo, surgem-me pensamentos, ideias e reflexões que não apareceriam de outra maneira. Estes novos pensamentos são descobertas que faço, em relação ao mundo e às pessoas; e estas descobertas vão-me enriquecendo de compreensão e, portanto, de sabedoria. Este é um processo que me proporciona um prazer profundo. Portanto, no fundo, uma razão banal: escrevo porque me dá prazer!
Porque escreve, então, Lídia Jorge (80-82)? Tal como acontecia com a sua avó,
A minha escrita é isso. Ao escrever, talvez eu tenha uma moeda dentro da minha mão. Talvez não tenha coisa nenhuma. Mas, ainda assim, enquanto for viva, direi - «Toma, é para ti».
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