quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 28

 

(Foto daqui)


28 ~ Guilherme e o Mito

Quando me sugerem que fale da forma como se processa a imaginação, sou tentada a contar uma história selvagem. (…)


A questão parece-me ser esta: os escritores serão perfeitamente criativos, ou irão buscar ao seu fundo de experiências o material para o qual irão olhar de uma forma pouco habitual e disso darem notícia? Vou por esta última hipótese, porque senão seria muito difícil alguém se identificar com o que eles escrevessem. A verdade é que mesmo os escritores mais “estranhos” ou “difíceis” (lembro, em Portugal, um Rui Nunes, por exemplo) podem encontrar uma legião de admiradores e seguidores apaixonados da sua obra.

Eu sei de mim que não sou particularmente criativo a escrever. É raro alguma ideia minha ser perfeitamente original. Mais tarde ou mais cedo, descubro que já houve alguém que pensou o mesmo e que escreveu sobre isso. Por isso, não posso falar baseado na minha experiência. Será este o meu viés em relação à opinião que eu possa ter sobre este assunto.

No entanto, no fundo, talvez Lídia Jorge se aproxime da hipótese que ponho. O episódio que conta de Guilherme, seu companheiro de escola, terá sido pelo menos o motor que pôs em movimento todo um organismo em direção à criatividade da autora.

Episódio esse que me recorda o que se passou também com aquele migrante do Mali, Mamoudou Gassama, de 22 anos, que sobe pela fachada de um prédio em França para ir salvar um menino de 4 anos que se encontrava pendurado de uma das varandas dos andares superiores. E que, após o seu feito, cai no chão sem forças, esgotado pelo seu feito, tal como Lídia Jorge conta que aconteceu com Guilherme.

E é deste fundo, deste húmus, desse repositório primordial de imagens e de palavras, que talvez os escritores vão fazendo crescer os seus livros como se fossem longos pomares, das quais nós, leitores felizes, tiramos, comemos e saboreamos alguns frutos. Árvores às quais voltamos, uma e outra vez, sendo os frutos saboreados sempre iguais e diferentes. Que acordam outros repositórios de imagens e de palavras. E que talvez levem cada leitor também à escrita.


(…) Eu só transformo essa imagem em letras.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 27

 


27 ~ Geografia Partilhada

Digam agora que a ficção não serve para nada. (…)


Crónica simultaneamente séria e irónica, triste e divertida, desesperada e esperançosa. Que antecipa até o atual desbragamento de um Putin.


(…) Não só o romance espelha realidades que andam escondidas e que de outro modo permanecem invisíveis, como ainda por cima fornece ideias úteis que depois vêm a ser postas em prática. (…) (167)

Há uma boa hipótese de este excerto poder ser irónico. Mas Lídia Jorge respeita a inteligência e a liberdade do leitor, como sempre. Eu escolho interpretar pelo lado da seriedade, penso que sem trair o pensamento da autora.

Lídia Jorge refere aqui livros que esclarecem o presente e lançam avisos sobre o futuro. É impossível não nos lembrarmos de 1984, de George Orwell. Ou, falando da própria Lídia Jorge, do seu romance Estuário.

Sim, nos livros reside uma grande esperança, pois eles são a memória da humanidade e o seu projeto no futuro. Com os livros, não poderemos escudar-nos na desculpa de que não sabíamos.


(…) também sonha great again, (…) (171)

Todos ansiamos por um sonho que nos faça soerguer da nossa vida pequenina, cinzenta, entediante e uniformizadora do dia-a-dia. Por isso, os sonhos que mais nos atraem são os da Grandeza. Ou os da sua substituta menor que é a Fama – a deusa da qual Virgílio dizia que «mais veloz do que ela não existe outra desgraça» (Eneida, IV, 174)...

Quando aparece um político a acenar com esse sonho de Grandeza no deserto de sonhos em que vivemos hoje (o prazer e o entretenimento, ligados à pobreza do espaço público, secaram tudo), as pessoas sentem-se empolgadas. Porque se trata de algo que apela ao que cada um de nós tem de mais elevado e o une aos outros, o que nos faz sentir mais vivos.

Trata-se, claro, de um sonho irrealista e irrealizável: não há, nunca houve ninguém, nem nenhum país ou civilização que fosse verdadeiramente grande em todas as suas dimensões. Sim, nem Buda (com a sua desconfiança misógina), nem Cristo (com a sua intolerância com os vendedores ou com a figueira), embora ambos se tenham aproximado muito da verdadeira Grandeza. De países ou civilizações nem vale a pena falar.

O problema é que este sonho de Grandeza não é inofensivo, longe disso. Porque está indissoluvelmente associado ao que há de mais baixo. Porque o sonho da Grandeza só pode ser construído sobre a Pequenez dos outros. Se esta Pequenez não for natural e pacificamente aceite (e não o é nunca pois também eles têm os seus sonhos de Grandeza), terá de ser imposta à força. Com todo o cortejo de violência e crueldade que se lhe segue.

Não é um sonho bonito. E, infelizmente, as pessoas só demasiado tarde é que o descobrem.


Eis uma moral possível desta crónica:

Tudo o que separa, discrimina e subordina, tudo isto que tem a sua raiz no medo do outro, só serve para, na melhor das hipóteses, nos exilarmos na solidão mais estéril; na pior das hipóteses, para perdermos a amizade, a confiança, a justiça, a liberdade e, no fim, a vida (como a invasão da Ucrânia o comprova).


(…) Para já, o planeta mais próximo de nós parece ser Marte. (173)

Sim, já se pensa colonizar Marte. O que, neste momento, é no mínimo insólito. Desperdiçar recursos (naturais, humanos e financeiros) para transformar Marte numa nova Terra, quando com muitos menos gastos se conseguiria tornar o nosso planeta viável no presente e para as futuras gerações, temos de admitir que é francamente estúpido. Como também disse ao The Guardian Neil DeGrasse Tyson:

If you want to ship a billion people to Mars and have them live there as they are living on Earth, you’ll have to terraform Mars – and that means turning Mars into an oasis of some kind. If you have the power of geoengineering to terraform Mars into Earth, then you have the power of geoengineering to turn Earth back into Earth. So, the argument that if we trash Earth we need another planet doesn’t work. I am not convinced that escaping Earth and leaving others behind to die is the most sensible solution out there.


Façam o favor de pensar na viagem.


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 26

 


26 ~ O Memorial de Cervantes

Muito particular é a comunidade dos escritores.


Patrick [Deville] sabe, todos nós sabemos, que a transmissão dos livros, que sempre foi escassa, selectiva como uma guerra biológica darwiniana, em que só sobrevivem alguns – (…) (163)

 Contra esta guerra, acredito que podemos opor com sucesso a nossa fidelidade de leitores.


(…), como os nossos contemporâneos estão deixando de ser leitores de livros. (…) (163)

Estaremos mesmo a deixar de ler livros?

Sei que nos programas escolares se inclui a leitura de livros. Infelizmente, não para um simples prazer, mas para outra coisa qualquer: um relatório, uma apresentação, um teste ou exame. E, claro, retirando o hábito desse estímulo, dessa “recompensa”, qualquer ser humano tende a abandonar o comportamento correspondente.

Sei também que, em muitos cursos universitários, a leitura de livros não é minimamente estimulada, dando-se a preferência à leitura de artigos científicos. Na minha mais recente passagem pela Universidade, apenas uma disciplina de todo o curso incluía a obrigatoriedade de ler alguns livros. No entanto, a minha experiência é que essa restrição aos artigos académicos me levou à leitura de livros. Porquê? Porque estes se encontram escritos de forma muito mais interessante e atraente, além de até não se encontrarem tão desatualizados assim relativamente aos artigos.


Nova pergunta: a leitura de livros não terá sido sempre um apanágio somente de uns poucos?
O que penso é que a democratização da cultura criou expetativas muito elevadas nos agentes culturais. Ou seja, mais exatamente a expetativa de uma população que, no seu todo, lesse, estudasse, ouvisse música, fosse ao cinema, ao teatro, a museus, etc. Ora, na atualidade, dadas as brutais condições laborais e a expressiva quantidade de população que vive na pobreza, esperar isto não será um pouco menos, apenas um pouco menos do que utópico?
Aliás, pergunto-me se os intelectuais, sabendo disto, não se deveriam sentir mais motivados a uma intervenção cívica junto da sociedade. Como Lídia Jorge faz, por variados meios. E de que o presente livro é um bom exemplo. Contribuindo para a libertação do medo e das privações de que sofre muita gente, talvez deste modo acabassem por ser mais lidos...


(…) Mas Hubert Haddad, autor de um livro sobre o gueto de Varsóvia, escreveu-me na primeira página – Para si, por esta comunicação secreta. É essa comunicação secreta que nos une, (…) (163)

Lídia Jorge refere-se nesta crónica à comunicação entre escritores. No entanto, neste episódio específico, ponho a hipótese de que talvez Hubert Haddad a estivesse a ver principalmente como leitora. 

Na verdade, não sei como é entre escritores. O que sei é que também entre muitos leitores e escritores existe essa comunicação secreta que a ambos une indissoluvelmente até ao fim da vida. De tal modo, por exemplo, que às vezes suspeito que o meu último pensamento antes de morrer irá para alguma obra daquele escritor que está entretecido a toda a minha existência. Não, não é Lídia Jorge (que, não obstante e sem dúvida alguma, pertence há muito tempo ao meu panteão particular, juntamente com Albert Camus), mas sim Vergílio Ferreira (que me ensinou a ser, a ver, a sentir, a pensar, enfim, a ser pessoa inteira dentro do possível que eu fui sendo).

Esta comunidade também é feita de silêncios, de olhares, de sorrisos cúmplices. Muitas vezes, nós, os leitores, tentamos lançar palavras e, tal como no final de La Dolce Vita, de Fellini, perante o fracasso da comunicação, porque não se consegue perceber, recorremos a um sorriso longo e gentil (que, no filme, será talvez um dos mais belos sorrisos da história do cinema):



(…) Ele [Miguel de Cervantes] iluminou as Letras, mas quando o fez não sabia que nós o esperávamos sobre a Terra. (…) (165)

Hoje, a escritora sabe, e talvez não precise de imaginar, que uma extensa linhagem de leitores a espera, como quem aguarda e acolhe alguém muito chegado da família. Dessa forma, a escritora será para sempre mãe, irmã, filha e companheira não só de muitos contemporâneos como de futuros leitores.


(…) É o que diz de outra forma Patrick Deville.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 25

 

(Orgão de Boliqueime, foto tirada de | DIRETO | Festival Órgão Algarve´21 - Boliqueime)


25 ~ O Órgão de Boliqueime

Da última vez que passei por Leipzig ia acompanhada por um professor de música. (…)


(…) Aconteceu no ano de 1724 e como é costume dizer quando a alma fica cheia, nunca mais deixou de acontecer. (155)

Sim, fica sempre em nós esse rasto de que já falei a propósito da Literatura no comentário anterior. Bela maneira de colocar a questão.


Leio a história,

(...) história intensa e absoluta, uma história daquelas que iluminam qualquer entardecer (...) (157),

de Maria Inácia e porque

(…) a humanidade, como a História, é feita de pequenos mundos. (…) (159),

não consigo deixar de pensar em como nada nunca está suficientemente conquistado na nossa civilização. Quero eu dizer mais especificamente, nunca há tréguas na luta pela Dignidade inteira e indivisível de todos os seres humanos.

Como podem as pessoas, sem poder, nem dinheiro, nem prestígio, como Maria Inácia, não desanimar desse combate? A memória e a obstinação, ambas ao serviço da verdade, são as armas que todos temos à nossa disposição para fazer frente a quem quer que seja. Principalmente, àqueles que querem limitar a Liberdade, condição necessária e prévia à sobrevivência daquela Dignidade.


Esta crónica é talvez a mais comovente de todas neste livro. Aquela em que Lídia Jorge deixou as emoções extravasarem um pouco, para nosso deleite e inspiração. Mas, especialmente, pela desproporção de forças entre Maria Inácia e aqueles que tinham todo o poder e todos os meios para retirar dali o órgão.


É interessante ouvir esta crónica a ser dita pela própria Lídia Jorge, aqui, na RTP Play. Ou aqui, no Festival Órgão Algarve´21 - Boliqueime, a partir do minuto 9:25.


(…) então deve pedir-se ao organista Rúben Bárbara, quando vier de férias a Portugal, que no meio das sequências litúrgicas de louvor a Deus, dedique uma delas a uma figura anónima, profana, salvadora do órgão, e chame a essa peça, Salve, Maria Inácia, rainha de Boliqueime. Talvez os santos gostem e nós também.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Em Todos os Sentidos - 24

 


24 ~ O Signo da Brevidade

Dizem-me que estas crónicas não são verdadeiras crónicas porque têm contos na sua origem. (…)


Dizem, quem?, pergunto-me. Vêm-me ao espírito, vejo-os, alguns pelo menos, os puristas da língua, dos géneros literários, de tudo e mais alguma coisa, para quem nada é o que deveria ser, polícias implacáveis da vida diversa e inesgotável. Como eles me cansam, por vezes!


Uma crónica que é um verdadeiro hino ao conto, em que se conjuga a busca do seu sentido tanto pela racionalidade como pela poesia.


(…) essa harmonia entre início, fim e exaltação de sentido, tecidos sobre o signo da brevidade, era a cartilha que presidia ao conto. (150)

Bela definição do que é um conto! Leio-a e penso nos autores de contos que deixaram em mim um tão longo rasto que aí perdurarão sempre até ao fim da minha vida.

Lídia Jorge, claro. Tocam-me particularmente todos aqueles contos, e são muitos, em que as mulheres lutam pela sua dignidade face a um mundo adverso (que, às vezes, inclui também outras mulheres).

Vergílio Ferreira. O drama, a tragédia, mas também o humor, a poesia, a plenitude.

Ray Bradbury e Mia Couto. Tão diferentes, mas iguais na dor interior que me fazem sentir de estar tão longe ainda da sabedoria que eles revelam nos seus contos.

Somerset Maugham. Com os seus retratos desencantados embora, ao mesmo tempo, compassivos de uma humanidade imperfeita.

Jorge Luís Borges. A inteligência, a racionalidade, o mistério e a ironia.

Jack Schaeffer e Louis L’Amour. Duas escritas diferentes, mas a mesma fé inabalável na possibilidade de uma humanidade digna e com grandeza.

James Herriot. O humor e a ternura, envolvendo pessoas e animais.


(…) No fundo o que é preciso é que o sentido em parte se desvende e em parte nos resista, em parte fique a pairar, incompleto e breve, como um poema fica. (…) (152)

Isto (e ser tocado pela Beleza) é o que me atrai infatigavelmente para a Literatura, todos os dias da minha vida. Uma Literatura que interroga mais do que afirma. Que assume a inteligência do leitor, convidando-o a coconstruir o texto. Que mostra como na vida nem tudo é visto, nem tudo é explicado, nem sequer explicável. Propiciando encontros emocionais infindáveis entre o leitor, a escritora, as personagens, a paisagem, a época. Tudo isto cumprido de tal forma que vemos verdadeiramente, como diz Novalis citado por Lídia Jorge, que

Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido. (153)


E eu, gostarei de histórias? É uma coisa estranha, pois não sei contar histórias e conto muito poucas. Além de que a minha leitura preferida é o ensaio, não é a ficção (que, muitas vezes, acho pobre, previsível e demasiado violenta para a minha sensibilidade, tudo exatamente ao contrário do ensaio)).

Nunca soube contar histórias, nem escrevê-las, embora tivesse tentado durante muitos anos. Hoje, dedico-me a estas simples notas de rodapé; e a um ou outro poema. Mas o que me dói mais, olhando para trás, foi não ter sabido contar tantas histórias quantas o meu filho me pedia quando ele era pequenino.

Assim, para apaziguar o vazio e a dor inerentes à existência, a verdade é que não consigo passar sem histórias. No fundo, como todos nós. De as ler principalmente, pois é só na leitura que eu consigo ter o prazer de criar com a imaginação tudo o que a autora não nos transmitiu, pelo menos não explicitamente.


(…) Viciada no conto, como poderia conceber crónicas diferentes?


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...