28 ~ Guilherme e o Mito
Quando me sugerem que fale da forma como se processa a imaginação, sou tentada a contar uma história selvagem. (…)
A questão parece-me ser esta: os escritores serão perfeitamente criativos, ou irão buscar ao seu fundo de experiências o material para o qual irão olhar de uma forma pouco habitual e disso darem notícia? Vou por esta última hipótese, porque senão seria muito difícil alguém se identificar com o que eles escrevessem. A verdade é que mesmo os escritores mais “estranhos” ou “difíceis” (lembro, em Portugal, um Rui Nunes, por exemplo) podem encontrar uma legião de admiradores e seguidores apaixonados da sua obra.
Eu sei de mim que não sou particularmente criativo a escrever. É raro alguma ideia minha ser perfeitamente original. Mais tarde ou mais cedo, descubro que já houve alguém que pensou o mesmo e que escreveu sobre isso. Por isso, não posso falar baseado na minha experiência. Será este o meu viés em relação à opinião que eu possa ter sobre este assunto.
No entanto, no fundo, talvez Lídia Jorge se aproxime da hipótese que ponho. O episódio que conta de Guilherme, seu companheiro de escola, terá sido pelo menos o motor que pôs em movimento todo um organismo em direção à criatividade da autora.
Episódio esse que me recorda o que se passou também com aquele migrante do Mali, Mamoudou Gassama, de 22 anos, que sobe pela fachada de um prédio em França para ir salvar um menino de 4 anos que se encontrava pendurado de uma das varandas dos andares superiores. E que, após o seu feito, cai no chão sem forças, esgotado pelo seu feito, tal como Lídia Jorge conta que aconteceu com Guilherme.
E é deste fundo, deste húmus, desse repositório primordial de imagens e de palavras, que talvez os escritores vão fazendo crescer os seus livros como se fossem longos pomares, das quais nós, leitores felizes, tiramos, comemos e saboreamos alguns frutos. Árvores às quais voltamos, uma e outra vez, sendo os frutos saboreados sempre iguais e diferentes. Que acordam outros repositórios de imagens e de palavras. E que talvez levem cada leitor também à escrita.
