domingo, 7 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 15

 

(foto tirada de Prof William)


15 ~ Emily e o Cérebro

Estamos na Primavera de 2019. (...)


(...) Darwin afirmou que a diferença entre a mente humana e a dos animais superiores é apenas uma questão de grau e não de espécie. Isto é, a humanidade é uma categoria dentro da categoria dos bichos. (...) (98)

Note-se que não há uma categoria de "bichos", mas muitas categorias; logo, será adequado (para efeitos de uma reflexão produtiva) estar a pôr lado a lado a categoria "humanidade" versus a de "bichos"? O que Darwin aliás queria dizer é "espécies". 

Uma primeira vantagem desta ideia de Darwin é que, se não somos criacionistas, nós ficamos a saber que fazemos parte deste planeta e que somos todos locatários dele, não donos. Isso talvez nos ajude a mudar a nossa relação predadora e destrutiva que temos atualmente em relação a ele.

Uma segunda vantagem - e, para mim, a mais importante - é que podemos ter esperança na "natureza humana". De facto, se não somos assim tão diferentes das outras espécies, então esta característica de nos trucidarmos uns aos outros de forma fria, planeada, organizada e gigantesca é uma criação nossa e pode ser modificada. Dado que as outras espécies não o fazem, não poderemos então falar de um instinto assassino a fazer parte desta suposta "natureza humana", porque ele não existe em lado nenhum dirigido para os membros da própria espécie.


(...) Mas na última secção, a do futuro do cérebro, a exposição dava um salto no ar e enviava-me para a contiguidade entre os animais e as plataformas artificiais que mimam o cérebro humano e o expandem sem limite. (...) (98)

Deste tempo e deste lugar em que vivo, onde é que eu penso que os computadores e os robôs da Inteligência Artificial (IA) nunca conseguirão igualar o cérebro humano ou, pelo menos, ainda estão muito, muito longe de o conseguir? Talvez no:

- Pensamento sistémico (por oposição a um pensamento linear talvez mais possível de replicar artificialmente). Este pensamento é que está verdadeiramente ligado à nossa humanidade e à nossa sobrevivência.

- Pensamento informado pela emoção e esta vinda das vísceras, algo que os computadores e robôs não têm. Este pensamento é o único que nos permite ser autenticamente humanos. António Damásio descreve a incapacidade de sobrevivência dos seus doentes que deixaram de ter acesso às suas emoções: isso impossibilitava-os de tomar decisões inteligentes.

- Pensamento e destino orientados pelo "Porquê?" e pelo "Para quê?", fundados numa ânsia genuína e infindável de conhecimento e de sabedoria. Que é uma marca especificamente humanas e que faz realmente toda a diferença.

Haverá mais? De certeza que sim. A nossa complexidade (e, já agora, a dos animais superiores, nos quais incluo claramente os cães, por exemplo) leva a crer que ela é praticamente infinita e, portanto, irreplicável.

Acredito genuinamente que o problema não é a IA igualar o cérebro. O problema é pormos uma IA profundamente limitada e deficiente a realizar funções na nossa sociedade (fala-se muito, por exemplo, em dar aulas nas escolas e universidades) que antes apenas o cérebro humano realizava. Não será esse o verdadeiro perigo, porque isso poderá levar a uma violência irrecuperável sobre a nossa humanidade mais profunda?


(...) De facto, a porta de entrada não tinha nada a ver com a porta de saída.


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 14

 



14 ~ O Sol do Marmeleiro

Ao lado das salas de teatro e de ópera dos séculos passados, a primeira metade do século XX ergueu no meio das cidades salas para cinema, e assim a aventura humana, com sua vocação de viagem e criação de fantasia, ficaria para sempre diferente. (...)


(...) Somos os filmes que vimos. (...) (90)

Que filmes podem ascender a este estatuto?

Para mim, poucos, pois numa hierarquia de fruição de obras de arte, num primeiro lugar muito destacado vem a literatura. Depois, a música. E, bastante mais para trás, o cinema. Seguido da dança e bailado, vindo no fim a pintura e a escultura. Não tenho explicações para isto: são assim as minhas afinidades, estabelecidas lá num lugar para mim inacessível.

Mas, voltando à interrogação inicial. O filme que me surgiu na mente, sem refletir, foi Uma História Simples, de David Lynch. Também não sei porquê, mas sei que uma grande parte do que sou está entretecida naquele filme.

Lídia Jorge dá-nos conta desta dificuldade em explicar tudo isto:

(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Podem dizer-me?

Nada, talvez seja a resposta. Nada que se possa explicar por palavras. Estamos no domínio da experiência, e com ela só há vivência, não há ciência. (...) (91)

Bom, eu talvez nem queira investigar a questão muito a fundo. Quando procuramos prender as emoções que uma obra de arte nos suscita, a palavra-chave parece-me ser precisamente "prender". Eu não desejo isso. Gosto que um filme ande à desfilada e se espalhe dentro de mim por regiões que eu nem sequer suspeito; que crie um clima e dê uma cor àquilo que me sinto ser, sem eu saber explicar por palavras que clima ou que cor serão aqueles.


O que leva ao fecho das salas de cinema? Lídia Jorge propõe que

(...) O cinema assemelha-se a um livro, exige tempo e espaço alargados. Receio bem que sejam as exigências tradicionais da narrativa que fechem as salas de cinema dos nossos bairros. (94) [hoje, das nossas cidades também]

Com a finalidade de contribuir para a reflexão sobre este tema, eu gostaria de colocar aqui a minha experiência, também ela de afastamento das salas de cinema. Seguindo o indício de sugestão de Lídia Jorge feito aqui acima, vou pôr lado a lado a experiência de literatura e a experiência do cinema.

Gosto da lentidão associada à inteligência, para ter o prazer de parar e refletir sobre o que estou a ler.

Gosto da paz por oposição à violência, sendo esta muito comum hoje na arte em geral, é certo, mas muito mais penosa no cinema e na literatura. Porém, apesar de tudo, parece-me que menos disseminada nesta última.

Gosto de imaginar, muito, mas mesmo muito mais do que ver (veja-se um outro exemplo: prefiro a fotografia a preto e branco à a cores).

Gosto mais do belo do que do real feio (no cinema sinto que este se nos impõe muito mais desabridamente, ao mesmo tempo que temos menos defesas para nos protegermos desse real).

Não, não me parece que tenha problemas com a narrativa. Sinto que será noutro sítio que está o nó do problema.

Ah, e claro, gosto mais de estar só do que estar acompanhado. Acrescento esta razão somente por uma questão de honestidade, pois não a posso generalizar a outros: a verdade é que os festivais de música popular e as salas de concerto continuam a encher (embora as salas de concerto sejam talvez ainda mais raras do que as de cinema, na verdade).

Como reflexão final, talvez eu possa dizer que os filmes de que mais gosto são aqueles em que existe uma maior coincidência entre o que estou a assistir e o que eu poderia imaginar. Quando a discrepância aí é maior, menor será a minha adesão.


De qualquer modo, esta crónica de Lídia Jorge é extraordinariamente interessante, pois não a poderemos ler também como se a autora estivesse a falar da arte em geral e não apenas do cinema?


(...) - Mas o que é que vocês vêem nisto? Enquanto essa pergunta estiver activa, e houver quem se ria em voz baixa da pergunta, o cinema continuará a existir. Receio, porém, que em breve tantos se levantem que não fique ninguém para dizer, Cala-te, pelo amor de Deus.


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 13

 

(Foto de El País)


13 ~ A Cidade Traída

Aconteceu há muito tempo. (...)


(84) «(...) Desses dias guardei para sempre a certeza de que a Natureza não sabe que nós existimos.»

No sentido de que Lídia Jorge fala, sim. Mas será sempre assim? Depende. Se a incomodarmos demasiado, como temos vindo a fazer neste últimos dois séculos, quase que podemos ter a certeza de que ela irá reagir mal à nossa presença depredadora. Poderá ser uma espécie de generalização da terceira lei de Newton: perante toda a ação, surge sempre uma reação em sentido oposto, mas de igual intensidade. Se for ao fim de muitos anos de devastação acumulada, penso que será uma reação de uma intensidade incalculável.

De qualquer modo, gostaria aqui de questionar a ideia de existência de uma Natureza, como se ela fosse uma entidade separada e distinta de nós humanos. Na verdade, parece-me, que essa entidade não existe. Um pouco como não existe um escorpião (dos signos do Zodíaco) nos céus noturnos, mas apenas um nome a um agrupamento de estrelas, feito arbitrariamente por nós.

Portanto, e por outras palavras, todos somos natureza, ela não existe como algo separado de nós. Esta ideia é importante porque desloca o foco de algo que estejamos a fazer a essa entidade inexistente ("Natureza") para o que estaremos a fazer a nós próprios, a todos nós, sem exceção. Desse modo, ao destruir (florestas, por exemplo), é legítimo suspeitar que nos estamos a destruir a nós próprios. Se esta ideia ganhar raízes, pode ser que nos tornemos pelo menos mais prudentes e a conter mais a nossa avidez.


Lídia Jorge vem ao encontro desta ideia, embora abordada por ela de forma diferente:

(...) Não tenho palavras para esse desastre, e as minhas ações são limitadas. Mas o que sei é que se tem de encontrar uma palavra diferente para compaixão e solidariedade, palavras que supõem de um lado um sujeito salvo e, do outro, um sujeito para salvar. E não é mais assim. A cada dia que passa, o que acontece lá é como se acontecesse aqui, o que acontece aos outros é o mesmo que pode acontecer na nossa rua. A Terra é um só espaço, e todos os países estão unidos pelo mesmo traço de convivência necessária. (...) (87)


(...) Que palavras temos para chamar a isto?


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Em Todos os Sentidos - 12

 

(Pintura tirada de A a Z, de Nuno Júdice)


12 ~ O Mistério

Grandes dificuldades enfrentam os organizadores dos Festivais Literários para encontrarem temas que sejam interessantes e agregadores da população convidada. (...)


O debate livro vs. e-book (77 e 78). O que eleger?

Eu prefiro ler livros a e-books. Isso é claro para mim. A razão dessa preferência é que já o é muito menos.

Diria que, primeiramente, consigo estabelecer uma relação muito mais emocional com o livro do que com o e-book. Há um amor, um sentimento de afeição (que roça a adoração) que nunca surge na leitura de um e-book.

Mas isto pode ter por detrás uma causa muito simples: durante a maior parte da minha vida, desde que me lembro de ser, que os livros foram os meus melhores e mais fiéis amigos e companheiros. Hoje ainda assim acontece. A forma como me sinto a ser acolhido por um livro é muito mais afetuosa e segura do que me acontece experimentar com qualquer pessoa. Portanto, há aqui um viés, para não dizer uma doença, que leva a que fique emocionalmente muito mais atraído para o objeto físico e individualizado que é cada livro.

Sim, porque cada livro é um objeto distinto e particularizado. Os meus e-books estão todos aglomerados num suporte, o e-reader, que é sempre o mesmo. Talvez essa seja uma das razões por que mergulho muito mais profundamente no espaço, clima e território espiritual do livro do que consigo fazer com o e-book. Há uma relação pessoal e diferente que estabeleço com cada livro. Na verdade, com o e-reader passa-se o seguinte:

(…) e-books (…) lêem-se e desaparecem como aparições num lago de que não se conhece o fundo. (77)

Excelente imagem de Lídia Jorge que se harmoniza com a minha experiência. E, de facto, a investigação mostra que os estudantes têm mais facilidade em memorizar conteúdos em livros do que conteúdos eletrónicos.

Pelo meu lado, quais são os livros, lidos no e-reader, que me ficaram no espírito? Na verdade, muito poucos, embora eu não possa falar com inteiro conhecimento de causa porque, sempre que começo a gostar realmente de um e-book, vou logo comprar o livro em papel. Quanto aos restantes, a maior parte deles são abandonados por mim no princípio ou, no máximo, a meio.

Termino esta secção com o belíssimo poema de Nuno Júdice que acompanha a pintura acima, do blog A a Z:

Tempo fluvial

Se eu definisse o tempo como um rio,

a comparação levar-me-ia a tirar-te

de dentro da sua água, e a inventar-te

uma casa. Poria uma escada encostada

à parede, e sentar-te-ias num dos seus

degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:

«Não te apresses: também a água deste

rio é vagarosa, como o tempo que os

teus dedos suspendem, antes de virar

cada página.» Passam as nuvens no céu;

nascem e morrem as flores do campo;

partem e regressam as aves; e tu lês

o livro, como se o tempo tivesse parado,

e o rio não corresse pelos teus olhos.


Continuando com Lídia Jorge.

- E você, porque é que escreve? (…) Eu costumo dizer que escrevo para enviar cartas para longe, (…) Mas às vezes não é bem assim. (78/9)

E eu? Eu escrevo para pensar melhor, para organizar melhor os meus pensamentos. Não sou original, há muitos escritores que expressaram variações desta ideia. Por exemplo, Joan Didion: 

I don't know what I think until I write it down.

Ou Faulkner:

I never know what I think about something until I read what I've written on it.

Claro que, às vezes, sinto uma nostalgia de algo que só muito, mas mesmo muito raramente me existiu: um leitor afável. Ou seja, provavelmente escrevo também para ser lido, apesar de não ter esperanças de que isso vá alguma vez acontecer. Porém, um facto é este: escrevo aqui neste blog... que é público! 

Mas, apercebo-me agora, que escrever para não é bem a mesma coisa do que escrever porque.

Então porque escrevo? É verdade que sinto prazer na aquisição de sabedoria. Ora, quando escrevo, surgem-me pensamentos, ideias e reflexões que não apareceriam de outra maneira. Estes novos pensamentos são descobertas que faço, em relação ao mundo e às pessoas; e estas descobertas vão-me enriquecendo de compreensão e, portanto, de sabedoria. Este é um processo que me proporciona um prazer profundo. Portanto, no fundo, uma razão banal: escrevo porque me dá prazer!

Porque escreve, então, Lídia Jorge (80-82)? Tal como acontecia com a sua avó,


A minha escrita é isso. Ao escrever, talvez eu tenha uma moeda dentro da minha mão. Talvez não tenha coisa nenhuma. Mas, ainda assim, enquanto for viva, direi - «Toma, é para ti».


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...