15 ~ Emily e o Cérebro
Estamos na Primavera de 2019. (...)
(...) Darwin afirmou que a diferença entre a mente humana e a dos animais superiores é apenas uma questão de grau e não de espécie. Isto é, a humanidade é uma categoria dentro da categoria dos bichos. (...) (98)
Note-se que não há uma categoria de "bichos", mas muitas categorias; logo, será adequado (para efeitos de uma reflexão produtiva) estar a pôr lado a lado a categoria "humanidade" versus a de "bichos"? O que Darwin aliás queria dizer é "espécies".
Uma primeira vantagem desta ideia de Darwin é que, se não somos criacionistas, nós ficamos a saber que fazemos parte deste planeta e que somos todos locatários dele, não donos. Isso talvez nos ajude a mudar a nossa relação predadora e destrutiva que temos atualmente em relação a ele.
Uma segunda vantagem - e, para mim, a mais importante - é que podemos ter esperança na "natureza humana". De facto, se não somos assim tão diferentes das outras espécies, então esta característica de nos trucidarmos uns aos outros de forma fria, planeada, organizada e gigantesca é uma criação nossa e pode ser modificada. Dado que as outras espécies não o fazem, não poderemos então falar de um instinto assassino a fazer parte desta suposta "natureza humana", porque ele não existe em lado nenhum dirigido para os membros da própria espécie.
(...) Mas na última secção, a do futuro do cérebro, a exposição dava um salto no ar e enviava-me para a contiguidade entre os animais e as plataformas artificiais que mimam o cérebro humano e o expandem sem limite. (...) (98)
Deste tempo e deste lugar em que vivo, onde é que eu penso que os computadores e os robôs da Inteligência Artificial (IA) nunca conseguirão igualar o cérebro humano ou, pelo menos, ainda estão muito, muito longe de o conseguir? Talvez no:
- Pensamento sistémico (por oposição a um pensamento linear talvez mais possível de replicar artificialmente). Este pensamento é que está verdadeiramente ligado à nossa humanidade e à nossa sobrevivência.
- Pensamento informado pela emoção e esta vinda das vísceras, algo que os computadores e robôs não têm. Este pensamento é o único que nos permite ser autenticamente humanos. António Damásio descreve a incapacidade de sobrevivência dos seus doentes que deixaram de ter acesso às suas emoções: isso impossibilitava-os de tomar decisões inteligentes.
- Pensamento e destino orientados pelo "Porquê?" e pelo "Para quê?", fundados numa ânsia genuína e infindável de conhecimento e de sabedoria. Que é uma marca especificamente humanas e que faz realmente toda a diferença.
Haverá mais? De certeza que sim. A nossa complexidade (e, já agora, a dos animais superiores, nos quais incluo claramente os cães, por exemplo) leva a crer que ela é praticamente infinita e, portanto, irreplicável.
Acredito genuinamente que o problema não é a IA igualar o cérebro. O problema é pormos uma IA profundamente limitada e deficiente a realizar funções na nossa sociedade (fala-se muito, por exemplo, em dar aulas nas escolas e universidades) que antes apenas o cérebro humano realizava. Não será esse o verdadeiro perigo, porque isso poderá levar a uma violência irrecuperável sobre a nossa humanidade mais profunda?
(...) De facto, a porta de entrada não tinha nada a ver com a porta de saída.