quinta-feira, 30 de março de 2023

Em Todos os Sentidos - 32, a

 


32 ~ A Rapariga dos Fósforos

Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga dos Fósforos. (…) (201)

 

Também eu. Histórias de Hans Christian Andersen que me encantavam, me faziam sonhar e muitas das quais deixaram um rasto longo e emotivo que chegou até hoje. Tal como se pode deduzir que aconteceu a Lídia Jorge (ver a sua última afirmação desta sua crónica).

 

Antes de passar à crónica de Lídia Jorge, partilho a notícia cuja foto escolhi para encimar este meu comentário:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simples, estamos a falar de «pobreza extrema»! Eu nem faço ideia do que esta expressão quer dizer na prática real e concreta do dia-a-dia. Nem consigo imaginar, só no nosso país dos lucros fabulosos das grandes empresas e bancos, o que são 170 mil crianças!

Sim, em 2023, num país civilizado e numa das regiões mais civilizadas e desenvolvidas do mundo, temos pelo menos 170 mil “raparigas dos fósforos”!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:

 



Talvez não por acaso, Hans Christian Andersen percebe que a única solução para a sua heroína (sim, escolho intencionalmente esta palavra “heroína”, pois é o que são verdadeiramente todas estas crianças!) é a morte.

Muitas crianças no nosso país seguem o seu exemplo: “Suicídio é a principal causa de morte em crianças e jovens adultos em Portugal”. E, hoje em dia, cada vez mais crianças, e cada vez mais novas, tentam suicidar-se.

Lídia Jorge chorava e continua possivelmente a chorar, como muitos de nós.

(continua em 32, b)


Em Todos os Sentidos - 32, b

 

(foto tirada daqui)


(…) Nessa altura as crianças choravam mas ninguém se importava com o motivo do seu choro. (…) (201)

A educação antiga visava (mesmo quando as pessoas não tinham consciência disso) objetivos impostos pela cultura dominante. Alguns desses objetivos tinham a ver com o facto de o poder pretender cidadãos preparados para ir para a guerra.

A guerra exige uma dureza e uma ausência de sentimentos (matar alguém da nossa espécie que nunca vimos e que nunca nos fez mal, nem nos ameaçou, é algo de absolutamente contra natura). Logo, a educação dada procurava que, desde pequenas, as pessoas se habituassem a reprimir as suas emoções mais humanas, transformando-as em pequenos monstros. Podemos dizer que, durante séculos, o ser humano foi bem sucedidos nessa finalidade.

Por isso, não se procurava dar nenhum conforto especial quando a criança ficava triste, por exemplo. Aliás, nos rapazes, tal coisa era francamente desaprovada até muito recentemente: por exemplo, “um rapaz não chora!”

Hoje vemos resquícios ainda significativos desta situação. Nomeadamente, por parte de pessoas que acabaram por interiorizar a educação que tanta solidão e tanto sofrimento lhes trouxe.

Só assim se pode compreender, face ainda à infinidade de maus tratos que atingem as crianças, tanto no nosso país como no mundo, a afirmação pública (eu estava lá e assisti) feita por um jornalista e escritor famoso de que “atualmente, há uma preocupação doentia com as crianças”.

 

(…) Criança era então uma pequena criatura que quase todos os dias chorava. (…) (201)

Aos olhos dos adultos, podia ter razão para isso ou não. Mas ela, ela sabia o que sentia; e, às vezes, até sabia a razão, como no caso de Lídia Jorge.

Quando é que uma pessoa adulta chora? Podemos chorar de felicidade, mas o mais comum é chorarmos de tristeza, de frustração, de medo ou de raiva. E quando é que isto acontece?

Quando vivemos eventos (externos ou internos) dolorosos, como uma perda, uma morte, uma violência ou qualquer outra situação dramática (como sabemos, podemos nem estar a viver essa situação, mas apenas a assistir a ela, como é o caso aqui contado por Lídia Jorge).

Genericamente, sentimo-nos assim quando os outros nos tratam mal ou tratam mal alguém que amamos. Ou seja, quando há uma violência (ativa ou passiva) no contexto de um relacionamento.

Ora, a questão que se impõe é: Porque havemos de pensar que as crianças são diferentes dos adultos? Porque é que não lidamos com o seu chorar como o fazemos com um adulto?

Estas são interrogações que cada vez mais me deixam conturbado. Até porque sabemos que as crianças têm menos experiência, menos saber e menos defesas em relação àquelas situações do que um adulto. Isto é, a haver uma diferença entre adulto e criança, é no sentido de aquelas emoções serem muito mais perturbadoras para a criança do que para o adulto. E, portanto, ela precisar muito mais de conforto do que o adulto. Então, porque desprezamos estas emoções na criança?

Quando penso nisto, lembro-me de que até há relativamente pouco tempo também se desprezavam estas emoções nas mulheres. Dizia-se delas que eram “o sexo fraco” (não serão ainda vistas assim, hoje, por muitos?) Porque elas eram consideradas seres inferiores aos homens. Porventura, consideraremos ainda hoje as crianças essencialmente inferiores aos adultos?

Mas com as crianças há ainda uma outra agravante. Há um ponto em que, pelo menos, todas as correntes psicológicas estão de acordo: seja o que for que fizermos (ou não) às crianças, isso terá impactos profundos e duradouros para toda a sua vida. E, claro, para aqueles que os rodeiam mais de perto.

Portanto, não percebo.

(continua em 32, c)


Em Todos os Sentidos - 32, c

 



(…) Imaginava soluções para a sua vida miserável (…) (201)

Sim, as crianças têm em elevado grau sentido moral, empatia e compaixão. A menos que os cuidados que receberam e continuam a receber primem pela ausência ou ela seja mesmo maltratada (que é o caso de uma infinidade de crianças, hoje em dia.

Esta confissão de Lídia Jorge demonstra indiretamente que recebeu os cuidados devidos na altura certa. Foram todos bons? Provavelmente não, já que não há pais (ou educadores) perfeitos. Mas até é bom que essa perfeição não exista, pois a criança cresce e ganha maturidade também quando se esforça por procurar satisfazer as suas necessidades que não estão a ser cuidadas como ela desejaria (desde que as suas necessidades básicas se encontrem satisfeitas, claro está!).

 

Lídia Jorge, muito acertadamente, considera que ajudamos quem precisa porque isso dá um sentido à nossa vida e não simplesmente pelo prazer de o fazer. No entanto, este prazer não é uma criação nossa. Todos nós nascemos com esta característica: numa espécie tão social como a nossa (em que a sociabilidade é, e sempre foi, o fator mais necessário e importante para conseguirmos sobreviver, desde bebés até velhos), o nosso organismo recompensa-nos com sensações agradáveis e com bem-estar qualquer iniciativa nossa mais pró-social. Não é algo que possamos suprimir.

Acrescenta também Lídia Jorge que não devemos sacrificar pessoas no presente em nome de uma qualquer utopia do futuro, algo com o qual também concordo inteiramente. Ah, claro, tudo isto é dito da forma superior com que Lídia Jorge escreve e não desta maneira seca e pobre com que eu o faço.

 

Lídia Jorge põe, em seguida, o problema de sermos enganados por pessoas que falsamente nos solicitam ajuda mesmo quando não precisam dela; ou quando, pelo menos, podiam fazer qualquer outra coisa para se ajudarem a si próprias sem estarem a espoliar indevidamente os outros.

É verdade, como em tudo no mundo, há sempre quem se aproveite. Eu resolvi o problema da seguinte maneira.

Dar ou não dar é um problema que é só meu, é da minha exclusiva responsabilidade. Que eu resolvo normalmente dando porque é isso que me traz mais sentido à minha vida do que não dar. 

Quando dou, aquilo que dou deixa de ser meu, naturalmente. Logo, o que a pessoa faz com o que eu lhe dei já não é da minha conta, não é um problema meu, mas um problema dela. Eu fiz a minha parte da obrigação; ela, da sua parte, fará o que entender, isso já não pertence à minha equação (a menos que ela use o que lhe dei para fazer mal e prejudicar outros).

É uma solução perfeita? Não. Logo à partida porque posso estar a desperdiçar recursos que poderiam ser muito mais úteis para quem realmente precisa. E, depois, porque estou a alimentar a fraude, eventualmente até a fazê-la crescer. Mas não há maneira de ultrapassar esta dificuldade.

A recusa em dar ajuda não me parece uma solução para este dilema, é apenas uma forma de o evitar, de fugir a ele. Eu opto por assumir a dúvida e as sensações desagradáveis consequentes (principalmente, quando descubro que fui enganado, como Lídia Jorge suspeita razoavelmente que o foi).

No fim de tudo, perguntar-me porque é que dou é quase o mesmo que perguntar-me porque é que ando: porque posso fazê-lo e isso me serve bem.

Devo acrescentar que, aqui, fui muito influenciado pela extraordinária peça Huis-Clos / À Porta Fechada, de Jean-Paul Sartre (Artistas Unidos / Livros Cotovia, 2013). Nesta peça discute-se muito esta questão do que somos, de como os outros nos veem e de como nós nos avaliamos. Sartre, na voz de uma das suas personagens, Inês, propõe que:

Só os actos decidem aquilo que quisemos (sic). (p. 51 da edição referida acima)

 

(…) Chego à conclusão de que ninguém consegue apagar os livros que lê na infância.


Em Todos os Sentidos - 32, a

  (foto tirada do Jornal de Notícias de 24-01-2023 ) 32 ~ A Rapariga dos Fósforos Pertenço a uma geração de crianças que leram A Rapariga do...