2 ~ O Tubarão
Como o tempo passa. À medida que passa os acontecimentos separam-se, alguns desaparecem, outros deformam-se, outros mantêm-se vivos como se o tempo não tivesse passado. (...)
(18) «Perpassa pelas sociedades o sentimento de que, perdendo-se o valor do livro, se perde a face da Humanidade. (…) Não nos queremos perder, o livro ainda é o nosso fio de Ariadne.»
Porquê? Penso que tem a ver com a fragilidade do livro: é tão fácil destruí-lo, queimá-lo, rasgá-lo! Esta fragilidade é um símbolo perfeito da fragilidade da cultura em geral. Mas isto também se passa com a pintura, por exemplo; e não sentimos a mesma coisa. Porque é que com o livro é diferente?
Penso também que tem a ver com a intimidade que rodeia a nossa relação com o livro: ele pode acompanhar-nos para qualquer lado que vamos, tocá-lo conforta-nos e dá-nos segurança, ele entrou e ficou na nossa intimidade, palavras que ficam a reverberar no silêncio, mais belas do que os nossos pensamentos, algo de bom e de seguro em que podemos repousar durante tempos de aflição.
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(20) «Coube-me assegurar-lhe que sim, que demora vinte anos a fazer um leitor de literatura, (…)
Quanto tempo demora? Quanto tempo me durou? A resposta só pode ser uma: todo o tempo e, mesmo assim, não é suficiente. Trata-se de um “work in progress”, que nunca acaba, algumas vezes parecendo que incessantemente o recomeçamos.
Sei quando comecei esse trabalho (até ali, como muitos outros, só procurava o divertimento fácil): foi aos 17 anos, com a leitura de Oscar Wilde (o despertar) e com Vergílio Ferreira (o início da maturação, e com quem continuo até hoje).
E, já agora, o estímulo para amar a leitura não veio propriamente da escola (pelo menos, não diretamente), mas do tédio fecundo das longas e solitárias férias de verão.
Assegurei a Igor Losada que sim, que também se demora vinte anos a ser alfabetizado em cinema. Os analfabetizados ficam pelos descendentes de O Tubarão e pelos livros de Dan Brown. Passaram alguns meses. Valeu a pena ter estado em Guadalajara.
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